Há gestos que parecem pequenos porque cabem em poucos minutos. Sentar, estender o braço, esperar a bolsa encher, levantar com um curativo discreto e a sensação estranha de ter deixado um pouco de si para alguém que talvez nunca se conheça. A doação de sangue tem essa beleza silenciosa: não pede palco, não escolhe rosto, não exige recompensa. Ainda assim, quando chega ao destino, pode significar a diferença entre a vida interrompida e a vida possível.
É com essa urgência delicada que o Maranata Norte criou uma mobilização do Projeto Vida por Vidas no campus da Faculdade Adventista da Amazônia, a FAAMA, em Benevides, na Região Metropolitana de Belém. Em parceria com a Fundação Hemopa, durante o dia de hoje e amanhã (2 e 3 de julho), pretendem coletar o máximo possível de bolsas de sangue entre os participantes do encontro, que reúne cerca de 6.500 jovens do Pará, Amapá e Maranhão. A meta instituída, de 500 bolsas, está ali como referencial e, principalmente, para ser batida.
A conta é simples, mas nunca é fria: segundo a lógica da hemoterapia, uma única bolsa pode beneficiar até quatro pessoas. Se a meta for alcançada, a ação poderá ajudar até 2 mil pacientes. Se ela for ultrapassada — e Deus queira que assim seja — cada bolsa a mais pode beneficiar mais 4 pessoas. Por trás desse número cabem cirurgias, emergências, tratamentos oncológicos, partos de risco, acidentes, anemias graves e tantas outras histórias que não aparecem na festa, mas dependem dela.
A coleta ocorre em um período crítico para os hemocentros. Durante as férias escolares, o movimento de doadores costuma cair, embora a necessidade por sangue continue diária. Hospitais não entram em recesso. Pacientes não esperam o calendário ficar mais generoso. E os estoques, quando baixam, expõem uma fragilidade que o sistema de saúde conhece bem: sangue não se fabrica em laboratório, não se improvisa na pressa, não se substitui por boa intenção.
Para facilitar a adesão dos participantes, uma unidade móvel equipada para coleta será instalada dentro da FAAMA. A ideia é permitir que os jovens doem sem precisar sair do evento, transformando parte da programação em compromisso concreto com a rede pública e privada de saúde. Segundo a divulgação oficial da União Norte-Brasileira da Igreja Adventista do Sétimo Dia, as bolsas devem beneficiar mais de 200 hospitais públicos e privados da Região Metropolitana de Belém.
“É um período crítico que requer a busca por doadores. Os adventistas são uma força jovem que se prontifica a doar e isso é muito bem-vindo. Ficamos felizes com essa parceria, que é fruto de um relacionamento construído ao longo dos anos”, afirma Nazaré Saldanha, da gerência de captação do Hemopa.
Vida por Vidas: quando a solidariedade vira rotina
O Projeto Vida por Vidas nasceu em 2005, dentro da Igreja Adventista do Sétimo Dia, com uma missão objetiva: incentivar a doação de sangue, o cadastro de doadores de medula óssea e outras ações solidárias. O que poderia ter permanecido como campanha pontual se tornou uma rede de mobilização presente em oito países da América do Sul.
O projeto ganhou força justamente por tocar em uma das maiores dificuldades dos hemocentros: transformar a comoção em hábito. O Brasil costuma responder bem a campanhas emergenciais, especialmente quando há apelos públicos, tragédias ou pedidos familiares. O desafio é outro, menos visível e muito mais difícil: manter doadores regulares, capazes de sustentar estoques seguros antes que a urgência bata à porta.
Nesse sentido, o Vida por Vidas atua em uma fronteira bonita entre fé, juventude e cidadania. A crença, quando atravessa o discurso e chega ao corpo, também se mede em gesto público. Doar sangue é uma forma de dizer que a vida do outro importa mesmo quando esse outro não tem nome, rosto, religião, endereço ou qualquer laço anterior com quem doa.
Segundo informações da organização adventista, o movimento já mobilizou centenas de milhares de voluntários desde sua criação. Em campanhas realizadas em diferentes estados brasileiros, a iniciativa costuma reunir jovens, igrejas, hemocentros e instituições parceiras para ampliar o número de doadores voluntários.
Maranata Norte: juventude reunida também para servir
O Maranata Norte é um dos maiores encontros de jovens adventistas da Região Norte do Brasil. Realizado entre os dias 1º e 5 de julho, no campus da FAAMA, o evento reúne participantes do Pará, Amapá e Maranhão em uma programação voltada ao desenvolvimento espiritual, social e comunitário.
A edição deste ano tem como lema “Fortes na Palavra” e integra ações de espiritualidade, formação, convivência, liderança e mobilização social. Na prática, o encontro funciona como uma grande travessia coletiva: caravanas, barracas, programação intensa, reencontros, música, oração, juventude em circulação e aquela energia muito própria de quem ainda acredita que o mundo pode ser menos árido do que parece.
Mas a campanha de doação de sangue impede que o evento fique restrito ao próprio público. Ao colocar a unidade móvel do Hemopa no centro da programação, o Maranata Norte amplia sua presença para fora dos limites do campus. A ação sai de Benevides e alcança leitos, enfermarias, centros cirúrgicos, maternidades e emergências da Grande Belém.
É nesse ponto que o dado encontra o sentimento. As 500 bolsas não são apenas uma meta operacional. São uma promessa de continuidade. São até 2 mil possibilidades abertas em um período no qual os estoques precisam de reforço. São jovens saindo de uma experiência religiosa e deixando, de forma concreta, uma contribuição para pessoas que talvez estejam vivendo um dos dias mais difíceis de suas vidas.
Quem pode doar
De acordo com o Ministério da Saúde, podem doar sangue pessoas entre 16 e 69 anos, com peso mínimo de 50 kg, em boas condições de saúde e com documento oficial com foto. Menores de 18 anos precisam apresentar consentimento formal dos responsáveis. Pessoas entre 60 e 69 anos só podem doar se já tiverem feito doação antes dos 60 anos.
Também é recomendado estar alimentado, evitar alimentos gordurosos nas horas anteriores à doação e ter dormido pelo menos seis horas nas últimas 24 horas. Antes da coleta, cada candidato passa por triagem, etapa necessária para garantir a segurança de quem doa e de quem recebe.
Serviço
Coleta de sangue – Projeto Vida por Vidas
Data: 2 e 3 de julho
Local: Maranata Norte, no Campus da Faculdade Adventista da Amazônia, FAAMA, em Benevides, no Pará
Público estimado do evento: de 6.500 a 8.000 participantes em diferentes dias do evento
Por Thaís Raquel de Moraes para o Portal Belém.