Enquanto Belém ferve com as compras de última hora para o réveillon e a busca pela roupa branca perfeita para pular as sete ondas, nas águas salgadas que banham Marapanim, a verdadeira renovação de esperanças aconteceu um pouco mais cedo, e sem precisar de fogos de artifício barulhentos. Foi com o som doce de flautas doces e o riso de crianças que a Praticagem da Barra do Pará encerrou seu calendário social de 2025, provando que o espírito natalino — e o compromisso com o futuro — não termina quando o Papai Noel vai embora.
Nesta semana, a 6ª edição do Natal Solidário aportou nas comunidades de Vista Alegre e nas ilhas de Itauaçú e Tamaruteua. Para quem conhece a geografia do nosso Pará, sabe que chegar lá não é tarefa para qualquer um. É preciso conhecer a maré, respeitar o rio e, acima de tudo, ter vontade de estar lá. E foi exatamente isso que voluntários e a equipe do projeto Formando Leitores fizeram: levaram teatro, coral e até as princesas da Disney para um cenário onde a rainha é a floresta e o rei é o rio.
Muito mais que presentes: dados que transformam
É fácil se emocionar com a foto de uma criança sorrindo, mas meu lado jornalista de dados precisa te mostrar o que sustenta esse sorriso. O Pará vive um momento crucial na alfabetização. Segundo dados recentes da Secretaria de Estado de Educação (Seduc), em 2025 celebramos avanços significativos na fluência leitora das crianças do ensino fundamental. Mas os números frios das estatísticas estaduais muitas vezes escondem o desafio da "última milha": como garantir que essa qualidade chegue à criança ribeirinha, onde a internet oscila e o acesso é ditado pela natureza?
É aí que entra a relevância de iniciativas privadas como o "Formando Leitores". Há três anos, o projeto atua justamente nessas lacunas, beneficiando mais de 100 crianças com reforço escolar e incentivo à leitura. Não é apenas sobre dar um livro; é sobre criar o hábito, a cidadania e a perspectiva.
O diferencial aqui é a música. Estudos pedagógicos cansam de provar o que a gente sente na pele quando ouve uma boa toada de boi ou um carimbó raiz: a música desenvolve o cérebro, a coordenação e a sensibilidade. Ao oferecer aulas de flauta e musicalização, o projeto não está formando apenas músicos, mas cidadãos mais plenos, capazes de interpretar o mundo com mais complexidade.
Como bem pontuou Jorge Luiz Barbeito, Superintendente da Praticagem Barra do Pará: “Quando investimos em educação, cultura e música, estamos investindo no futuro dessas crianças e de suas comunidades. Ver o brilho nos olhos de cada uma delas reforça a importância de iniciativas que vão além da celebração e geram impacto social real”.
Logística do afeto
Realizar um evento desse porte em ilhas como Tamaruteua exige uma operação de guerra — ou melhor, de paz. A mobilização envolveu moradores locais, educadores e uma rede de voluntariado que é a cara do povo paraense: ninguém solta a mão de ninguém (e nem o remo).
As apresentações culturais, que incluíram desde o clássico Papai Noel até performances dos próprios alunos de música, servem como uma vitrine para os pais verem o potencial dos filhos. É a validação do esforço de um ano inteiro. Em um mundo cada vez mais digital e, ironicamente, desconectado, ver uma comunidade inteira parada para assistir a uma peça de teatro é um ato de resistência cultural tão potente quanto qualquer manifesto.
Compromisso com a Amazônia
A Praticagem da Barra do Pará atua na chamada Zona de Praticagem 03 (ZP3), garantindo a segurança da navegação em águas traiçoeiras e vitais para a nossa economia. Mas, como Barbeito ressaltou, atuar na Amazônia exige reconhecer a responsabilidade social com quem habita esse território.
Ao encerrarmos 2025, fica a reflexão: o que estamos levando para o próximo ano? Em Marapanim, a resposta está na ponta da língua — e dos dedos — das crianças que agora sabem que a música e a leitura são passaportes que ninguém pode tirar delas. Que em 2026, a gente tenha mais notícias assim para contar.
Por Thaís Raquel de Moraes para o Portal Belém.