Trégua no Irã reduz pressão sobre o bolso paraense

Acordo provisório faz o petróleo recuar, mas alta de combustíveis e alimentos já pesou mais sobre famílias pobres do Norte e do Pará.

Por
6 Min

Foto: Joédson Alves/Agência Brasil

O acordo provisório entre Estados Unidos e Irã trouxe o primeiro sinal de alívio após quase três meses de conflito e restrições à passagem de navios pelo Estreito de Ormuz. O petróleo recuou, mas, no Pará, a guerra já havia atravessado o Atlântico pelo caminho mais conhecido das famílias: combustíveis caros, fretes pressionados e alimentos ocupando uma parcela maior da renda.

Chamar o momento de “fim da guerra”, porém, exige cautela. O entendimento anunciado na quinta-feira (18) estabelece uma cessação de hostilidades, a retomada gradual da navegação comercial e um período de cerca de 60 dias para a negociação de um acordo definitivo. Portanto, o alívio existe, mas continua condicionado ao cumprimento dos compromissos pelas duas partes.

A distância entre Ormuz e Belém é de milhares de quilômetros. Na economia, ela foi percorrida em poucas semanas.

O estreito concentra aproximadamente 20% do petróleo comercializado no mundo. Com o bloqueio, o barril do tipo Brent, que começou 2026 próximo de US$ 61, encerrou o primeiro trimestre em torno de US$ 118. A escalada alcançou os derivados, sobretudo o diesel, produto que o Brasil ainda precisa importar apesar de ser grande produtor de petróleo bruto.

A conta chegou primeiro pelo diesel

Em Belém, dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis reunidos pelo Dieese mostraram que, entre 22 e 28 de março, o litro do diesel S10 custava, em média, R$ 7,34. A gasolina comum estava em R$ 6,79.

Na comparação com o mesmo período de 2025, o diesel acumulava alta de 18,4%, enquanto a gasolina subia 12,2%. A guerra não explica sozinha essas variações — câmbio, tributação, custos de produção e margens de distribuição também interferem nos preços —, mas ampliou uma pressão que já existia.

No Pará, o diesel não fica restrito às bombas dos postos. Ele está no caminhão que transporta mercadorias, nas embarcações que conectam ilhas e municípios, na pesca, nas máquinas usadas no campo e nos deslocamentos entre cidades separadas por grandes distâncias.

Representantes do setor comercial ouvidos durante o conflito apontaram que parte importante do abastecimento de Belém depende de produtos trazidos por rodovias, principalmente das regiões Sul e Sudeste. Quando o combustível sobe, o custo tende a ser distribuído por toda a cadeia — e termina na prateleira.

Para moradores de municípios ribeirinhos e comunidades onde o barco funciona como ônibus, caminhão e ambulância, o impacto pode ser ainda mais direto. A elevação do diesel encarece tanto a viagem das pessoas quanto o transporte da farinha, do pescado, dos medicamentos e de praticamente tudo o que não é produzido no próprio território.

No Norte, choque encontra renda menor

A mesma alta não pesa de forma igual para todos. Em 2025, o rendimento domiciliar mensal por pessoa no Norte foi estimado em R$ 1.558, enquanto a média brasileira chegou a R$ 2.264. Isso significa menos espaço no orçamento para absorver aumentos repentinos de comida, gás, transporte ou energia.

A situação paraense é ainda mais delicada. Segundo o IBGE, 44,6% dos domicílios do Pará enfrentavam algum grau de insegurança alimentar em 2024, a maior proporção entre os estados brasileiros. Em 7% das casas, a insegurança era grave, situação na qual há redução na quantidade de alimentos e episódios de fome.

No conjunto da Região Norte, 37,7% dos domicílios conviviam com insegurança alimentar. A vulnerabilidade também carrega uma dimensão de gênero: no país, mulheres eram responsáveis pela maioria das casas atingidas pelo problema.

É nesse terreno desigual que uma crise internacional encontra as famílias paraenses. Para quem já precisa escolher entre comprar carne, pagar a passagem ou manter a conta de energia em dia, alguns reais acrescentados ao frete não representam uma oscilação abstrata do mercado. Representam comida retirada do carrinho.

Cesta básica confirma pressão sobre as famílias

Em maio, a cesta básica de Belém custou R$ 755,24, conforme levantamento da Companhia Nacional de Abastecimento e do Dieese. O valor subiu 3,78% em relação a abril e acumulou aumento de 13,3% desde dezembro.

Um trabalhador remunerado com o salário mínimo precisou cumprir 102 horas e 30 minutos de trabalho para comprar os alimentos da cesta. Considerado o salário líquido, após o desconto previdenciário, a despesa consumiu 50,37% da renda.

A inflação oficial de Belém foi de 0,63% em maio, ligeiramente acima da taxa nacional de 0,58%. Em 12 meses, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo acumulou 4,38% na capital paraense.

No país, alimentação e bebidas subiram 1,33% somente em maio e responderam por aproximadamente metade da inflação registrada no mês. O próprio IBGE relacionou parte da alta dos alimentos à menor oferta de determinados produtos e aos custos de frete influenciados pelo combustível.

Nem todo aumento da feira pode ser colocado na conta da guerra. Chuvas, safras, disponibilidade regional, problemas de infraestrutura e atravessadores também interferem nos valores. Ainda assim, o conflito funcionou como mais uma camada de pressão em uma região onde deslocar mercadorias costuma ser caro antes mesmo de qualquer míssil ser lançado.

O que pode mudar no Pará com a trégua

A reabertura do Estreito de Ormuz e a retomada gradual do transporte de petróleo tendem a reduzir a pressão sobre os preços internacionais. Isso pode ajudar a conter novos reajustes do diesel, diminuir custos de importação e aliviar, ao longo do tempo, o transporte de cargas e passageiros no Pará.

A queda, entretanto, não chega automaticamente ao consumidor. Combustíveis adquiridos quando o barril estava mais caro ainda circulam nos estoques, enquanto câmbio, impostos, logística e políticas comerciais continuam compondo o preço final. Organismos econômicos internacionais avaliam que o petróleo pode recuar, mas não necessariamente retornar de imediato aos níveis anteriores ao conflito.

Durante a crise, o governo federal adotou medidas como desonerações, subsídios ao diesel e reforço da fiscalização contra aumentos abusivos. As ações reduziram parte do impacto, mas também mostraram que a dependência brasileira de derivados importados continua sendo uma vulnerabilidade, especialmente para regiões fortemente dependentes de transporte rodoviário e fluvial.

Para o Pará, a lição deixada pela guerra vai além da geopolítica. Ela passa pela necessidade de melhorar estradas, portos e hidrovias, fortalecer a produção regional de alimentos e reduzir a distância — física e econômica — entre quem produz e quem consome.

A trégua pode fazer o petróleo baixar. Mas recuperar o dinheiro perdido por motoristas, feirantes, pescadores, pequenos comerciantes e famílias pobres é outra negociação, bem mais lenta e sem mesa diplomática.

Por Thaís Raquel de Moraes para o belem.com.br