A última página de Luis Fernando Verissimo
O escritor, cartunista e músico gaúcho Luis Fernando Verissimo faleceu neste sábado (30), em Porto Alegre. Autor de clássicos como "Comédias da Vida Privada", ele deixa um legado de inteligência, humor e uma observação afiada do cotidiano brasileiro.
Foto: Revista Veja/Reprodução
Há manhãs que chegam com o peso de um ponto final. Manhãs em que o café parece mais amargo e o silêncio, mais denso. A deste sábado, 30 de agosto, foi uma delas. O Brasil, de norte a sul, acordou com uma cadeira vazia na mesa de domingo, um espaço em branco no jornal. Na madrugada fria de Porto Alegre, aos 88 anos, Luis Fernando Verissimo virou a última página. As complicações de uma pneumonia severa, que o mantinham internado no Hospital Moinhos de Vento desde o início do mês, foram o ponto final de uma vida dedicada a encontrar o extraordinário em nossos dias mais comuns.
Falar de Verissimo é um risco. O risco de soar pomposo ao descrever um mestre da simplicidade. Filho de Erico Verissimo, um titã que ergueu continentes inteiros com suas palavras, LFV – a sigla íntima que os leitores lhe deram – poderia ter sido apenas uma nota de rodapé na obra do pai. Mas ele escolheu outro caminho. Enquanto Erico narrava a vastidão dos pampas e as sagas de um tempo histórico, Luis Fernando mirou na lente de aumento. Encontrou seu universo não nos grandes heróis, mas no vizinho de apartamento, na briga de casal, na conversa fiada da mesa de bar, na estranha e cômica mania de ser brasileiro. Ele não escreveu sobre o tempo; escreveu sobre o nosso tempo.
Nascido em Porto Alegre, em 26 de setembro de 1936, ele era um homem de muitas melodias. Antes de ser o cronista que nos ensinou a rir de nós mesmos, ele foi o saxofonista da banda Jazz 6, soprando as notas de uma paixão que o acompanharia pela vida inteira. Talvez tenha sido no improviso e na cadência do jazz que ele aprendeu a dar ritmo à sua prosa, a encontrar a síncope perfeita entre a ironia e a ternura. O jornalismo, que abraçou nos anos 60, primeiro como revisor no Zero Hora, foi o palco onde essa música se transformou em palavra, ecoando em colunas que se tornaram leitura obrigatória em gigantes como O Estado de S. Paulo e o Jornal do Brasil.
Seu legado é uma estante farta, com mais de 70 títulos que são, na verdade, espelhos. Quem não se sentou no divã imaginário do Analista de Bagé, aquele freudiano às avessas que curava neuroses com a sabedoria rude e certeira do campo? E a Velhinha de Taubaté? Ah, a Velhinha... que não era apenas uma senhora ingênua que acreditava em tudo que o governo dizia. Ela era, e ainda é, o retrato ácido e desconfortável de uma nação inteira, muitas vezes disposta a aceitar a mentira mais conveniente em vez da verdade mais trabalhosa. Verissimo não criava personagens; ele nos revelava.
Seu olhar era tão preciso que saltou do papel para a tela. "Comédias da Vida Privada", uma de suas coletâneas mais celebradas, transformou-se em crônica televisiva nos anos 90, e o país se viu ali, naquelas situações banais e universais, rindo e se emocionando com a genialidade de quem via poesia na rotina.
Os últimos anos, no entanto, impuseram a Verissimo a mais cruel das ironias. O homem que dominava o alfabeto como poucos começou a ser traído por ele. A convivência com o Parkinson e as sequelas de um AVC em 2021 foram silenciando, aos poucos, sua capacidade de comunicação. As palavras, antes dóceis companheiras, se tornaram arredias, feito bichos assustados no fundo da memória. Mesmo assim, quem o conhecia diz que o brilho no olhar, a lucidez e o humor mordaz resistiram até o fim.
A partida de Luis Fernando Verissimo deixa um buraco na alma do país. Ele não foi apenas um escritor. Foi o nosso tradutor simultâneo, o intérprete das nossas pequenas tragédias e alegrias diárias. Um intelectual que nunca precisou de pedestal, pois sua grandeza estava justamente em descer até o nosso nível e nos mostrar o quão complexos e ridículos podíamos ser. Daqui, do meu canto paraense, onde as palavras também são nosso ofício e nosso vício, a sensação é de que o Brasil ficou um pouco mais burro, mais cinza, mais sem graça. Façamos, portanto, sua vontade e o lembremos como ele disse que gostaria:
"Gostaria de ser lembrado pelo o que eu fiz, pela minha obra, se é que posso chamar de obra, mas pelos meus livros. E, talvez, pelo solo de um saxofone, um blues de saxofone bem acabado."
Seu luto se estende à sua companheira de uma vida inteira, Lúcia Helena Massa, com quem era casado desde 1964, aos filhos Pedro, Fernanda e Mariana, aos netos, e a um país de órfãos que, a partir de agora, terá de aprender a ler o cotidiano sem o seu melhor professor. A despedida aberta ao público, para a legião de leitores que o acompanhou por uma vida, teve seu fim às 16h45 na Assembleia Legislativa em Porto Alegre. O último adeus, no entanto, foi um momento de recolhimento, uma cerimônia restrita à família, a partir das 18h, no Cemitério São Miguel e Almas.
Calou-se a voz que traduzia o trivial em assombro. Resta-nos agora o silêncio, e o desafio de enxergar poesia onde antes ele nos apontava o dedo.