Em Altamira, as distâncias não cabem apenas nos mapas. Elas determinam quanto tempo uma família leva para chegar a um serviço de saúde, participar de uma formação profissional, escoar a produção rural ou ser alcançada por uma política pública. Com 159,5 mil quilômetros quadrados e população estimada em 138,7 mil habitantes em 2025, o município exige iniciativas capazes de atravessar estradas, rios e realidades sociais profundamente diferentes.
É nesse território imenso, onde o urbano e a floresta frequentemente dividem os mesmos problemas, que o Instituto Guardiões do Xingu busca ampliar sua presença. A organização se apresenta publicamente como Instituto Sociocultural Transamazônica e Xingu, com atuação orientada pelos eixos da cultura, arte e sustentabilidade. No perfil oficial do Guardiões do Xingu no Instagram, Clildes Nascimento de Souza, conhecido como Clildes do Povo e nosso entrevistado de hoje, recebe o destaque merecido de quem trabalha muito em sua vice-presidência.
Na descrição do senhor Clildes, o instituto nasceu para transformar a capacidade de articulação da sociedade civil em uma estrutura permanente de apoio às populações do Xingu.
“O Instituto Guardiões do Xingu surgiu da necessidade de fortalecer a sociedade civil organizada na região do Xingu, criando uma instituição estruturada, séria e comprometida com o desenvolvimento social. O principal objetivo é atender pessoas em situação de vulnerabilidade social, contribuindo para amenizar o sofrimento de famílias e comunidades que necessitam de apoio. O instituto atua em diversas áreas, como assistência social, meio ambiente, esporte, educação, agricultura familiar e desenvolvimento comunitário, atendendo comunidades urbanas, rurais, ribeirinhas e tradicionais da região.”
A fala apresenta um campo de atuação amplo. Na presença pública já construída pelo instituto, as ações mais visíveis estão ligadas à mobilização cultural, realização de eventos comunitários, valorização de artistas regionais e formação de parcerias locais. A cultura funciona, nesse desenho, como porta de entrada para vínculos que podem alcançar outras áreas sociais.
Essa vocação também dialoga com a trajetória de Grah Podanoski. A presidente do instituto possui participação documentada na cena artística de Altamira: esteve envolvida na articulação de artistas locais durante a Festa Literária Internacional do Xingu, a FLIX, em 2023; interpretou uma das músicas premiadas no Festival Canção da Transamazônica daquele ano; e retornou ao Fecant como artista convidada em 2025.
A experiência cultural de Grah, presidente do Guardiões do Xingu, se soma à circulação comunitária e institucional de Clildes. Juntos, eles formam uma direção que combina música, turismo, relacionamento político e mobilização social — uma mistura bastante coerente para uma região onde os eventos culturais não são apenas entretenimento, mas também espaços de encontro, identidade e organização coletiva.
No Xingu, preservação ambiental não é uma pauta distante, reservada a relatórios ou discursos de ocasião. A qualidade da água interfere na saúde. A situação dos rios alcança a pesca, a agricultura e a alimentação. O destino do lixo chega aos igarapés, às ruas e às casas.
Dados do Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico, compilados pelo Instituto Água e Saneamento, indicam que 48,3% da população de Altamira é atendida por serviços de abastecimento de água e 44,6% possui acesso aos serviços públicos de esgotamento sanitário. Os índices ajudam a dimensionar a distância entre o crescimento da cidade e a infraestrutura disponível para parte da população.
Na área florestal, Altamira registrou uma redução de aproximadamente 59% na área desmatada em 2025, segundo o Relatório Anual de Desmatamento do MapBiomas. A queda é relevante, embora não transforme a pressão ambiental em capítulo encerrado. Na Amazônia, quase nunca há finais tão simples.
Na Volta Grande do Xingu, a relação entre meio ambiente e direitos básicos permanece especialmente sensível. Em 18 de junho de 2026, o Ministério Público Federal informou ter reforçado uma ação judicial para cobrar água potável, saneamento, internet e estradas trafegáveis para 635 famílias indígenas, ribeirinhas e agricultoras familiares atingidas pelos impactos de Belo Monte. Segundo o órgão, essas comunidades vivem em uma área de cerca de 100 quilômetros do rio que sofreu forte redução de vazão.
Ao falar sobre os desafios ambientais, Clildes parte dos problemas percebidos no cotidiano das comunidades.
“Entre os principais problemas ambientais da região estão o descarte inadequado de resíduos sólidos nas áreas urbanas, a falta de conscientização ambiental da população e a ausência de projetos permanentes voltados para a preservação das nascentes, rios, igarapés e demais recursos naturais. Esses problemas afetam diretamente a qualidade de vida das comunidades, comprometendo a saúde pública, o abastecimento de água, a conservação ambiental e a sustentabilidade das atividades desenvolvidas pelas populações rurais, ribeirinhas e tradicionais.”
A perspectiva defendida pelo vice-presidente aproxima a educação ambiental de necessidades concretas. Preservar uma nascente não é apenas proteger uma paisagem bonita para fotografias institucionais; é defender a água que abastece casas, plantações e comunidades. Da mesma forma, discutir resíduos sólidos significa falar de saúde pública, drenagem urbana, reciclagem e geração de renda.
O Xingu conhece bem projetos apresentados em nome do desenvolvimento. Também conhece a conta social e ambiental que, muitas vezes, chegou depois dos anúncios, das promessas e das cerimônias. Para Clildes, crescimento econômico e proteção ambiental não precisam ocupar lados opostos da mesma margem.
“Atualmente, ainda existe uma carência de políticas públicas, campanhas educativas e projetos específicos que promovam simultaneamente o crescimento econômico e a preservação ambiental. No entanto, é plenamente possível gerar emprego, renda e oportunidades de desenvolvimento por meio de iniciativas sustentáveis, valorizando a agricultura familiar, a reciclagem, o turismo sustentável, a educação ambiental e o uso responsável dos recursos naturais, garantindo o equilíbrio entre progresso econômico e conservação ambiental.”
As alternativas apontadas por ele formam uma agenda possível para o território. A agricultura familiar mantém renda e alimentos circulando dentro da própria região. A reciclagem pode combinar redução de resíduos e trabalho. O turismo sustentável cria oportunidades a partir da paisagem, da cultura e da memória local sem transformar o Xingu em cenário descartável. Já a economia criativa abre espaço para músicos, artesãos, produtores culturais, cozinheiras, trabalhadores de eventos e pequenos empreendedores.
Essa aproximação entre cultura, turismo e desenvolvimento comunitário também aparece na programação divulgada pelo instituto. Entre as atividades anunciadas está o evento Viola Sertaneja, previsto para julho de 2026, em parceria com a Associação Atlética Banco do Brasil, a AABB de Altamira. A mobilização reúne música, alimentação, bingo e ação solidária, utilizando o entretenimento como caminho para aproximar o público da organização.
A presença de Clildes no instituto está ligada a uma trajetória anterior de atuação pública. Documentos oficiais da Prefeitura de Altamira mostram que ele ocupou, em 2023, o cargo de chefe da Divisão de Promoção e Investimento em Turismo, vinculada à Secretaria Municipal de Turismo.
No mesmo ano, uma portaria municipal autorizou sua participação na 11ª Feira Internacional de Turismo da Amazônia, realizada em Belém. O registro demonstra experiência em promoção turística e representação institucional do município. Em 2024, Clildes concorreu a uma vaga de vereador em Altamira pelo Progressistas, o PP.
A trajetória de Clildes também passa pelo terceiro setor, área em que ele construiu experiência antes mesmo de ocupar espaços institucionais. Além do trabalho público e comunitário, ele mantém uma empresa voltada à captação de recursos para organizações sociais, como associações, cooperativas, institutos e entidades que atuam em diferentes municípios da região. Em Altamira, já exerceu liderança comunitária como presidente de bairro, integrou o Conselho de Bairros e consolidou uma atuação próxima das demandas populares, especialmente nas frentes ligadas à organização social, ao acesso a políticas públicas e ao fortalecimento de iniciativas coletivas.
Estudante de psicanálise, Clildes afirma que essa formação ampliou seu olhar sobre as vulnerabilidades enfrentadas pela população. No Instituto Guardiões do Xingu, a pauta da saúde mental aparece como uma das frentes em construção, com projetos elaborados por ele para acolher pessoas e comunidades que convivem com sofrimento emocional, exclusão social e falta de acesso a acompanhamento especializado.
Ao explicar como essa experiência se conecta ao Guardiões do Xingu, ele destaca a construção de pontes com o poder público, empresas e organizações sociais.
“Minha atuação política tem contribuído para importantes conquistas em toda a região da Transamazônica, por meio da construção de parcerias com o Governo do Estado, instituições públicas e empresas privadas. Essas ações têm gerado benefícios nas áreas da agricultura, assistência social, saúde e esporte. Com o fortalecimento do Instituto Guardiões do Xingu, esse trabalho será ampliado, possibilitando a captação de novos investimentos, a execução de projetos sociais e a geração de mais oportunidades para a população de toda a região.”
A política mencionada por Clildes não se restringe ao calendário eleitoral. Ela aparece como instrumento de articulação: localizar programas, aproximar instituições, captar investimentos e organizar respostas para demandas que, isoladamente, comunidades e pequenas organizações teriam mais dificuldade de encaminhar.
Nesse processo, a relevância do instituto depende da capacidade de transformar relações institucionais em ações que cheguem às pessoas. Uma parceria ganha sentido quando deixa de existir apenas em reuniões e passa a produzir formação, assistência, cultura, renda ou infraestrutura. O restante é fotografia, faixa e memória de rede social — materiais que a internet arquiva com eficiência, mas que não substituem política pública.
Saúde, emprego, qualificação e proteção social aparecem entre as prioridades apontadas por Clildes. São necessidades que atravessam a sede urbana, os bairros mais afastados, as vicinais, os assentamentos e as comunidades localizadas ao longo dos rios.
“Entre as principais necessidades de Altamira estão o acesso a uma saúde pública de qualidade, a geração de emprego e renda, a ampliação das oportunidades de qualificação profissional e o fortalecimento das políticas públicas voltadas para as famílias de baixa renda. É fundamental ampliar o acesso aos programas governamentais, promover cursos técnicos e profissionalizantes para jovens e adultos, incentivar o empreendedorismo e fortalecer a participação popular nas decisões públicas. Somente com planejamento, inclusão social e participação da comunidade será possível construir um futuro mais sustentável e com melhores oportunidades para todos.”
A participação popular citada pelo vice-presidente é parte essencial dessa construção. Em um município territorialmente gigantesco e socialmente diverso, decisões tomadas sem ouvir comunidades rurais, ribeirinhas, indígenas, tradicionais e moradores das periferias urbanas correm o risco de produzir soluções impecáveis no papel e inúteis na vida real.
O Instituto Guardiões do Xingu busca ocupar justamente esse espaço de conexão. Sua relevância local começa na capacidade de reunir pessoas que já circulam pela cultura, pelo turismo, pela política e pelas comunidades. A etapa seguinte é consolidar essa mobilização em projetos permanentes, parcerias duradouras e oportunidades que atravessem as distâncias de Altamira.
No Xingu, proteger o território e cuidar das pessoas nunca foram missões separadas. O rio, a cidade, as florestas e as comunidades fazem parte do mesmo corpo. Quando uma dessas partes adoece, as demais sentem: ainda que alguns gabinetes demorem um pouco mais para perceber.
Serviço
Viola Sertaneja: o evento está previsto para 5 de julho de 2026, das 9h às 18h, na AABB de Altamira. A programação divulgada inclui música ao vivo, churrasco, bingo e ação comunitária. As pulseiras de acesso foram anunciadas pelo valor de R$25. Informações e atualizações estão disponíveis no perfil oficial do Instituto Guardiões do Xingu.
Por Thaís Raquel de Moraes para o Portal Belém.