COP30: o legado será uma "cura" ou apenas maquiagem?

Enquanto Belém recebe obras bilionárias para a Conferência do Clima, problemas crônicos como saneamento e mobilidade persistem. Críticos apontam "greenwashing" e um legado que pode não chegar a todos

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Fotos: Diário do Pará | Editoria especial da Cop30

Belém se veste para uma festa que parece não ser sua. Com um véu de concreto e andaimes, a metrópole da floresta ensaia seu papel no grande palco do mundo, a 30ª Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas (COP30). Anunciam-se cerca de R$ 4,5 bilhões em investimentos, uma chuva de dinheiro que promete lavar a alma de uma cidade calejada por promessas. Falam em legado, em transformação. Mas, por trás da maquiagem de obras apressadas e discursos otimistas, a noiva da vez revela as olheiras profundas de um abandono crônico.

A narrativa oficial é um samba de uma nota só, vibrante e cheia de certezas. Representantes do governo garantem que tudo está "rigorosamente dentro do cronograma". O Parque da Cidade, erguido sobre as cinzas de um antigo aeroporto, é vendido como o Éden do pós-evento, com suas ecotrilhas e lagos artificiais. O Mercado de São Brás, jóia da arquitetura de ferro, foi o primeiro a receber o laquê da reforma. Ruas ganham asfalto novo, viadutos rasgam o céu e galpões esquecidos no porto são reinventados como vitrines gourmet. É a cidade-cenário, construída a toque de caixa para os olhos do mundo. [Imagem 1 aqui]
A mobilidade travada e o saneamento para poucos

No entanto, basta desviar o olhar do roteiro para enxergar o avesso da trama. A mobilidade urbana, eterno calo nos pés do belenense, segue sendo um labirinto de ônibus superlotados e um trânsito que mais parece um teste de paciência. O BRT Metropolitano, essa miragem que se arrasta desde 2019, promete sua redenção para julho de 2025, um "quase lá" que soa familiar demais. A rede hoteleira modesta e o aeroporto acanhado se preparam para o que parece ser um milagre da multiplicação dos pães e dos leitos.

E o que dizer do saneamento? Enquanto o discurso oficial acena com o benefício para 500 mil pessoas, a realidade escorre por outros canais: a coleta de esgoto mal arranha a superfície do problema, contemplando uma fração ínfima da população. Os grandes investimentos em macrodrenagem parecem seguir o fluxo do dinheiro, beneficiando bairros onde a enchente é apenas uma notícia na TV. Para a periferia, a água continua subindo, teimosa e real, alheia aos holofotes da Conferência do Clima.

A pressa inimiga do verde

A pressa, inimiga da perfeição e da legalidade, cobra seu preço. Obras como a da Rua da Marinha chegaram a ser suspensas por atropelarem o licenciamento ambiental. A Avenida da Liberdade avança sobre uma Área de Proteção Ambiental, uma facada verde no coração do discurso sustentável.

Especialistas e vozes dissonantes neste coro de contentes alertam para o "greenwashing", a maquiagem verde que encobre as velhas práticas. Projetos engavetados há décadas são ressuscitados, não por sua pertinência, mas pela oportunidade. É a grande liquidação de ideias velhas com a etiqueta nova da COP. [Imagem 2 aqui]
Enquanto isso, o povo, o verdadeiro anfitrião desta festa, assiste a tudo de longe. Uma pesquisa da Belém Negócios revela o óbvio ululante: 81,7% dos belenenses não sabem o que é a COP30. A cidade se transforma para receber o mundo, mas esquece de convidar os de casa para a conversa. O legado que se espera nas ruas não é o de centros de convenções ou jardins suspensos, mas o de emprego, transporte digno e o fim do convívio íntimo com o esgoto a céu aberto.

A "COP da Floresta", ao que tudo indica, revelará ao mundo a fratura exposta da "Amazônia urbana". O sucesso do evento não será medido pela eficiência logística em servir os delegados, mas pela coragem de encarar as contradições. Belém se prepara para falar sobre o futuro do clima, enquanto ainda luta para garantir um presente minimamente digno aos seus. A cidade se enfeita, esperando que a maquiagem dure, pelo menos, até o fim da festa.