Na noite da última sexta-feira, 10 de outubro, a Cidade Velha de Belém foi palco de um batismo coletivo. Enquanto a cidade se preparava para mais uma Trasladação, a chuva, essa velha conhecida nossa que rege a vida na Amazônia, desabou sobre a Praça do Carmo. O que poderia ser um mau presságio para qualquer evento, ali, no ponto de partida do 32º Auto do Círio, foi recebido como uma bênção. Entre os 350 artistas e as centenas de fiéis, a água não afastou, mas sagrou o início de uma das mais potentes manifestações da cultura paraense, um ato que, em 2025, transcendeu a homenagem à padroeira para se tornar um manifesto endereçado ao mundo.
Com o tema "Nossa Senhora de Nazaré, iluminai as lutas dos Povos da Amazônia", o espetáculo de rua, reconhecido como Patrimônio Cultural e Imaterial do Brasil, assumiu uma urgência particular. Tendo a iminente COP30 como pano de fundo, a tradicional "procissão profana", organizada pela Universidade Federal do Pará (UFPA), transformou a fé mariana em linguagem universal para traduzir o grito de socorro da floresta. Foi uma prece política, uma crônica poética encenada sob o céu amazônico, questionando o futuro que se avizinha e celebrando a resiliência de quem aqui vive.
O roteiro do cortejo foi uma audaciosa apropriação teológica: os quatro mistérios do Rosário Mariano foram ressignificados como atos de um grande drama socioambiental. A estrutura da fé serviu de palco para a epopeia contemporânea da Amazônia, conectando a devoção à Virgem com a crise climática e a luta dos povos originários, quilombolas e ribeirinhos.
O primeiro ato, o Mistério Gozoso, celebrou a cultura e a vida amazônica, mas uma celebração atravessada pela ameaça da perda. A alegria da floresta e de seus povos foi apresentada em contraponto direto com a insegurança alimentar causada pela contaminação dos rios e pelas queimadas. Em seguida, o Mistério Doloroso mergulhou na dor da crise climática, tendo como clímax o "Funeral dos Combustíveis Fósseis". Em uma releitura potente, a corda do Círio virou a "Corda da Dor", simbolizando o sofrimento compartilhado e o clamor por "milagres climáticos", enquanto carpideiras choravam publicamente pelo futuro da Amazônia.
Mas na Amazônia, a luta sempre renasce em festa. O Mistério Glorioso traduziu a ressurreição como a explosão do "Carnaval amazônico", uma afirmação de que a cultura popular é a mais potente forma de resistência. A mensagem foi clara: apesar da devastação, os povos da Amazônia não apenas existem, mas "r-existem". O cortejo culminou com o Mistério Luminoso, onde a luz divina foi equiparada à efervescência cultural das periferias, com o tecnobrega e o rock paraense como faróis de sabedoria e revelação, personificados na figura da embaixadora do evento, a cantora Gaby Amarantos.
O Auto do Círio 2025 também foi um marco de protagonismo feminino. Pela primeira vez na história, toda a equipe técnica foi comandada por mulheres, um espelho organizacional da própria figura de Maria e um reflexo da realidade da Amazônia, onde as mulheres estão na linha de frente da resistência. O evento, que não consta na programação oficial da Arquidiocese, ocupa um espaço singular de "crítica sancionada": é independente o suficiente para questionar e, ao mesmo tempo, integrado à gigantesca "Operação Círio" do Estado, o que lhe garante a segurança e a legitimidade de um evento de massa.
Naquela noite chuvosa, o Auto do Círio foi um prelúdio para a COP30, um recado direto à comunidade internacional. Um lembrete de que o mundo vem à Amazônia não para ditar regras, mas para aprender com seus povos. A fé, fundida com a arte e a coragem, provou mais uma vez ser um poderoso catalisador para a consciência política, transformando as ruas de Belém em um altar de esperança e luta.
Os Quatro Mistérios do Auto do Círio 2025
Mistério Gozoso: Celebração da cultura amazônica em tensão com a ameaça da perda e da fome.
Mistério Doloroso: O luto pela devastação ambiental, simbolizado pelo "Funeral dos Combustíveis Fósseis".
Mistério Glorioso: A resiliência e a resistência cultural através da alegria do "Carnaval amazônico".
Mistério Luminoso: A sabedoria e a potência cultural das periferias, celebrando o tecnobrega e o rock paraense.