O brega é exagero, dor de cotovelo, brilho, paixão. E agora, também virou motivo de debate acalorado no Congresso Nacional. O Senado aprovou, na semana passada, um projeto de lei que concede a Recife o título de Capital Nacional do Brega. A decisão, no entanto, não agradou aos belenenses, que também reivindicam a paternidade (ou maternidade) do gênero musical que faz vibrar corações em festas populares, bares e rádios das duas capitais.
A proposta foi aprovada na Comissão de Educação do Senado e está pronta para ser sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Porém, nesta segunda-feira (20), o senador paraense Beto Faro (PT) apresentou um recurso pedindo que o projeto seja discutido em plenário. Seu objetivo é garantir o reconhecimento também à capital paraense: “Belém tem uma trajetória histórica no desenvolvimento desse gênero musical. Vem da guitarrada, da batida indígena, do bolero, do carimbó e da lambada”, afirmou Faro.
O deputado federal Felipe Carreras (PSB-PE), autor da proposta, rebateu com diplomacia. “Nada impede que o colega de outro estado faça a sua parte. Nossa intenção não é excluir, é amplificar. Tenho o maior respeito pelo querido povo do Pará e a sua rica manifestação cultural”, afirmou o parlamentar pernambucano.
Na capital pernambucana, o brega floresceu nos anos 1970 e teve seu maior símbolo em Reginaldo Rossi, cuja canção “Garçom” virou hino nacional da sofrência. Hoje, o ritmo se transforma constantemente com nomes como Priscila Senna, Michele Mello, MC Loma, MC Elvis e MC Neiff, que carregam o bregafunk para os palcos, festas e virais nas redes sociais.
Recife institucionalizou o gênero. O prefeito João Campos (PSB) já apareceu dançando em vídeos com óculos juliette e cabelo descolorido ao som de brega funk. O município ainda promove o festival "Recife Capital do Brega" e abriga bares temáticos como a Confraria dos Chifrudos. Além disso, o Dia Nacional do Brega foi oficializado em 14 de fevereiro, data de nascimento de Reginaldo Rossi, por lei de autoria do deputado federal Pedro Campos (PSB).
Enquanto isso, Belém construiu sua própria narrativa brega por meio das aparelhagens — imponentes estruturas de som e luz que, desde os anos 1970, animam as periferias da cidade. O tecnobrega, herdeiro da lambada e da guitarrada paraense, ganhou o mundo com nomes como Gaby Amarantos, vencedora do Grammy Latino em 2023.
A capital paraense também deu origem à lendária banda Calypso, liderada por Joelma e Chimbinha, que levou o brega pop para palcos nacionais e internacionais, sempre com forte influência latina. “Belém é centrada na aparelhagem e nos ritmos latinos, com a guitarrada como base”, explica o pesquisador Yuri da BS. Para ele, o justo seria reconhecer ambas como capitais do gênero. “Ninguém quer perder o brega para outro lugar, porque aquilo faz parte intrínseca do local”.
Pesquisadores apontam que Recife e Belém desenvolveram vertentes distintas do brega, mas com origens populares semelhantes. Thiago Soares, autor do livro “Ninguém é perfeito e a vida é assim: a música brega em Pernambuco”, afirma que o estilo surgiu como uma dissidência da Jovem Guarda, em shows nas periferias. “Certamente as duas cidades são capitais do brega, e é importante ter leis que reconheçam o movimento”, argumenta.
A polêmica no Congresso escancara o que os fãs do gênero já sabem há tempos: o brega não tem dono, mas tem raízes profundas, emocionais e culturais que fincaram em Recife e Belém. Reconhecê-las é também reconhecer a diversidade e a força da cultura popular brasileira.
Com informações do Diário do Pará.