O Pará vive um momento estratégico no campo da Inteligência Artificial. De um lado, o Governo do Estado, por meio da PGE, avança no mapeamento do uso da IA no setor público para criar um marco regulatório próprio, com foco em bioeconomia e sustentabilidade. De outro, a UFPA aprova o primeiro bacharelado em IA da região Norte, com 30 vagas para 2026, aulas no Mirante do Rio e um projeto pedagógico que une técnica, ética e extensão comunitária. A universidade já lidera pesquisas aplicadas em cidades inteligentes, como em Canaã dos Carajás, e conta com o INCT IA Amazônia. O movimento coloca a região no centro da inovação tecnológica nacional.
A Inteligência Artificial (IA) deixou de ser promessa para se tornar realidade concreta no cotidiano de governos, empresas e instituições de ensino. No Pará, esse movimento ganha contornos estratégicos com duas frentes paralelas e complementares: de um lado, o Governo do Estado acelera os estudos para criar um marco regulatório próprio para o uso da tecnologia; de outro, a Universidade Federal do Pará (UFPA) anuncia a criação do primeiro bacharelado em Inteligência Artificial da região Norte, com aulas previstas para 2026. O objetivo comum é colocar a Amazônia no centro do debate sobre inovação tecnológica com responsabilidade social e ambiental.
Governo do Pará mapeia uso da IA para criar legislação sob medida
Instituído pelo Decreto Estadual nº 4.690, um Grupo de Trabalho coordenado pela Procuradoria-Geral do Estado (PGE) está em fase avançada de coleta de informações sobre como a Inteligência Artificial vem sendo utilizada nos órgãos públicos paraenses. A ideia é construir uma proposta de regulamentação que atenda às especificidades da região, considerando áreas como segurança pública, saúde, meio ambiente e educação.
A procuradora Lilian Haber, que coordena a pesquisa, explica que o trabalho envolve um diagnóstico detalhado da estrutura atual do estado em relação à IA. "Estamos consultando cada órgão para saber se possuem laboratórios de inovação, se já utilizam inteligência artificial, se contam com profissionais capacitados ou se há necessidade de formação. A partir desse levantamento, vamos construir um marco regulatório que dialogue com a realidade local", afirma.
O governo estadual concedeu um prazo adicional de até 60 dias para a conclusão dessa etapa de diagnóstico. A expectativa é que, nos próximos dois meses, o Grupo de Trabalho apresente ao governador uma proposta preliminar de legislação. "Queremos que essa lei espelhe as necessidades do Pará, com foco na bioeconomia e na sustentabilidade do nosso povo", completa Lilian Haber.
UFPA lança bacharelado em IA com foco na Amazônia e extensão comunitária
Enquanto o Estado organiza o uso da IA no setor público, a academia paraense dá um salto significativo na formação de recursos humanos especializados. A UFPA acaba de aprovar a criação do curso de bacharelado em Inteligência Artificial, um dos primeiros da região Norte, que oferecerá 30 vagas já no processo seletivo de 2026, no Campus Belém.
As aulas ocorrerão no prédio do Mirante do Rio e contarão com laboratório exclusivo para os estudantes. O corpo docente será formado por professores da Faculdade de Computação do Instituto de Ciências Exatas e Naturais (ICEN), todos especialistas na área.
O reitor Gilmar Pereira destaca o caráter inovador e reflexivo do curso. "Quando se fala em inteligência artificial, é muito mais do que ferramentas como o Chat GPT. Elas são apenas a materialização de um processo. Precisamos discutir as questões conceituais, éticas e filosóficas que envolvem essas transformações. O curso tem esse propósito", afirma.
O projeto pedagógico foi elaborado com base em referências nacionais e internacionais, como o curso da Universidade Federal de Goiás (UFG), onde o bacharelado em IA já supera a concorrência de medicina. "Fomos buscar inspiração em quem já tem experiência consolidada", explica o reitor.
Extensão e inclusão digital como pilares da formação
Além da grade técnica, o curso da UFPA prevê ações extensionistas obrigatórias, como o Letramento em Inteligência Artificial, voltado à população em geral; os Hackathons em IA, que estimulam a criação de soluções inovadoras; e a Fábrica de Software de IA, onde estudantes desenvolverão projetos práticos em parceria com empresas, instituições públicas e organizações sociais.
"Queremos que a comunidade, sobretudo os mais pobres e os mais velhos, tenha acesso a essas tecnologias e saiba utilizá-las da melhor forma possível. É uma política de inclusão", reforça Gilmar Pereira.
A Amazônia será o grande laboratório vivo do curso. "Nossa expectativa é que o bacharelado ajude a entender como lidar com a floresta, com populações tradicionais, ribeirinhos, quilombolas e extrativistas. Será um curso com perspectiva universal, mas com propósito amazônico", completa.
Pesquisa aplicada e cidades inteligentes já colocam Pará no mapa da inovação
A criação do bacharelado em IA não é um movimento isolado. O Pará já vinha se consolidando como polo de inovação tecnológica por meio do Centro de Computação de Alto Desempenho e Inteligência Artificial (CCAD IA) da UFPA e de projetos como o Smart City Canaã dos Carajás, que transformou o município em modelo nacional de cidade inteligente na Amazônia.
Coordenado pela pesquisadora Evelin Cardoso, doutora em Engenharia Elétrica pela UFPA, o projeto utiliza IA e Internet das Coisas (IoT) para resolver problemas reais da população. Entre as soluções desenvolvidas estão um carro inteligente que mede a qualidade do ar, um sistema de reconhecimento facial e emocional para apoiar o diagnóstico precoce de autismo e uma ferramenta de visão computacional que identifica o descarte irregular de resíduos em vias públicas.
Na área da saúde, o projeto atua no rastreamento de marcadores para diagnóstico precoce do câncer do colo do útero, doença com alta incidência na região Norte. "A IA consegue identificar padrões celulares em lâminas de exame e transmitir a análise para especialistas em qualquer lugar do país, mesmo onde não há conectividade. Isso é fundamental em áreas remotas da Amazônia", explica o professor Renato Francês, diretor técnico da Fundação Guamá e titular da Faculdade de Engenharia da Computação e Telecomunicações da UFPA.
Rede nacional e INCT colocam Amazônia como protagonista em IA
O projeto desenvolvido em Canaã dos Carajás faz parte da rede IARA (Inteligência Artificial Recriando Ambientes), que envolve 42 universidades brasileiras e 22 instituições internacionais, além de empresas como Intel e TIM. A cidade paraense foi escolhida como piloto de um modelo que será replicado em outras dez cidades do país.
O protagonismo da UFPA na área resultou na aprovação do único Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) em IA da Amazônia Legal, batizado de IA Amazônia. O instituto reúne pesquisadores de diversas instituições para desenvolver soluções tecnológicas adaptadas aos desafios específicos da região.
Para dar suporte a esse ecossistema, a universidade conta com a mais moderna infraestrutura de computação de alto desempenho do Norte, financiada pela FINEP, com máquinas equipadas com GPUs de última geração, capazes de processar grandes volumes de dados para aplicações como visão computacional, IA generativa e reconhecimento facial.
Desafios: regulação ética e formação de pessoas
Apesar dos avanços, especialistas alertam para os riscos do uso da IA sem regulamentação adequada. Renato Francês, que integra grupos de trabalho no Congresso Nacional e no governo do Pará, defende a criação urgente de marcos legais que protejam a privacidade e os direitos dos cidadãos. "Hoje somos constantemente monitorados sem saber, em redes sociais e plataformas digitais. A regulamentação é urgente e precisa ser construída de forma alinhada entre estados e União."
Ele também aponta a formação de recursos humanos como o maior gargalo para o avanço da IA na Amazônia. "Não adianta ter supercomputadores se não tivermos cérebros treinados. A inteligência artificial não é feita só de algoritmos e máquinas, mas de neurônios humanos. Precisamos formar especialistas em todos os níveis, do letramento digital ao doutorado."
Futuro: cursos técnicos e expansão da formação em IA
Além da graduação e da pós-graduação já existente na área, a UFPA planeja ampliar sua atuação com a oferta de cursos técnicos em IA, seguindo o exemplo da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). "Lá eles têm curso técnico em inteligência artificial, curso técnico de introdução à computação. Criaram uma estrutura para isso. É o que queremos fazer aqui", adianta o reitor Gilmar Pereira.
A expectativa é que o bacharelado em IA seja um dos cursos mais concorridos da universidade nos próximos vestibulares. "É uma área estratégica, especialmente para a juventude, que já chega com bagagem técnica. Nosso desafio é fazer com que eles não apenas operem a tecnologia, mas reflitam sobre ela", finaliza o reitor.
Unicamp também aprova bacharelado em IA com foco em cidades inteligentes e saúde
Em sintonia com o movimento nacional de expansão do ensino superior em tecnologia, a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) deu um passo importante na mesma direção. A Câmara de Ensino, Pesquisa e Extensão (Cepe) da universidade aprovou, em fevereiro de 2026, a criação do bacharelado em "Inteligência Artificial e Ciência de Dados", que será oferecido a partir de 2027 no campus de Limeira, com 40 vagas iniciais. A proposta ainda precisa ser votada pelo Conselho Universitário (Consu), órgão máximo de deliberação da instituição, com expectativa de aprovação .
O curso terá duração mínima de oito semestres e máxima de doze, totalizando 3.240 horas de formação. A grade curricular está estruturada em seis eixos principais: matemática e estatística; computação; ferramentas de IA e ciência de dados; ênfase em áreas de aplicação; competências transversais; e estágio obrigatório .
Diferenciais importantes marcam a proposta da Unicamp. O bacharelado terá três ênfases aplicadas: Cidades Inteligentes e Sustentáveis; Administração Pública e Governo Digital; e Saúde e Esporte de Alto Rendimento . Segundo a pró-reitora de Graduação, Mônica Cotta, "não será um curso voltado apenas para a pesquisa ou serviço público. A ênfase em cidades inteligentes e sustentáveis fala diretamente com o mercado" .
A gestão do curso será compartilhada entre a Faculdade de Ciências Aplicadas (FCA) e a Faculdade de Tecnologia (FT), num esforço interdisciplinar que o reitor Paulo Cesar Montagner classificou como "um passo significativo, porque não é trivial conseguir juntar duas unidades" . A expectativa é que, a partir de 2028, o curso passe a ter uma turma também no campus de Campinas .
Com investimentos em regulamentação, pesquisa de ponta e formação qualificada , tanto na Amazônia quanto no Sudeste, o Brasil busca não apenas acompanhar a revolução da Inteligência Artificial, mas protagonizá-la a partir de perspectivas regionais inovadoras, inclusivas e comprometidas com a sustentabilidade.
Por Portal Belém com redação de Antonia Ribeiro.