Brasil cai diante da Noruega

Derrota por 2 a 1 nas oitavas da Copa de 2026 reacende o tabu contra a Noruega e transforma frustração nacional em retrato do esquecimento

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Brasil cai diante da Noruega
Foto: getty images signature

Quando abriram a última gaveta da casa, encontraram uma carta endereçada a alguém que nunca havia morado ali.

Remetente: Seleção Brasileira de 2026.

O sonho era interessante, surpreendente e curto. Neste domingo, 5 de julho de 2026, o Brasil perdeu por 2 a 1 para a Noruega, no New York New Jersey Stadium, em East Rutherford, pelas oitavas de final da Copa do Mundo. Depois de uma partida que atravessou mais de cem minutos por dentro, veio a notícia indesejada: estamos eliminados.

Eliminados por uma seleção sem tradição de finais de Copa, mas com algo que o Brasil parece ter desaprendido a respeitar: fome.

A Noruega venceu com dois gols de Erling Haaland, nos minutos finais, e viu Neymar descontar de pênalti nos acréscimos. Antes disso, o Brasil já havia desperdiçado uma chance que, agora, vai morar naquele cômodo escuro das lembranças esportivas: Bruno Guimarães teve um pênalti defendido por Nyland ainda no primeiro tempo.

Foi uma derrota inesperada, mas não inexplicável. A Noruega chegou às quartas de final de uma Copa pela primeira vez. O Brasil, por sua vez, ficou fora dessa etapa pela primeira vez desde 1990. Há fracassos que parecem acidente. Há outros que chegam com recibo, protocolo, carimbo e firma reconhecida.

E talvez este tenha chegado com tudo isso.

Mas não estamos aqui apenas para falar da eliminação. Estamos aqui para falar das pessoas. E da facilidade com que elas deixam de lado sentimentos que, poucos minutos antes, pareciam consumir a própria existência.

O silêncio depois do apito

A partida acabou e o silêncio na cidade era inenarrável. Dava para ouvir os mosquitos voando ao redor, porque ninguém dizia nada. A televisão foi desligada e ninguém sabia exatamente como reagir. Por alguns minutos, todos ficaram quietos, calados, surpresos.

Depois veio a dor.

Alguns minutos de xingamentos sussurrados, cabelos puxados, copos quebrados, teorias táticas formuladas por especialistas recém-formados pela Universidade Federal do Sofá.

E então alguém disse:

“Ah, já era.”

E a festa começou.

Sim, a festa.

Porque festejar parece ser superior à necessidade de vencer. Talvez seja isso que faça com que a gente permaneça perdido no tempo por tanto tempo. Nós não temos uma necessidade tão grande de vencer. Guardamos os nossos sentimentos mais poderosos em cartas escondidas na última gaveta, endereçadas a pessoas que, na verdade, nunca moraram ali.

Porque os moradores não se importam tanto assim.

Eles preferem a via da simplicidade. Ou, melhor ainda, preferem a facilidade do esquecimento alcoólico à necessidade de uma reforma no sistema.

Entenda você o que quiser. Eu posso estar falando de uma política nacional, do sistema de energia da cidade de Belém, do sistema que Carlo Ancelotti aplicou à Seleção Brasileira nesta noite ou do sistema que continua sendo racista, machista, misógino, desigual e ofensivo.

São tantos sistemas. E são tantos erros. São tantas persistências em existências que não deveriam ser tão importantes para nós.

Enquanto isso, o orgulho cai por terra. A vitória é ignorada. A honra tem menos importância do que a fama.

A estrela e a supernova

Nossos jogadores famosos voltarão para casa. Tirarão férias com suas famílias até a final da Copa do Mundo. Depois, voltarão para os seus clubes, para receber seus salários milionários, como se nada tivesse acontecido.

Talvez um ou dois carreguem cicatrizes desta Copa. Talvez um ou outro durma mal por alguns dias. Talvez Neymar, que entrou no segundo tempo e marcou o gol que já não salvava ninguém, tenha encerrado ali uma era que o país nunca soube amar sem exigir, nem criticar sem crueldade.

Mas serão poucos.

Talvez o maior erro de hoje tenha sido confundir memória com presente. Nome com necessidade. História com rendimento.

“Ah, ele é o camisa 10.”

Ele foi importante. Todo mundo sabe disso. Ele já foi o melhor.

Não é mais.

É preciso conseguir enxergar a diferença entre uma estrela viva e uma estrela morta. Entre uma estrela que ainda ilumina e uma estrela prestes a explodir em supernova.

Explosões são importantes, mas são perigosas. A gente deveria tentar desviar delas.

A Noruega, curiosamente, parece saber disso melhor do que nós. O tabu não começou hoje. Antes da partida, o Brasil já não havia vencido a seleção norueguesa em nenhum confronto oficial ou amistoso. Com o resultado deste domingo, a conta ficou ainda mais incômoda: em cinco jogos, são três vitórias norueguesas e dois empates. A carta da gaveta, portanto, não era exatamente inédita. Nós é que fingimos não conhecer a caligrafia.

O luto que dura dez minutos

Talvez este texto esteja um pouco confuso, porque o sentimento também está um pouco confuso. Eu, pessoalmente, não sou a maior fã de esportes. A permanência ou a eliminação do Brasil na Copa do Mundo de futebol masculino não é algo que me afete de forma realista.

Mas eu me sinto confusa.

Não entendo como as pessoas que estavam chorando cinco minutos após o fim da partida agora estão bebendo, comendo churrasco e rindo das gafes da Seleção Brasileira durante o jogo, como se não fossem brasileiras.

É anticlimático ver a mesma torcida que canta o hino nacional a todo pulmão antes da partida fazer piada com os jogadores do time que defendia uma hora antes.

Isso me confunde.

Talvez seja uma defesa emocional coletiva. Talvez seja só o modo brasileiro de sobreviver ao absurdo: transformar derrota em meme, frustração em churrasco, raiva em piada, luto em story. Talvez a gente não esqueça por leveza, mas pelo peso insustentável do cansaço. O problema é que, quando o esquecimento vira método, o erro deixa de ser acidente e passa a ser projeto.

A eliminação contra a Noruega não é o fim do mundo. Futebol ainda é futebol, embora o Brasil insista em tratá-lo como certidão de nascimento, pacto civilizatório e exame de autoestima nacional.

Mas há algo de revelador nessa derrota.

Não apenas pelo placar. Não apenas por Haaland ter feito em poucos minutos o que o Brasil tentou fazer durante quase uma vida inteira de jogo. Não apenas porque Nyland defendeu o pênalti que poderia ter mudado a noite. Não apenas porque a Noruega, discreta e organizada, fez história enquanto o Brasil tentava negociar com seus fantasmas.

O que revela é a reação.

Nós nos parecemos com crianças de seis anos: ficamos com raiva, perdoamos e esquecemos em ciclos de dez minutos.

Sim.

Talvez.

Quando abriram a última gaveta da casa, encontraram uma carta endereçada a alguém que nunca havia morado ali.

Agora sabemos quem era.

Era a vitória.

E ela, pelo visto, cansou de esperar.

Por Thaís Raquel de Moraes para o Portal Belém.


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