Miriti ganha novos significados no Círio e na cultura

Do brinquedo tradicional às passarelas e à arquitetura, o miriti atravessa gerações e reforça a identidade cultural do Pará

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Paula Lourinho

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Mais do que brinquedos coloridos vendidos durante o Círio de Nazaré, os objetos de miriti carregam histórias de fé, resistência e identidade amazônica. Produzido a partir da madeira leve do miritizeiro, o artesanato de Abaetetuba atravessa gerações, consolidando-se como símbolo cultural e patrimônio do Pará.

Além de valor artístico, o miriti gera renda e movimenta a economia criativa de Abaetetuba. A produção, sustentável e livre de tintas tóxicas, ganhou projeção nacional e internacional.

O Museu do Círio também preserva a memória, exibindo peças doadas por romeiros e artistas locais. Para especialistas, o miriti não é apenas brinquedo, mas expressão profunda da vida ribeirinha.

O miriti, um dos maiores símbolos do Círio de Nazaré, atravessa séculos como expressão da cultura amazônica. Feito da madeira leve do miritizeiro (Mauritia flexuosa), o artesanato de Abaetetuba se transformou em patrimônio cultural imaterial e hoje ressignifica tradições, da fé à moda, passando pela arquitetura e pelo turismo.

Desde criança, o artesão Rivaildo Peixoto, o Mestre Riva, mergulhou no ofício. Neto e filho de artesãos, ele transmite a tradição às netas Beatriz e Rayane, que já iniciaram na pintura das peças. Aos 50 anos, Riva define o trabalho como missão de vida: “O miriti é a extensão da minha alma”.

Sustentabilidade é marca do ofício: os artesãos utilizam tintas não tóxicas e reaproveitam a palmeira de forma consciente. O resultado são miniaturas coloridas que encantam crianças e adultos, especialmente durante a procissão do Círio de Nazaré, onde os brinquedos aparecem desde 1793.

O reconhecimento é oficial. Em 2009, uma lei estadual consagrou o brinquedo de miriti como Patrimônio Cultural do Pará, reforçando sua importância econômica e identitária.

Neste ano, a Feira do Artesanato de Miriti 2025 acontece de 8 a 12 de outubro, na Praça Dom Pedro II, em Belém, reunindo 49 estandes de artesãos de Abaetetuba. O evento traz o tema “Tradição, Arte e Sustentabilidade rumo à COP 30”, unindo cultura popular e debates ambientais.

O Museu do Círio também mantém vivo o legado. Com mais de 500 peças de miriti em acervo, o espaço expõe anualmente cerca de 40 objetos, revelando a relação entre devoção, memória e pertencimento amazônico. Para o historiador Márcio Figueiredo, diretor do museu, o miriti é “um símbolo potente de pertencimento do povo ribeirinho”.

A tradição vai além do Círio. O arquiteto Caíque Lobo utiliza peças de miriti em projetos residenciais e exposições nacionais, defendendo o artesanato como elemento de identidade amazônica. Já a influenciadora Dina Carmona viralizou nas redes ao vestir um look feito de miriti, conectando a tradição à moda contemporânea.

Assim, o brinquedo que nasceu como expressão da fé popular hoje se transforma em arte, moda e design, sem perder suas raízes na infância, na religiosidade e na cultura paraense.

FONTE: Agência Belém