No meio de uma canoa de madeira, em Bujaru, no rio que passa em frente à cidade, com o céu carregado acima da cabeça e um adulto remando ao fundo, Cauã, de 9 anos, olha para a câmera como quem já nasceu entendendo que futebol também é território, memória e espetáculo. O menino é de Castanhal, mas foi nos rios de Bujaru que gravou o vídeo que junta Copa do Mundo, Amazônia e paixão pelo Remo. “E aí, Brasil! Estou aqui nos rios da Amazônia, já no clima da Copa de 2026!”, anuncia, direto de um cenário que nenhuma cabine de transmissão conseguiria fabricar.
Cauã vem chamando atenção não apenas pelo carisma diante das câmeras. O menino fala de Copa do Mundo com desenvoltura rara para a idade: comenta formato da competição, avalia desempenho da Seleção Brasileira, sugere mudanças no time, cita jogadores, lê o jogo e ainda encontra tempo para transformar o Remo em amuleto da Seleção.
Em uma Copa marcada pelo novo formato com 48 seleções, 104 jogos e três países-sede, Cauã apareceu como uma espécie de comentarista esportivo mirim da Amazônia. Não daqueles personagens montados para parecer espontâneos. Ele fala rápido, pensa junto, corrige a rota, volta ao raciocínio e entrega o que talvez falte a muito adulto diante de um microfone: verdade.
O vídeo gravado em Bujaru junta dois mundos que, no Pará, nunca estiveram tão separados assim: o futebol e a água. Com um remo amarelo nas mãos, Cauã aproveita a provocação pronta antes do duelo entre Brasil e Noruega, marcado para este domingo (5), pelas oitavas de final da Copa do Mundo de 2026, no Estádio de Nova York/Nova Jersey.
“Alô, Governador Helder, que também é remista e está torcendo aí com a sua família nos Estados Unidos, como nós aqui nos rios da Amazônia! Se a Noruega tem a sua remada, nós aqui no Brasil temos o nosso Remo! O Clube do Remo, o Leão do Remo!”, diz o menino, em recado a Helder Barbalho, citado por ele como “governador” na gravação.
A frase funciona porque é simples e muito paraense. De um lado, a Noruega e a chamada “remada viking”, comemoração que virou marca da seleção europeia nesta Copa. Do outro, o Remo, o Maior do Norte, clube de coração de Cauã e de tantos torcedores que entendem que camisa também pode ser herança familiar, identidade e superstição.
A peça que virou símbolo dessa história nasceu de uma ideia direta: unir a camisa da Seleção Brasileira à do Remo. Para Cauã, não era apenas uma brincadeira estética. Era sorte, afeto e torcida costurados no mesmo tecido.
“Então, a ideia que eu tive da camisa foi pegar o meu clube com a minha Seleção e juntar, que, pra mim, dá a maior sorte possível”, explicou o menino ao Portal Belém.
A camisa mista, metade Brasil e metade Remo, traduz uma lógica que qualquer torcedor entende sem precisar de manual: se o Brasil precisa de energia para buscar o Hexa, o Remo pode emprestar um pouco da força remista. Cauã resume isso com a naturalidade de quem não separa o amor pelo país do amor pelo clube.
“O Leão traz uma energia boa, pelo menos para mim, para os remistas. É um clube de muito amor, muita emoção. Então, juntar a minha Seleção, eu sendo brasileiro e remista, com o meu Clube do Remo, é extraordinário”, disse.
A primeira camada da história encanta: uma criança paraense, em uma canoa, falando de Copa, Remo e Brasil. Mas reduzir Cauã à fofura seria desperdiçar o melhor personagem. Ele tem opinião. E opinião com fundamento.
Sobre a Seleção Brasileira, o menino não se deixa levar apenas pela empolgação. Reconhece que o time tem força, mas cobra melhora. “O Brasil tá forte. Ele tá errando, sim, ele tá errando muito, mas ele consegue passar na Noruega, bem apertado. Eu acredito que ele consiga e ganhe o Hexa”, afirmou.
Em outro momento, Cauã fez uma análise mais dura do desempenho brasileiro. Disse que a Seleção errou passes, permitiu que o Japão aproveitasse falhas e precisa mudar para crescer na competição. Também defendeu ajustes no ataque e citou nomes como Endrick, Casemiro, Matheus Cunha, Rayan e Gabriel Magalhães.
“Eu acho que a Seleção Brasileira tem que mudar o time. Como Paquetá se machucou, no lugar do Paquetá eu colocaria o Matheus Cunha como falso nove, o Endrick lá na frente, como ponta-direita. Eu também acho que o Brasil vai passar. Consegue apertado, mas vai”, avaliou.
É o tipo de fala que surpreende porque não soa decorada. Cauã erra uma palavra aqui, reorganiza outra ali, mas mantém a linha central do raciocínio. Sabe o que quer dizer. E diz.
A desenvoltura de Cauã não nasceu de roteiro pronto. Segundo a mãe, Silene, a facilidade dele com câmeras, música, redes sociais e futebol é algo natural. Ela conta que o filho pesquisa, acompanha assuntos do momento e demonstra curiosidade própria.
“É uma coisa da natureza dele, é nato dele realmente. Ele pesquisa, ele mesmo vai atrás, gosta muito de internet e fica ligado nas coisas que estão acontecendo no momento. A gente fica muito orgulhoso com isso”, afirmou Silene.
O próprio Cauã confirma. Ao ser perguntado sobre como entende tão bem a Copa, incluindo os “16 avos de final”, etapa criada com a ampliação do torneio, ele respondeu como quem descreve um método pessoal de estudo.
“Eu pesquiso, eu olho tudo na internet. Não existe canal específico para isso, mas eu vou à procura, vou pesquisar. É isso que me faz ser tão inteligente, vamos dizer, sobre a Copa”, disse.
O pai, Marcelo, vê a curiosidade do filho como parte de um ambiente familiar marcado por conversa, música, leitura e convivência com pessoas. Empresários, ele e Silene contam que Cauã sempre participou da rotina da família, inclusive em viagens de trabalho.
“O gostar dele sobre futebol, sobre alguns assuntos específicos, vem dele, da natureza dele, e a gente só vai adquirindo conhecimento junto com ele para poder argumentar sobre o que ele vem falar”, contou Marcelo.
A frase mais bonita do pai, porém, vem de outro campo. Não fala de algoritmo, câmera ou viralização. Fala de leitura.
“Eu sempre digo a ele: meu filho, ler é a melhor coisa do mundo. Você pode ir para um país, para um mundo diferente sem precisar estar lá, apenas com a leitura. O conhecimento é uma riqueza muito grande”, disse.
A família comemora a repercussão, mas também entende que visibilidade infantil exige cuidado. Marcelo admite que ver o filho sendo assistido por tanta gente assusta um pouco, especialmente pela velocidade com que os vídeos circulam e chegam a públicos que a família nem imaginava alcançar.
“Saber que ele vai ser visto por muitas pessoas assusta um pouco, porque muitas pessoas torcem para o bem das outras e muitas não. Mas ele é bem assistido por mim e pela mãe”, afirmou.
Silene também enxerga a repercussão como motivo de felicidade, especialmente por Cauã ser uma criança de Castanhal, do Pará, reconhecida por algo que mistura inteligência, espontaneidade e orgulho regional.
“O sentimento é só felicidade, de ver que ele é de Castanhal, do nosso Estado do Pará. Quantas crianças não tem igual ao Cauã também na nossa região? A gente fica muito feliz”, disse.
Essa talvez seja uma das forças da história. Cauã não aparece como exceção isolada em uma vitrine distante. Ele aparece como sinal de uma infância amazônica que observa, aprende, pesquisa, fala, cria e também torce. Uma infância que pode estar em Castanhal, em Bujaru, em Belém, no Marajó, no Baixo Tocantins, no oeste do Pará ou em qualquer beira de rio onde uma criança descubra que o mundo cabe na tela, mas também no quintal.
No último vídeo, Cauã mira alto. Da canoa, chama o Brasil, chama Casimiro, da CazéTV, e transforma o grito de torcida em provocação futebolística: “Nós vamos passar o sal nos Vikings! É sal, é sal, é sal! Avança!”
A expressão “é sal” é comum no Pará e, no contexto da torcida, funciona como modo de dizer que está resolvido, que o objetivo foi alcançado ou que o adversário foi vencido. Nas mãos de Cauã, vira bordão de Copa. Não é caricatura. É cultura popular em movimento.
A menção à CazéTV também não parece deslocada. Em um Mundial no qual a transmissão esportiva digital se tornou parte central da conversa nacional, Cauã fala a língua desse novo consumo de futebol: espontâneo, conectado, opinativo e profundamente afetivo. Se um dia alguém decidir criar uma editoria mirim para falar da paixão nacional, o menino de Castanhal já entregou currículo, teste de vídeo e bordão.
Brasil e Noruega se enfrentam neste domingo, 5 de julho de 2026, pelas oitavas de final da Copa do Mundo. A partida está marcada para o Estádio de Nova York/Nova Jersey, às 16h no horário local, 17h no horário de Brasília e de Belém. Quem vencer avança às quartas de final.
Até lá, Cauã segue no posto que ele mesmo construiu: torcedor, remista, brasileiro, pesquisador da bola e comentarista mirim da Amazônia. Se o Brasil passar apertado, como ele prevê, talvez a canoa vire bancada, o remo vire microfone e o grito ecoe do rio para o mundo: é sal.
Por Thaís Raquel de Moraes para o Portal Belém.