1ª edição da MAPA: Belém Recebe Inédita Mostra de Arte e Videomapping

Exposição reúne artistas paraenses para projetar memórias afetivas e históricas da Estrada de Ferro Carajás em um circuito cultural inédito pelo Brasil.

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1ª edição da MAPA: Belém Recebe Inédita Mostra de Arte e Videomapping
Fotos: divulgação

A memória é uma entidade viva, pulsante e, muitas vezes, implacável. Ela viaja pelas águas de rios imensos, cruza os trilhos de aço que rasgam a floresta e se instala no corpo daqueles que recusam o esquecimento. É exatamente essa força narrativa que pauta a chegada da inédita 1ª edição da Mostra de Imagem em Movimento – MAPA à cidade de Belém. Revisitando as memórias ferroviárias e coletivas do sudeste do Pará, o circuito se propõe a expandir a percepção cultural em torno de 27 comunidades atravessadas pela Estrada de Ferro Carajás (EFC).

Com uma proposta que mescla tecnologia, sensibilidade e ancestralidade, o evento promete transformar a capital paraense em uma verdadeira galeria de histórias a céu aberto. O projeto mergulha nas vivências de municípios como Carajás, Marabá e Parauapebas, utilizando a arte contemporânea e o videomapping para dar voz e forma aos relatos cotidianos. Nesta edição, os holofotes se voltam para cinco artistas paraenses: Bárbara Savannah, Ícaro Matos, Juruna, Leonardo Venturieri e Rafa Cardozo.

Através de fotografias, pinturas digitais, colagens e videoartes, essas cinco mentes criativas aprofundam perspectivas únicas, ancoradas em suas próprias trajetórias profissionais e afetivas. No caso da artista visual e pintora Bárbara Savannah, a inspiração flui diretamente dos rios da Ilha de Marajó. Em uma produção que transforma paisagens em pinturas e retratos viscerais da população local, a artista reflete sobre como os deslocamentos moldaram sua arte.

“Eu venho de uma cidade do interior, na Ilha do Marajó, Curralinho, e a minha família também vem de outra cidade dentro do Marajó, de Breves”, explica Bárbara. Para ela, a constante transição geográfica pautou sua visão de mundo. “Como a gente já vem de uma realidade de estar nesse trânsito, de sair do interior pra morar em Belém ou morar em outra cidade, essa questão do deslocamento com os barcos faz com que eu entenda que o meu trabalho vem todo dessa paisagem que se apresenta durante o percurso”. A artista confessa que o projeto a desafiou a revisitar esse lugar de origem de forma crua, porém profundamente real.

Se as águas guiam Bárbara, os trilhos orientam a visão do cineasta e fotógrafo documental Ícaro Matos. Crescido no assentamento Palmares, Ícaro construiu sua pesquisa artística observando os trabalhadores e moradores que dividem a vida com a ferrovia. Ele entende, com precisão cirúrgica, que as cidades ao longo da via se ergueram por meio de uma classe operária que derramou sangue, suor e lágrimas nas fundações de cada estação. “Para mim, é muito importante fazer esse resgate de como Parauapebas se ergue, se faz município através de uma grande massa operária que veio também através dos vagões do trem de Carajás. Inclusive, a minha família”, conta ele, ressaltando que o trem traz consigo o dinamismo cultural de sonhos, ritmos e cultura alimentar.

A pluralidade do MAPA também se evidencia na urgência do corpo como território, visão defendida por Juruna, artista afro-indígena, não binária e nômade. Trazendo um olhar crítico sobre as estruturas sociais, Juruna utiliza a performance e a materialidade — joias, roupas, máscaras — para reivindicar espaço. “Eu nasci e venho de um território do sul do país, uma cidade periférica, pequena, que não tem infraestrutura física e, principalmente, cultural. A minha retomada surge principalmente do corpo”, comenta a artista, que baseia sua arte em referências poderosas como Frantz Fanon, Nego Bispo e os saberes de seus ancestrais.

A trilha sonora dessa jornada visual fica a cargo de Leonardo Venturieri. Utilizando o som como motor criativo, o artista visual e compositor investiga os ritmos que ecoam dos deslocamentos pelo território. Leonardo capta as frequências da paisagem, fazendo a estrutura das memórias tremer com suas composições. “Eu sou um grande admirador da música paraense e regional. O lundu marajoara, por exemplo, é o ritmo que mais influencia em mim. No entanto, busco recodificar suas características de modo que possa expressar singularidades composicionais”, pontua, evidenciando o orgulho latente pela musicalidade que define o Pará.

Fechando esse ciclo de narrativas que convergem, a fotógrafa e artista visual Rafa Cardozo apropria-se do corpo como o mais puro dos arquivos. Para Rafa, a memória não é um mero detalhe; ela é a fundação de sua existência e de sua arte. Assim como um eco na floresta que se recusa a silenciar, suas obras reverberam identidade e ancestralidade. “Olha, eu posso arriscar dizer que a memória é o meu trabalho. Porque ela está em todo o processo, ela está do ponto de partida até o final. Meu trabalho é estar nesse lugar de valorizar as memórias que existem tanto na minha vida pessoal quanto na vida coletiva. Meu trabalho é memória, e é isso”, sentencia.

Os cinco paraenses unem forças a outros talentos do Maranhão — Acaique, Dinho Araújo, Inke, Ramusyo Brasil e Silvana Mendes — formando um esquadrão de dez artistas responsáveis por dialogar não apenas com o público, mas com o próprio conceito de identidade nortista e nordestina.

A jornada do MAPA já possui rota traçada. As exibições iniciam em abril de 2026, no formato “Vagão Cultural – Trem Vale”. Em seguida, o festival aporta nas capitais São Luís (MA) e Belém (PA) no mês de maio. O roteiro se encerra em junho, com uma grande exposição em formato de galeria de arte em Brasília. O evento disponibilizará em breve uma revista digital detalhando o panorama das obras, além de entrevistas em vídeo. O acesso pode ser feito diretamente pela página oficial da mostra no Instagram (@mostramapa).

A iniciativa é uma realização da OPACCA Produção de Imagem, com apoio da Vale, via Recursos para Preservação da Memória Ferroviária (RPMF), e regulação da ANTT.

Por Thaís Raquel de Moraes para o Portal Belém.

 


FONTE: Ryan Reis/Agência Criativos
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