Nipah: Entenda o vírus com 75% de letalidade que atinge a Índia
Especialistas explicam os riscos de pandemia, sintomas e a situação do Brasil diante do surto na Ásia; vacina entra em fase de testes em breve.
Nipah: o fantasma de uma nova pandemia e o que a ciência diz sobre os casos na Índia
Com taxas de mortalidade assustadoras e sem tratamento específico aprovado, o patógeno volta ao radar da OMS; especialistas analisam as chances de o vírus chegar ao Brasil
Se você é fã de cinema como eu, talvez a palavra "Nipah" desperte memórias daquele filme Contágio (2011), onde um vírus fictício — inspirado justamente nele — devasta a humanidade. Mas a vida real, infelizmente, não tem roteiro pré-escrito. O vírus Nipah (NiV) voltou a ocupar as manchetes internacionais nesta semana após a confirmação de novos casos na Índia, acendendo o alerta vermelho em autoridades sanitárias globais. Identificado pela primeira vez em 1998, esse "velho conhecido" da Ásia carrega uma estatística que gela a espinha: sua taxa de letalidade pode chegar a 75%, muito superior à da Covid-19.
O cenário atual envolve a confirmação de casos na região de Bengala Ocidental e Kerala, na Índia, o que levou a Organização Mundial da Saúde (OMS) a monitorar a situação de perto. Diferente do coronavírus, que se espalha com a facilidade de um boato em grupo de família, o Nipah tem uma transmissão mais restrita, mas suas consequências são devastadoras.
O que é o Nipah e como ele ataca?
O Nipah é uma doença zoonótica, ou seja, salta dos animais para os humanos. O grande vilão involuntário dessa história é o morcego frugívoro (gênero Pteropus), também conhecido como raposa-voadora. Alice Del Colletto, doutora em Ciências e coordenadora de Biomedicina da Estácio, explica que o perigo muitas vezes está onde menos esperamos: na alimentação.
"A transmissão ocorre pelo consumo de alimentos contaminados, como frutas ou seiva crua [de palmeira], e pelo contato direto entre pessoas, por meio de secreções respiratórias", detalha a especialista. Ou seja, aquela fruta mordida por um morcego ou a seiva de tâmara in natura podem ser veículos mortais.
Uma vez no organismo, o vírus não dá trégua. Alice alerta para os sintomas iniciais que podem ser confundidos com uma gripe forte: febre, dor de cabeça, dores musculares, náuseas e vômitos. O problema é a evolução rápida. O quadro pode escalar para encefalite aguda (inflamação no cérebro), levando a confusão mental, convulsões e coma em questão de 24 a 48 horas.
Vacina: uma luz no fim do túnel?
Até o momento, não existe um tratamento antiviral específico ou vacina aprovada para uso em massa, o que torna a prevenção a única arma eficaz. No entanto, a ciência não está parada. Pesquisadores da Universidade de Tóquio anunciaram que devem iniciar, em abril deste ano, a primeira fase de testes clínicos em humanos de uma vacina baseada no vírus do sarampo modificado. É a esperança de que, em breve, tenhamos uma barreira imunológica contra esse inimigo invisível.
O Brasil corre perigo?
Essa é a pergunta que não quer calar e que eu sei que você está se fazendo agora. Pode respirar aliviado: por enquanto, o risco é baixíssimo. O Brasil não possui populações naturais dos morcegos do gênero Pteropus, os hospedeiros originais do vírus.
"No Brasil não temos registro da doença e contamos com sistemas de vigilância epidemiológica preparados para identificar rapidamente qualquer caso importado", afirma Silvia Nunes Szente Fonseca, médica infectologista e docente do IDOMED (Instituto de Educação Médica).
Silvia reforça que o nosso Sistema Único de Saúde (SUS) e a vigilância em portos e aeroportos são barreiras ativas. "O acompanhamento de viajantes vindos de áreas com surtos ativos e a capacidade de resposta do sistema de saúde contribuem para reduzir o risco de disseminação no país", pontua a médica.
Para as especialistas, o segredo é a informação, não o pânico. "O Brasil está atento e a população não precisa mudar sua rotina. O momento é de atenção responsável, não de alarme", conclui a Dra. Silvia. Como diria aquele velho ditado que a gente ouve muito aqui no Norte: "seguro morreu de velho". A prevenção básica — lavar bem as mãos e higienizar alimentos — continua sendo a regra de ouro, seja para o Nipah, seja para qualquer outra virose.
Por Thaís Raquel de Moraes para o Portal Belém.