Pavulagem colore Belém e abre temporada de arrastões
Primeiro cortejo de 2026 reuniu milhares no centro da capital, celebrou 39 anos de resistência cultural e deixou mais três domingos de festa.
Fotos: Filipe Bispo
As fitas coloridas voltaram a desenhar caminhos sobre os chapéus de palha, os tambores despertaram o centro da cidade e o azul tomou conta das ruas. O primeiro Arrastão do Pavulagem de 2026 reuniu milhares de pessoas na manhã de domingo (14), em Belém, abrindo uma temporada que ainda terá outros três cortejos gratuitos.
A concentração começou na Praça da República, em frente ao Theatro da Paz. De lá, brincantes, músicos, dançarinos, famílias, turistas e admiradores da cultura popular seguiram pela avenida Presidente Vargas em direção à Praça Waldemar Henrique. No percurso, o Boi Pavulagem e o Batalhão da Estrela conduziram uma multidão embalada por ritmos amazônicos.
Não é exagero dizer que, durante o arrastão, Belém muda de estado físico. A cidade deixa de ser apenas cenário e entra na brincadeira. Sacadas, calçadas, praças e cruzamentos tornam-se parte de um palco que não cabe entre quatro paredes — e talvez perdesse boa parte da graça se coubesse.
O Arraial do Pavulagem celebra 39 anos de trajetória em 2026. Desde 1987, o movimento transforma música, dança, teatro de rua, personagens, oralidade e saberes populares em uma grande experiência coletiva de formação cultural.
O arrastão não é simplesmente um show caminhando pela avenida. Antes que o cortejo chegue às ruas, existe um longo processo de oficinas e ensaios, responsável por formar novos brincantes e renovar o Batalhão da Estrela. É uma tradição que não permanece viva por acaso: ela é ensinada, aprendida, compartilhada e novamente colocada em movimento. (Agência Pará)
Em setembro de 2024, essa história recebeu reconhecimento federal. A Lei nº 14.961 declarou o Arraial do Pavulagem uma manifestação da cultura nacional, ampliando a dimensão institucional de uma celebração que o público paraense já havia consagrado muito antes, domingo após domingo, com os próprios pés.
A quadra junina de 2026 chega sob o signo de “Bandeira de Guarnição”, nome do novo trabalho musical do Arraial do Pavulagem. O EP foi apresentado em maio durante espetáculo no Theatro da Paz, antecipando parte da atmosfera que agora ganha as ruas de Belém.
A escolha reafirma uma característica essencial do grupo: preservar a memória sem transformar tradição em peça imóvel de museu. O Pavulagem continua reconhecível em seus tambores, personagens, cores e coreografias, mas também produz repertório, incorpora novas gerações e encontra outras maneiras de contar a Amazônia a partir dela mesma.
O primeiro cortejo deste ano contou ainda com uma Tenda de Direitos, organizada pela Prefeitura de Belém. O espaço reuniu orientações, ações educativas para crianças, serviços de saúde, distribuição de preservativos, encaminhamentos para consultas e atendimento relacionado ao enfrentamento do assédio e de outras formas de violência.
Também foi disponibilizado um espaço de inclusão destinado a pessoas com deficiência e pessoas autistas previamente cadastradas. A iniciativa ajuda a colocar uma questão necessária no centro da festa: ocupar a cidade só é plenamente democrático quando diferentes corpos e necessidades podem participar com segurança e dignidade.
Essa dimensão social não começou na avenida. Em junho, integrantes do Arraial realizaram minicortejos em unidades de saúde, entre elas o Hospital de Clínicas Gaspar Vianna e o Hospital Oncológico Infantil Octávio Lobo. As ações levaram música, dança e atividades culturais a pacientes que não poderiam acompanhar os grandes arrastões.
O gesto revela que a força do Pavulagem não se mede apenas pela quantidade de pessoas reunidas nas ruas. Ela também aparece quando um tambor atravessa a rotina hospitalar, quando uma criança conhece o boi pela primeira vez ou quando a cultura popular alcança quem, naquele momento, não pode ir ao encontro dela.
Pela primeira vez, os cortejos passaram a integrar oficialmente a programação do Arraial de Belém, promovido pela gestão municipal. A parceria inclui os quatro domingos do Pavulagem no calendário público das festividades juninas da capital.
A programação municipal completa ocorre em diferentes pontos da cidade, com quadrilhas, pássaros juninos, bois-bumbás, grupos de carimbó, cordões de bichos e apresentações de toadas. Segundo a Prefeitura, foram destinados R$ 2 milhões ao conjunto do Arraial de Belém, com expectativa de movimentação superior a R$ 10 milhões durante a quadra junina.
A estimativa abrange toda a programação, não apenas os arrastões. Ainda assim, ajuda a dimensionar algo frequentemente esquecido: cultura também significa trabalho. Por trás da música e das fitas há artistas, costureiras, artesãos, técnicos, produtores, comerciantes e vendedores ambulantes que movimentam uma cadeia econômica inteira.
Quem perdeu a abertura — ou terminou o primeiro arrastão já contando os dias para o próximo — ainda terá três oportunidades. Os cortejos estão marcados para 21 e 28 de junho e 5 de julho.
A concentração começa a partir das 8h, na Praça da República, em frente ao Theatro da Paz. O percurso segue pela avenida Presidente Vargas e pela rua Municipalidade, com chegada à Praça Waldemar Henrique. A participação é gratuita. A recomendação é usar roupas leves, levar água, aplicar protetor solar e priorizar o transporte público devido às alterações no trânsito da região central.
Em uma cidade acostumada a reinventar o calendário pelas ruas — entre procissões, cortejos, aparelhagens e festas de santo —, o Pavulagem voltou a lembrar que tradição não é sinônimo de passado. Tradição é memória em movimento. E, em Belém, ela caminha vestida de azul, coberta de fitas e acompanhada por um tambor impossível de ignorar.
Por Thaís Raquel de Moraes para o Portal Belém.