Mês do Meio Ambiente: preservar biomas é garantir a competitividade econômica do Brasil

Especialista defende que proteção ambiental deve ser vista como estratégia de desenvolvimento, atração de investimentos e segurança econômica

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No Mês do Meio Ambiente, especialistas reforçam que a preservação dos biomas brasileiros deixou de ser apenas uma pauta ambiental e passou a ocupar posição estratégica para a economia nacional. Em um cenário marcado por mudanças climáticas, exigências internacionais e busca por investimentos sustentáveis, proteger a Amazônia, o Cerrado, a Mata Atlântica, a Caatinga, o Pantanal e o Pampa tornou-se fundamental para garantir competitividade, segurança hídrica e desenvolvimento econômico.

Apesar da redução de 20,6% no desmatamento registrada em 2025, os desafios permanecem significativos. Dados apontam que o Brasil perdeu cerca de 10,9 milhões de hectares de vegetação nativa entre 2019 e 2025. O Cerrado, especialmente na região do MATOPIBA, segue entre os biomas mais pressionados pela expansão de atividades econômicas.

A discussão também destaca o papel das empresas na construção de modelos produtivos sustentáveis, com rastreabilidade, combate ao desmatamento e investimentos em restauração ambiental. A preservação dos biomas aparece como ferramenta para reduzir riscos econômicos, garantir segurança alimentar e fortalecer a posição do Brasil na economia global.

Mais do que proteger a natureza, a agenda ambiental passa a ser encarada como uma estratégia para gerar oportunidades, atrair recursos e construir um desenvolvimento duradouro para as próximas gerações.

A emergência climática deixou de ser uma preocupação distante e passou a afetar diretamente a economia, a produção e a vida das pessoas. Secas prolongadas, enchentes históricas, incêndios, perda de biodiversidade e insegurança hídrica já impactam a competitividade das empresas, a produtividade agrícola, a infraestrutura urbana e a qualidade de vida da população.

No Mês do Meio Ambiente, marcado pelo Dia Mundial do Meio Ambiente, celebrado em 5 de junho, o debate sobre preservação ganha uma dimensão que vai além da conservação da natureza. Falar sobre biomas, hoje, também é falar sobre desenvolvimento econômico, segurança alimentar, estabilidade climática, atração de investimentos e novas oportunidades de mercado.

Para Hugo Ricardo, Gerente de Agricultura e Florestas Pacto Global da ONU – Rede Brasil, a preservação dos biomas brasileiros precisa ser compreendida como parte central da estratégia econômica do país. Segundo ele, proteger a natureza não é um obstáculo ao crescimento, mas uma condição para que o Brasil continue competitivo diante das novas exigências globais.

A pressão internacional sobre empresas e governos tem aumentado nos últimos anos. O Marco Global da Biodiversidade de Kunming-Montreal, as discussões do G20, as COPs e os principais fóruns econômicos do mundo reforçam uma tendência cada vez mais clara: competitividade e sustentabilidade caminham juntas.

Nesse novo cenário, cadeias produtivas passam a ser cobradas por rastreabilidade, redução de impactos ambientais, critérios de financiamento verde, transparência socioambiental e compromissos reais com a proteção da biodiversidade. Empresas que não se adaptarem a esse movimento podem enfrentar barreiras comerciais, perda de acesso a mercados e maior dificuldade para atrair investimentos.

O Brasil ocupa uma posição estratégica nesse debate. O país abriga cerca de 60% da Floresta Amazônica e reúne biomas fundamentais como Cerrado, Mata Atlântica, Caatinga, Pantanal e Pampa. Essa diversidade coloca o território brasileiro entre as maiores reservas de biodiversidade do planeta e, ao mesmo tempo, amplia a responsabilidade nacional diante da crise climática.

Essa relevância já aparece em instrumentos como o Plano Nacional de Desenvolvimento da Bioeconomia (PNDBio) e o Plano de Ação Brasileiro de Combate à Desertificação e Mitigação dos Efeitos da Seca (PAB Brasil), que tratam a gestão sustentável do território como uma estratégia de desenvolvimento nacional. A lógica é clara: os biomas não são apenas patrimônio natural, mas também ativos econômicos, climáticos e sociais.

Apesar dos avanços recentes, os desafios seguem expressivos. Dados do MapBiomas mostram que, em 2025, o Brasil reduziu em 20,6% a área desmatada em comparação com 2024. Pela primeira vez desde 2019, o país ficou abaixo de 1 milhão de hectares desmatados em um único ano. Ainda assim, o resultado positivo não elimina o tamanho do problema: entre 2019 e 2025, o Brasil perdeu cerca de 10,9 milhões de hectares de vegetação nativa.

A distribuição do desmatamento também revela uma mudança importante no foco de preocupação. Embora a Amazônia siga sendo essencial para a regulação climática global, o Cerrado aparece como o bioma mais pressionado. A região do MATOPIBA, formada por Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, além do Mato Grosso, concentra uma parte significativa da perda de vegetação nativa no país.

Esse cenário mostra que os desafios ambientais brasileiros extrapolam as fronteiras da Amazônia. A preservação precisa ser pensada de forma integrada, considerando todos os biomas e suas relações com a produção agrícola, a disponibilidade de água, a regulação do clima, a biodiversidade e a geração de renda.

Nesse contexto, o setor empresarial tem papel decisivo. Empresas possuem capacidade de mobilizar recursos, influenciar cadeias de fornecedores, investir em inovação, criar padrões de mercado e acelerar mudanças em escala. Mas essa liderança exige uma mudança de postura.

A sustentabilidade corporativa deixou de ser apenas uma agenda de mitigação de impactos ou compensação ambiental. Hoje, ela exige que as empresas incorporem a natureza às suas estratégias de negócio, identifiquem dependências e riscos ambientais, promovam cadeias livres de desmatamento, garantam rastreabilidade e invistam em soluções baseadas na natureza.

É nesse contexto que o Movimento Impacto Amazônia, iniciativa da Ambição 2030 da Rede Brasil do Pacto Global da ONU, amplia seu escopo e se transforma no Movimento Impacto Biomas. A mudança busca reconhecer que, embora a Amazônia seja central para o equilíbrio climático, a agenda ambiental brasileira precisa envolver todos os biomas.

A expansão representa uma tentativa de ampliar o potencial de transformação sistêmica e de gerar resultados mensuráveis. O novo movimento se estrutura em torno de três grandes compromissos empresariais.

O primeiro é tomar medidas urgentes para que operações e fornecedores não contribuam para o desmatamento, por meio de rastreabilidade, monitoramento e devida diligência. O segundo é desenvolver ou apoiar projetos de restauração de ecossistemas, bioeconomia, geração de renda e fortalecimento de povos indígenas, comunidades tradicionais e agricultores familiares. O terceiro é incorporar a natureza à estratégia de governança e negócios, reconhecendo os ecossistemas como ativos para gestão de riscos e geração de valor de longo prazo.

Na prática, isso significa que preservar biomas precisa deixar de ser um discurso institucional e passar a orientar decisões concretas sobre produção, compra de insumos, financiamento, expansão territorial, relacionamento com comunidades e transparência na cadeia produtiva.

A proteção ambiental também se conecta diretamente à competitividade internacional do Brasil. Em um mundo cada vez mais atento à origem dos produtos, à pegada de carbono e à conservação da biodiversidade, países capazes de demonstrar produção sustentável terão vantagem em mercados exigentes. Para o agronegócio, a indústria, o setor financeiro e a bioeconomia, a conservação pode ser diferencial estratégico.

Ao mesmo tempo, ignorar os riscos ambientais pode sair caro. A degradação dos biomas aumenta a exposição do país a eventos extremos, reduz a disponibilidade de água, afeta a produtividade no campo, pressiona cidades e compromete a segurança alimentar. Por isso, a agenda ambiental também é uma agenda de redução de riscos econômicos.

O Brasil tem condições únicas de liderar esse processo. A combinação entre biodiversidade, ciência, comunidades tradicionais, agricultura, inovação e capacidade produtiva pode transformar o país em referência global de uma economia que cresce sem destruir sua base natural. Mas, para isso, será necessário acelerar a transição de compromissos para ações verificáveis.

No Mês do Meio Ambiente, a mensagem central é que preservar biomas não é apenas proteger paisagens naturais. É garantir água, alimento, estabilidade climática, competitividade empresarial, atração de investimentos e oportunidades para as próximas gerações.

Proteger nossos biomas não é apenas uma agenda ambiental, mas uma estratégia de sobrevivência econômica e competitividade para o Brasil.