Beijo no Carnaval e Saúde: como se proteger de doenças na folia

Especialistas alertam para aumento de mononucleose e ISTs; saiba como blindar sua saúde íntima e bucal durante os dias de festa

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Foto: Canva pro

O glitter já está na pele, o ritmo das baterias e dos trios elétricos dita o compasso da cidade e a euforia toma conta dos foliões. É Carnaval, o momento de catarse coletiva mais aguardado do ano. No entanto, entre a maratona de blocos e a desinibição típica da festa, um alerta acende no radar da saúde pública: a exposição a vírus e bactérias que encontram na aglomeração — e na troca de afetos — o cenário ideal para proliferação.

Embora ninguém queira ser o "estraga-prazeres" da festa, os dados exigem atenção. O aumento do contato físico, especialmente através do beijo e de relações casuais, eleva significativamente os riscos de transmissão de doenças. Para garantir que a ressaca da Quarta-Feira de Cinzas seja apenas moral (ou alcoólica) e não um problema médico, a prevenção deve ser tão obrigatória quanto a fantasia.

A "Doença do Beijo" e outros riscos invisíveis

A boca é a porta de entrada para diversas infecções e, no Carnaval, ela trabalha dobrado. A mononucleose infecciosa, popularmente conhecida como a "doença do beijo", costuma ter picos de contágio nesta época. Causada pelo vírus Epstein-Barr, ela pode derrubar o folião com febre alta, dores de garganta severas e fadiga extrema — sintomas que, muitas vezes, só aparecem semanas após a festa.

Mas o cardápio de riscos bucais vai além. Segundo a dentista Suyana Carneiro, da Hapvida, é durante as festas que aumentam também os casos de herpes labial e gengivites. "O beijo pode transmitir herpes simples tipo 1, mononucleose e até sífilis, que também tem manifestação bucal. Manter a escovação em dia, hidratar-se bem e evitar o compartilhamento de copos são atitudes fundamentais", explica a especialista.

Outro ponto de atenção é a "química" da saliva misturada ao álcool e açúcar. O consumo exagerado de bebidas alcoólicas e alimentos doces favorece o acúmulo de placa bacteriana. "Muita gente esquece a higiene bucal entre um bloco e outro, mas o ideal é andar com fio dental e enxaguante bucal na bolsa. São hábitos simples que fazem diferença", pontua Carneiro. Vale lembrar que a desidratação reduz a produção de saliva, diminuindo a proteção natural da boca.

Saúde Íntima: proteção não tira férias

Se na parte de cima o alerta é vermelho, na saúde íntima os cuidados devem ser redobrados. O calor, o suor e o uso prolongado de roupas sintéticas (comuns em abadás e fantasias) criam um ambiente propício para fungos e bactérias.

A ginecologista Vitória Cardoso destaca que a exposição a Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs) aumenta consideravelmente neste período. "É fundamental que o uso de preservativos, tanto o masculino quanto o feminino, seja prioridade. Além disso, ambientes úmidos e abafados podem favorecer infecções vaginais", orienta.

O corpo fala, e ignorar seus sinais pode custar caro. Sintomas como coceira, dor, corrimento ou desconforto íntimo pós-folia não devem ser mascarados com automedicação. "A saúde íntima está diretamente ligada à imunidade. Sono desregulado, má alimentação e consumo excessivo de álcool também favorecem desequilíbrios no organismo",completa a médica.

Serviço: Onde buscar ajuda

Como diria o grupo sul-coreano BTS, "Life Goes On" (a vida continua), e para que ela siga plena após a folia, a responsabilidade é essencial. O Ministério da Saúde reforça que, em caso de relações sexuais desprotegidas ou falha no preservativo (estouro ou saída), o folião deve procurar imediatamente uma unidade de saúde de urgência para avaliar o uso da PEP (Profilaxia Pós-Exposição). A medicação, disponível no SUS, deve ser iniciada preferencialmente nas primeiras duas horas e no máximo em até 72 horas após a exposição ao risco de infecção pelo HIV.

Além disso, a PrEP (Profilaxia Pré-Exposição) é uma estratégia disponível na rede pública para quem tem maior vulnerabilidade. Testes rápidos para HIV, Sífilis e Hepatites Virais também estão disponíveis nas Unidades Básicas de Saúde e em ações itinerantes durante o Carnaval.

É possível sim curtir a folia com intensidade. Mas, como em uma boa estratégia de RPG, é preciso estar equipado com as melhores defesas para enfrentar os "chefões" — ou vírus — que aparecem pelo caminho. Com preservativo no bolso, hidratação em dia e consentimento na ponta da língua, o Carnaval pode ser leve, seguro e memorável pelos motivos certos.

Por Thaís Raquel de Moraes para o Portal Belém.