Comunicação popular amplifica vozes locais na crise climática
Iniciativas de comunicação popular dão voz a comunidades amazônicas no debate sobre mudanças climáticas. Projetos desafiam monopólio midiático.
Foto: Divulgação/ Carta Capital
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Comunicação popular emerge como contraponto à cobertura midiática tradicional sobre crise climática na Amazônia. Iniciativas como Comitê de Comunicadores Populares das Baixadas de Belém, Epicentro Jornalismo, podcast Aldeia Urbana e Tapajós de Fato dão voz a comunidades locais que desenvolvem soluções práticas para desafios ambientais. Projetos desafiam concentração midiática - dados mostram que políticos controlam grande parte dos veículos de comunicação. Comunicação popular transforma-se em ferramenta de empoderamento e resistência, garantindo que ribeirinhos, indígenas, quilombolas e periféricos narrem suas próprias histórias no debate climático.
A emergência climática global é agravada por um profundo desequilíbrio na divulgação de informações. Enquanto a grande mídia frequentemente propaga narrativas globais e técnicas, carregadas de visões elitistas e colonialistas, as comunidades mais diretamente afetadas pelas mudanças ambientais – como as populações periféricas, ribeirinhas, indígenas e quilombolas – permanecem sem voz. Esses grupos, que estão na vanguarda dos impactos climáticos e desenvolvem soluções práticas e inovadoras, continuam marginalizados no debate público.
Como contraponto a essa realidade, a Comunicação Popular tem se fortalecido nos últimos anos. Essa abordagem funciona como um canal onde jovens comunicadores, artistas, ativistas e lideranças locais geram, difundem e contextualizam informações sobre justiça climática, direitos e políticas públicas, sempre a partir do olhar e das experiências de seus próprios territórios.
A base desse movimento é a certeza de que as discussões sobre o clima são incompletas sem a participação ativa e central dessas comunidades. A verdadeira democratização da informação, portanto, não se resume a garantir o acesso a ela, mas sim a assegurar o direito de contar a própria história e de representar seu espaço para aqueles que sempre foram silenciados.
Para superar os diversos obstáculos que enfrentam, essas iniciativas se organizam de forma coletiva. Uma estratégia fundamental tem sido a formação de Comitês de Comunicação Popular, redes que reúnem comunicadores em espaços de aprendizado, criação de conteúdo e mobilização política. Nesses grupos, a comunicação é realizada pelas comunidades e para as comunidades, e não apenas sobre elas.
Esses comitês desafiam o modelo dominante de informação ao estabelecer ecossistemas de comunicação baseados na cooperação, no apoio mútuo e na troca de conhecimentos. A informação deixa de ser um produto comercial e se torna um patrimônio coletivo. O conteúdo surge da realidade vivida nos territórios: os efeitos da seca no dia a dia, a batalha por saneamento básico, o combate à violência ambiental e política.
Além disso, a comunicação popular é uma ferramenta de empoderamento e um ato de resistência contra o domínio da mídia corporativa e o controle das narrativas por grupos políticos e econômicos. Dados da Artigo 19 mostram a concentração midiática: de 50 veículos analisados, 32 são de propriedade de deputados federais e nove de senadores, uma estrutura majoritariamente controlada por uma elite branca e masculina.
Pesquisas do Intervozes reforçam essa concentração, revelando que políticos são donos de diversas emissoras de rádio e TV. Nas eleições de 2024, 46 candidatos com esse perfil foram identificados – 80% eram homens e apenas um se declarou negro, todos heterossexuais e cisgêneros. No projeto “Amazônia Livre de Fake”, 32 políticos da região foram flagrados disseminando desinformação online, sendo que 11 deles também são proprietários de mídia – 78% homens e predominantemente brancos.
Como é possível esperar uma pluralidade de narrativas se a diversidade está ausente desses espaços? É por isso que apoiar e fortalecer iniciativas de comunicação popular é uma ação política crucial.
Oportunidades de capacitação na Comunicação Popular
Dentre essas experiências, destaca-se o Comitê de Comunicadores Populares das Baixadas de Belém, uma articulação criada pela Na Cuia que capacita jovens, coletivos de periferia e comunidades tradicionais para produzir e disseminar narrativas sobre clima, território e direitos, promovendo a democratização da informação a partir das vozes locais.
Outro exemplo inspirador é a Epicentro Jornalismo, um centro de mídia independente fundado pela Palmares Lab, com raízes nas regiões Norte e Nordeste. A iniciativa se dedica a amplificar narrativas locais sobre a crise climática e ambiental, valorizando a criatividade e os saberes das periferias, quilombos e comunidades ribeirinhas, que constroem soluções a partir de seus modos de vida.
No campo sonoro, o podcast Aldeia Urbana se consolida como um espaço de escuta e resistência. Criado por Cristian e Thaigon, estudantes indígenas do povo Arapiun (Tapajós) na Universidade Federal do Pará (UFPA), o programa conecta as vozes indígenas e periféricas ao debate público, abordando temas que vão da cultura ancestral até as políticas urbanas e os desafios da Amazônia atual.
Já o Tapajós de Fato (TdF) é um veículo de comunicação popular, independente e alternativo que atua no oeste do Pará. Surgido da carência de meios de comunicação comprometidos com as realidades das populações rurais, indígenas e quilombolas, o TdF fortalece o direito à informação de forma acessível e participativa, tornando-se uma voz ativa na defesa do território e da Amazônia.
Em um cenário onde a crise climática e a crise informativa se interligam, experiências como essas evidenciam que a comunicação popular é, antes de tudo, um ato político, coletivo e transformador. Elas reafirmam que democratizar a informação significa redistribuir o poder de narrar, deslocando o eixo do discurso para as margens – que, na verdade, sempre foram o coração pulsante da Amazônia.
Essas iniciativas constroem uma nova ecologia da comunicação, fundamentada na solidariedade, no pertencimento e na justiça climática, em oposição ao monopólio da mídia hegemônica. Ao incentivar a escuta, a partilha de saberes e o protagonismo local, essas redes transformam a comunicação em um instrumento de libertação, conectando lutas locais a agendas globais.
Dessa forma, comunicar se torna também um ato de cuidado, resistência e reinvenção do futuro. Quando as periferias, os povos indígenas, quilombolas e ribeirinhos assumem o direito de contar suas próprias histórias, o mundo não apenas ouve, mas é transformado por elas.