Ainda estamos tentando processar o choque. A madrugada de 3 de janeiro de 2026 não trouxe apenas o breu de um apagão tático sobre Caracas; trouxe a certeza amarga de que a soberania na América Latina é uma concessão, não um direito. Enquanto escrevo esta coluna da redação aqui em Belém, com o calor úmido nos lembrando o quão perto estamos do epicentro dessa crise, a Operação Resolução Absoluta já é tratada pela mídia norte-americana como um triunfo. Mas, para quem estuda a história além das manchetes garrafais, o gosto é de comida requentada e estragada.
A captura de Nicolás Maduro e a intervenção direta dos Estados Unidos não são um raio em céu azul. São a reprise de um filme de terror geopolítico que já vimos em outras latitudes. A ficção de Jack Ryan, que citei anteriormente, serviu de "preparação de terreno", mas a realidade bebe de fontes muito mais antigas e cínicas. Como diria o nosso poeta exagerado, Cazuza: "Eu vejo o futuro repetir o passado, eu vejo um museu de grandes novidades". O tempo não parou, ele apenas fez uma curva do Oriente Médio para o Caribe.
Ao confirmar os detalhes da operação — o uso do porta-aviões USS Gerald R. Ford, a cegueira imposta pelos ataques cibernéticos e a extração cirúrgica de um chefe de Estado —, fica impossível não traçar o paralelo sangrento com as invasões do Iraque, do Afeganistão e as intervenções na Síria. O modus operandi do Império é assustadoramente consistente: escolha um país fragilizado, demonize seu líder (com ou sem razão), invente uma desculpa moralmente inatacável e, por fim, tome os recursos.
O Script Imperial: Mudam-se as Moscas, Mantém-se o Petróleo
A nova Doutrina "Donroe" — essa atualização grotesca de Donald Trump para a velha máxima de "A América para os Americanos" — é apenas a versão 2.0 da "Doutrina Bush". Vamos aos fatos, porque contra dados não há retórica que se sustente:
1. Iraque (2003): Lembram-se de Colin Powell balançando um frasco na ONU? A desculpa era a existência de "Armas de Destruição em Massa". Nunca foram encontradas. O que foi encontrado e prontamente assegurado? Os campos de petróleo de Rumaila e a hegemonia no Golfo Pérsico. O país foi desmantelado, Saddam Hussein capturado (em um buraco, não em um navio, mas a humilhação foi a mesma) e as empresas americanas lucraram bilhões na "reconstrução".
2. Afeganistão (2001-2021): A justificativa era a caça a Osama Bin Laden e o combate ao terror. Bin Laden foi morto em 2011. Por que ficaram mais 10 anos? Geopolítica pura e um subsolo trilionário em minerais raros (lítio e terras raras), essenciais para a indústria tecnológica, além da posição estratégica ao lado da China. Saíram deixando o caos, mas garantiram contratos e influência enquanto foi conveniente.
3. Síria (2014 - presente): Sob o pretexto de combater o ISIS (Estado Islâmico), os EUA mantiveram tropas especificamente nas regiões... ricas em petróleo. O próprio Trump, em seu primeiro mandato, disse com todas as letras: "We kept the oil" (Nós ficamos com o petróleo).
4. Venezuela (2026): A desculpa da vez é o "narcoterrorismo". É uma cartada de gênio do marketing de guerra. Quem vai defender um suposto narcotraficante? Ninguém. Mas tal como as "armas químicas" do Iraque, essa acusação serve para contornar o Direito Internacional. O alvo real não é o pó branco, é o ouro negro. O petróleo do Cinturão do Orinoco é pesado, denso e perfeito para as refinarias do Texas, que estavam sedentas por segurança energética longe da instabilidade árabe e russa.
A Soberania Seletiva
A analista Martina Giovanetti tem razão ao apontar a hipocrisia do processo. Se "má gestão" ou "governo autoritário" fossem motivos reais para invasão, metade dos aliados dos EUA no Oriente Médio estaria ocupada hoje. A Venezuela foi invadida porque é rica, porque está perto ("no quintal") e porque estava flertando demais com a China e a Rússia.
Para nós, brasileiros, a lição é aterrorizante. A nossa fronteira norte, em Pacaraima, é agora vizinha de uma ocupação militar da maior potência do mundo. Se a soberania da Venezuela — dona das maiores reservas de petróleo do planeta — pode ser anulada em 47 segundos de operação militar, o que blinda a nossa Amazônia? O que protege o nosso Pré-Sal?
Não se trata de defender Maduro. Trata-se de entender que, na lógica da Doutrina Donroe, países latino-americanos não são nações; são almoxarifados. E quando o dono da fábrica decide que o gerente do almoxarifado não serve mais, ele arromba a porta e troca a fechadura.
Cazuza estava certo. As novidades são de museu. O imperialismo tirou a poeira das velhas táticas do século XX e as aplicou com tecnologia do século XXI bem aqui, ao nosso lado. E nós, "que somos jovens" (ou nem tanto), assistimos ao sinal fechar para a autonomia da América Latina.
Por Thaís Raquel de Moraes para o Portal Belém.
Créditos da Reportagem:
• Texto e Análise: Especialista em Geopolítica e Conflitos Internacionais.
• Fontes Primárias: Agências de Notícias (AP, Reuters), Declarações Oficiais da Casa Branca e Governo Venezuelano.
• Análise de Mídia: Monitoramento de TV Globo (Fantástico), Band (Jornal da Band), CNN Brasil, GloboNews e canais digitais independentes.
• Consultoria Teórica: Baseada em Direito Internacional Público e Teoria das Relações Internacionais.
• Data de Fechamento: 5 de Janeiro de 2026.
• (https://www.youtube.com/watch?v=_BjWQ462UhA ) - Cena profética da 2ª Temporada onde a ficção antecipa a justificativa da invasão.
• (https://www.youtube.com/watch?v=bS3eHOOQElE ) - Imagens da CNN mostrando a transferência do presidente deposto para o centro de detenção.
• (https://www.youtube.com/watch?v=cRggfnKhgKU ) - A declaração da Doutrina "Donroe" e a confirmação da operação militar.
• Vídeo: Análise de Martina Giovanetti - A desconstrução da narrativa de narcoterrorismo e o foco na soberania.