Agitação, desatenção e dificuldade de concentração nem sempre indicam TDAH. Especialistas alertam que distúrbios do sono, como ronco frequente e apneia, podem provocar sintomas semelhantes e comprometer o desenvolvimento infantil. A orientação é investigar a qualidade do sono antes de concluir o diagnóstico.
Agitação, desatenção, impulsividade, dificuldade de concentração e baixo rendimento escolar costumam acender o alerta para o Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH). No entanto, esses sinais nem sempre têm uma única explicação. Em algumas crianças, o problema pode estar relacionado à qualidade do sono, especialmente quando há ronco frequente, respiração pela boca ou suspeita de apneia do sono.
Com a proximidade do Dia Mundial de Conscientização do TDAH, celebrado em 13 de julho, especialistas reforçam a importância do diagnóstico correto e da investigação cuidadosa de outras condições que podem provocar sintomas semelhantes. Entre elas estão os distúrbios respiratórios do sono, que podem comprometer o descanso, afetar o comportamento e prejudicar o desenvolvimento infantil.
Um dos principais sinais de alerta é o ronco na infância. Embora muitas famílias tratem o som como algo comum ou até hereditário, especialistas alertam que roncar com frequência não deve ser considerado normal em crianças.
Segundo a Dra. Raquel Rodrigues, otorrinolaringologista do HOPE, um dos principais erros é acreditar que o ronco infantil faz parte da rotina.
"A única situação em que a criança pode apresentar a condição é durante um quadro gripal, quando o nariz está entupido. Fora isso, nunca é normal e precisa ser investigado. Muitas famílias dizem que a criança ronca igual ao pai ou ao avô, mas isso não deve ser considerado esperado em nenhuma idade."
A principal causa do ronco infantil costuma ser o aumento da adenoide e das amígdalas, estruturas que podem reduzir a passagem de ar pelas vias respiratórias. Quando o ar encontra dificuldade para circular, os tecidos vibram e o ronco aparece. Outras condições, como rinite alérgica sem controle, rinossinusite crônica e obesidade infantil, também podem favorecer o quadro.
"Sempre que existe uma obstrução na passagem do ar, acontece a vibração dos tecidos e surge o ronco", explica a médica.
O problema é que o impacto vai além do barulho durante a noite. Uma criança que dorme mal pode apresentar alterações importantes durante o dia. Diferentemente dos adultos, que geralmente ficam sonolentos depois de uma noite ruim, as crianças podem reagir com mais agitação, irritabilidade, impaciência e dificuldade de atenção.
"Elas ficam mais agitadas, impacientes e desatentas. Durante o sono, o cérebro consolida a memória e regula emoções importantes para o aprendizado. Quando esse descanso não acontece de forma adequada, esses processos ficam comprometidos e os reflexos aparecem principalmente na escola", comenta.
Essa semelhança entre os sintomas dos distúrbios do sono e os sinais associados ao TDAH exige atenção de pais, professores e profissionais de saúde. Uma criança que não consegue se concentrar, se mostra inquieta em sala de aula ou apresenta queda no desempenho escolar pode estar enfrentando noites mal dormidas sem que a família perceba a gravidade do quadro.
"Os distúrbios do sono podem provocar manifestações muito parecidas com as do TDAH, como hiperatividade, dificuldade de concentração e desatenção. Ao mesmo tempo, quando a criança já possui o transtorno, uma noite mal dormida pode intensificar essas características. Por isso, toda investigação deve incluir uma avaliação da qualidade do sono”, orienta a especialista.
Além do comportamento e da aprendizagem, a respiração inadequada também pode interferir no desenvolvimento orofacial. Crianças que respiram pela boca de forma constante podem apresentar alterações na formação da face, na arcada dentária, na mordida e até na postura corporal.
Segundo a Dra. Raquel Rodrigues, respirar pelo nariz é essencial durante o crescimento. Quando essa função é substituída pela respiração bucal, o corpo passa a se adaptar de forma inadequada.
"A respiração bucal interfere na expansão dos ossos da face, favorece alterações na mordida, faz com que a criança mantenha os lábios entreabertos, mastigue menos e, em alguns casos, provoque mudanças na coluna cervical e na postura”, discorre a médica.
O diagnóstico deve ser feito por um otorrinolaringologista. A avaliação pode incluir análise clínica, investigação de doenças associadas, como rinite e rinossinusite, e exames específicos, como a polissonografia, que monitora a qualidade do sono e ajuda a identificar episódios de apneia.
O tratamento varia conforme a causa. Em alguns casos, o controle da rinite e de processos inflamatórios nas vias aéreas já pode melhorar o quadro. Em outros, quando há aumento importante de adenoide ou amígdalas, pode ser necessário avaliar indicação cirúrgica.
"Nem toda criança que ronca precisará operar. Muitas melhoram apenas com o tratamento da rinite. O mais importante é descobrir a origem do problema para indicar a melhor conduta", ressalta.
A especialista orienta que pais e cuidadores observem sinais que podem indicar distúrbios do sono, como ronco frequente, pausas na respiração durante a noite, sono agitado, respiração constante pela boca, olheiras frequentes, bruxismo, dificuldade para acordar, irritabilidade, queda no desempenho escolar e episódios persistentes de enurese noturna, quando a criança volta a urinar durante o sono após a idade esperada para esse controle.
Professores também podem ter papel importante nessa identificação. Mudanças de comportamento na escola, dificuldade de aprendizado, inquietação constante e falta de atenção podem ser sinais de que a criança precisa de uma avaliação mais ampla, incluindo a investigação do sono.
"Quanto mais cedo essas alterações forem identificadas, maiores são as chances de evitar prejuízos no crescimento, na aprendizagem e na qualidade de vida. Antes de atribuir determinados comportamentos exclusivamente ao TDAH, é importante investigar como essa criança está dormindo”, finaliza a Dra. Raquel Rodrigues.
A principal mensagem para as famílias é que ronco infantil frequente não deve ser ignorado. Embora o TDAH seja uma condição real e que exige diagnóstico e tratamento adequados, outros problemas podem provocar sinais parecidos. Por isso, investigar a qualidade do sono é uma etapa fundamental para garantir cuidado correto, evitar atrasos no desenvolvimento e melhorar a qualidade de vida da criança.