A tradição cristã da Paixão de Cristo volta a ocupar as ruas de Belém e Ananindeua neste mês de abril, com apresentações que unem fé, arte e questões sociais contemporâneas. Em diferentes bairros, grupos comunitários e coletivos teatrais promovem encenações abertas ao público que recontam os últimos momentos da vida de Jesus Cristo. As montagens envolvem centenas de pessoas e buscam evangelizar por meio da linguagem cênica, enquanto promovem reflexão sobre temas atuais, como ecologia, conflitos sociais e espiritualidade.
No bairro de Canudos, em Belém, a Comunidade Santo Agostinho da Aldeia realiza, pelo 42º ano consecutivo, a encenação da Paixão de Cristo. O espetáculo será apresentado na Sexta-feira Santa (18), a partir das 19h, com saída da quadra da Paróquia São José de Queluz, na Avenida Cipriano Santos. Já a pré-estreia ocorrerá na quarta-feira (16), às 19h30, no mesmo local, com ingresso simbólico de R$ 5. Organizada pelo Grupo Experimental do Teatro Aldeato, a montagem tem duração de até três horas e contará com mais de 200 pessoas envolvidas.
Neste ano, o tema escolhido foi “Paixão de Belém, Paixão pela Vida”, em diálogo com a Campanha da Fraternidade 2025, que aborda a Ecologia Integral. A proposta é relacionar a cruz — símbolo máximo da Paixão — aos dilemas da Amazônia, incluindo os impactos ambientais, os direitos dos povos originários e as desigualdades sociais. “A cada ano, conseguimos atualizar a mensagem da Paixão com a realidade que vivemos. É uma maneira de evangelizar por meio da arte, com canto, dança e teatro”, explica o diretor Aluizio Freitas.
O jovem Juan Moraes, de 26 anos, será o intérprete de Jesus pela primeira vez, após mais de uma década participando da montagem. “É mais que um papel. É uma experiência espiritual que exige entrega total”, afirma. A preparação do elenco começou há quatro meses e inclui ensaios técnicos e momentos de oração. O diretor cênico Arthur Neves destaca os desafios logísticos da apresentação nas ruas, mas reforça que o esforço vale a pena: “O espetáculo envolve fé, arte e dramaturgia. A mensagem do amor de Cristo se fortalece com o envolvimento popular”.
Na Terra Firme, o Grupo de Teatro Em Linhas Quebradas aposta em uma leitura contemporânea com a peça “Viagem no Tempo Combate”, que será apresentada nos dias 16 e 18, sempre às 19h, em diferentes pontos do bairro. Dirigido por Otávio Freire, o espetáculo propõe uma reflexão sobre o bem e o mal, misturando passagens bíblicas com elementos da atualidade. “Utilizamos o teatro paradoxal para mostrar que a essência do evangelho continua viva, mesmo diante dos desafios do mundo moderno”, afirma o ator Ely Chaves, que interpreta Lúcifer.
Outras apresentações também integram a agenda da Semana Santa na Região Metropolitana. No dia 15, o Ministério Getsêmani apresenta sua montagem no Teatro Margarida Schivasappa, com ingressos à venda online. No dia 18, o Grupo Teatral Filhos de Geraldo leva a encenação para as ruas do Conjunto Geraldo Palmeira, em Ananindeua. A Paróquia São Vicente de Paulo, no bairro do PAAR, também promoverá uma apresentação gratuita na Sexta-feira Santa, a partir das 18h. E no dia 21, a Companhia de Teatro Javé encerra a programação na Usina da Paz da Terra Firme, às 20h.
As encenações são, ao mesmo tempo, manifestações de fé e resistência cultural. Com recursos limitados e pouca estrutura, os grupos seguem firmes em levar teatro às ruas, alcançando públicos diversos e emocionando espectadores que muitas vezes têm ali o primeiro contato com a linguagem teatral.
Com informações de O Liberal.