Calor no Sudeste: Belo Monte segura quase 10% da demanda nacional no Ano Novo

Com pico de consumo acima de 91 GW no país, hidrelétrica no Xingu atuou como bateria do sistema, abastecendo 28 milhões de residências

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Foto: Jéssica Santana / Norte Energia

Se você passou a virada do ano no ar-condicionado, agradeça à chuva que caiu no Pará. A primeira semana de 2026 começou testando os limites do nosso sistema elétrico, e os números mostram que a engenharia segurou o tranco. Enquanto uma onda de calor atípica fazia os termômetros do Sudeste subirem até 8°C acima do esperado para o período, a demanda por energia disparou. Mas, aqui no Norte, a hidrologia jogou a favor.

Entre o domingo (28) e a última quinta-feira (1°), o consumo nacional rompeu a barreira dos 91 GW nos horários de pico. Para quem gosta de dados, isso é muita coisa. É nesse cenário de pressão que a Usina Hidrelétrica Belo Monte mostrou a que veio. A planta gerou, em média, 8,55 GW nesse período crítico. Traduzindo essa grandeza técnica para a realidade do brasileiro: isso equivale a 9,3% de toda a demanda do país ou, se preferir uma escala mais humana, energia suficiente para abastecer 28 milhões de residências simultaneamente.

A Bateria do Sistema

Existe uma dinâmica quase poética — e puramente física — no funcionamento do Sistema Interligado Nacional (SIN). Enquanto o Rio de Janeiro e São Paulo enfrentam o verão e precisam economizar a água dos seus reservatórios ("caixas d'água"), nós estamos vivendo o inverno amazônico.

Belo Monte opera a fio d'água, o que significa que não temos um grande reservatório de acumulação; a turbina gira com a água que chega. Por isso, o nosso período de cheia é o momento de "acelerar" a produção aqui para poupar o Sudeste e o Centro-Oeste. O empreendimento funciona, na prática, como uma bateria do sistema elétrico: entregamos a energia limpa agora para que os reservatórios do Sul fiquem cheios e evitem o acionamento de termelétricas poluentes e caras mais à frente.

No feriado de 1º de janeiro, Dia da Confraternização Universal, quando o pico de carga no Brasil bateu 85 GW, a usina do Xingu entregou 7,2 GW sozinha. Isso representou o consumo de 23,6 milhões de casas naquele dia.

Recuperação pós-El Niño

Os dados consolidados de 2025 também trazem um respiro em relação ao ano anterior. O Complexo Belo Monte fechou o ano passado com uma geração total de 30.691 GWh. Esse volume supera os registros de 2024, ano em que fomos castigados pela seca severa impulsionada pelo El Niño.

Para se ter uma dimensão do impacto dessa "gigante" 100% brasileira na nossa soberania energética: a energia produzida pela usina em 2025 seria capaz de suprir sozinha cerca de 21 dias de consumo de todo o Brasil. Até outubro, a companhia responsável pela operação manteve a liderança no ranking de produção nacional.

Em tempos de extremos climáticos, onde o calor excessivo demanda cada vez mais refrigeração, a interdependência entre as chuvas da Amazônia e as tomadas do resto do país nunca ficou tão evidente.

Por Thaís Raquel de Moraes para o Portal Belém.

FONTE: Jéssica Santana / Norte Energia