Estranhar o Brasil ainda é um dever democrático

Mesmo com avanços contra a pobreza e a fome, desigualdade, racismo e violência mostram por que a indignação continua necessária.

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Estranhar o Brasil ainda é um dever democrático
Maior zona de ocupação desordenada (favela) da capital paraense. Foto: Agência Pará

É estranho viver em um país onde uma criança com fome pode desaparecer na paisagem, mas um discurso sobre justiça social rapidamente se torna motivo de escândalo. Estranho, embora não exatamente surpreendente. O Brasil passou séculos aperfeiçoando a arte de transformar desigualdade em decoração: ela está nas ruas, nos ônibus, nas filas dos hospitais, nas escolas sem estrutura, nas casas onde o mês termina antes da comida.

A injustiça permanece diante dos olhos, mas muita gente aprendeu a atravessá-la como quem desvia de uma poça na calçada.

Em seu texto “Estranhar é preciso”, o jornalista, professor e escritor Ricardo Viveiros observa que defender a dignidade humana passou a ser tratado como posição ideológica questionável, quando deveria representar um princípio elementar de convivência. A frase incomoda porque descreve uma espécie de falha moral coletiva: precisamos justificar por que seres humanos devem comer, estudar, morar, trabalhar e viver sem medo.

Como se o direito à sobrevivência precisasse apresentar documentos, preencher formulário, reconhecer firma e aguardar análise.

Os números melhoraram, mas a ferida continua aberta

O Brasil registrou avanços sociais importantes nos últimos anos. Entre 2023 e 2024, 8,6 milhões de pessoas deixaram a pobreza, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. A proporção de brasileiros nessa condição caiu de 27,3% para 23,1%, o menor percentual da série histórica. A extrema pobreza também recuou e atingiu 3,5% da população.

É uma conquista concreta. Não deve ser diminuída por cinismo, disputa eleitoral ou aquela curiosa compulsão nacional de torcer contra qualquer política pública que alcance quem ficou para trás.

Mas o menor índice da série não significa o desaparecimento do problema. Uma taxa de pobreza de 23,1% representa quase uma em cada quatro pessoas vivendo com renda insuficiente para atender necessidades básicas. O número melhora; a vida continua apertada.

A distância entre os extremos também permanece obscena. Em 2024, o rendimento médio do 1% mais rico foi 36,2 vezes superior ao recebido pelos 40% mais pobres. Não se trata apenas de haver pessoas com mais dinheiro. Trata-se de uma sociedade na qual alguns acumulam escolhas enquanto milhões administram ausências: qual conta será adiada, qual refeição será reduzida, qual remédio poderá esperar.

Em julho de 2025, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura anunciou que o Brasil havia deixado novamente o Mapa da Fome. Isso significa que menos de 2,5% da população estava em situação de subalimentação, considerando a média do período analisado. A notícia representa uma vitória das políticas articuladas de renda, alimentação, saúde, educação e proteção social.

Sair do Mapa da Fome, porém, não equivale a decretar o fim da fome por canetada estatística. Pessoas continuam pulando refeições. Mães continuam dizendo que já comeram para deixar um pouco mais no prato dos filhos. Idosos continuam escolhendo entre o alimento e o medicamento.

O mapa mede uma tragédia coletiva. A cozinha vazia acontece uma casa por vez.

A violência também escolhe endereço e cor

Há outra estranheza brasileira: falamos sobre violência como se ela caísse aleatoriamente do céu, uma tempestade sem origem social, endereço ou vítima preferencial.

Em 2024, o país registrou 42.590 homicídios, o menor número da série histórica acompanhada pelo Atlas da Violência. A redução deve ser reconhecida, mas não autoriza comemorações apressadas: entre as vítimas, 32.820 eram pessoas negras. Elas representaram cerca de 77% dos homicídios registrados naquele ano.

Não é o acaso quem faz essa seleção.

O racismo estrutural opera antes do disparo. Está na distribuição desigual de renda, na precariedade das moradias, na falta de saneamento, nas escolas abandonadas, no desemprego, na abordagem policial seletiva e na dificuldade de acesso à Justiça. A morte é apenas a etapa mais definitiva de uma desigualdade construída lentamente.

Enquanto isso, o Disque 100 recebeu 657,2 mil denúncias de violações de direitos humanos em 2024, crescimento de 22,6% em relação ao ano anterior. Os registros envolveram 4,3 milhões de possíveis violações, e a maioria das vítimas era formada por mulheres, crianças, adolescentes e pessoas idosas. O aumento também pode refletir maior conhecimento e utilização do canal, mas a dimensão dos registros impede qualquer conforto.

São milhões de episódios que não cabem confortavelmente na expressão “casos isolados”.

A democracia que termina na porta do vizinho

Ricardo Viveiros escreve que “não há democracia onde as pessoas não vivem, apenas sobrevivem”. A frase desloca a democracia do discurso solene para o terreno concreto.

Democracia não é apenas apertar um botão na urna a cada dois anos. É ter comida na mesa, acesso à escola, atendimento de saúde, segurança, moradia digna, liberdade religiosa, direito de amar, existir e envelhecer sem ser transformado em alvo.

Também não deveria ser necessário convencer ninguém de que mulheres, pessoas negras, indígenas, crianças, idosos, pessoas com deficiência, migrantes, refugiados e integrantes da população LGBTQIAPN+ possuem o mesmo valor humano. Direitos não são prêmios concedidos ao grupo mais simpático da temporada. Tampouco deveriam depender da capacidade de uma vítima despertar compaixão nas redes sociais.

O problema começa quando a democracia é defendida apenas de maneira abstrata. Há quem ame a liberdade, desde que ninguém use essa liberdade para questionar seus privilégios. Há quem defenda a igualdade perante a lei, mas considere exagero qualquer política criada para corrigir séculos de exclusão.

É uma democracia com cláusulas miúdas: todos são iguais, porém alguns precisam continuar sabendo o seu lugar.

Estranhar para não apodrecer por dentro

A naturalização talvez seja uma das formas mais eficientes de manutenção da injustiça. Aquilo que choca no primeiro dia incomoda menos no segundo, vira paisagem no terceiro e, depois de algum tempo, passa a ser chamado de normalidade.

Foi assim que aprendemos a conviver com crianças pedindo comida nos sinais, mulheres desaparecendo, corpos negros tombando, povos indígenas expulsos de seus territórios e trabalhadores envelhecendo sem conseguir descansar.

Nada disso deveria ser normal.

Estranhar não significa negar os avanços do país. Pelo contrário: significa reconhecer que políticas públicas salvam vidas, observar os resultados e exigir continuidade, transparência e aperfeiçoamento. Significa compreender que reduzir a pobreza não é caridade, mas responsabilidade constitucional; combater a fome não é populismo, mas civilização; proteger minorias não concede privilégios, apenas impede que a maioria transforme sua força numérica em instrumento de opressão.

Há quem confunda indignação com radicalismo porque a indiferença sempre parece moderada para quem não está sofrendo.

Estranhar é recusar a anestesia. É não aceitar que a dignidade seja negociada como mercadoria eleitoral. É perceber que, por trás de cada percentual, existe alguém esperando um ônibus, uma consulta, uma vaga na escola, uma oportunidade de trabalho ou simplesmente a chance de voltar vivo para casa.

No fim de seu texto, Ricardo Viveiros deixa uma frase que deveria acompanhar qualquer eleitor até a cabine de votação: “Seu voto é ferramenta, não arma.”

Ferramentas servem para construir, reparar e abrir caminhos. Armas servem para eliminar o outro.

Talvez a democracia brasileira dependa justamente dessa escolha: decidir se desejamos construir um país ou continuar apontando uns para os outros os escombros que herdamos.

Por Thaís Raquel de Moraes para o Portal Belém.


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