A comemoração de um gol, a admiração pelos jogadores e até a tristeza depois de uma derrota podem transformar a Copa do Mundo em uma oportunidade de aprendizado para as crianças. Com a competição mobilizando torcedores de diferentes gerações, especialistas destacam que as emoções despertadas pelo futebol ajudam famílias a conversar sobre frustração, limites, convivência e respeito.
A Copa do Mundo de 2026 começou em 11 de junho e segue até 19 de julho, reunindo seleções no Canadá, nos Estados Unidos e no México. Fora dos estádios, o campeonato também ocupa salas, escolas, grupos de mensagens e encontros familiares, onde cada partida pode ser vivida com a intensidade de uma pequena final.
Segundo a psicóloga Maria Celina Ferreira Goedert, docente do curso de Psicologia da Estácio, o esporte mobiliza não apenas quem está dentro de campo, mas também torcedores, familiares e todas as pessoas envolvidas naquele ambiente.
“Quando a gente é criança, esse pertencimento acontece de uma forma muito intensa. A criança não só assiste a um jogo, ela faz parte dele”, explica.
Essa identificação pode fazer com que jogadores e seleções ocupem um espaço importante no imaginário infantil, semelhante ao reservado a personagens de filmes, histórias e super-heróis. A diferença é que, no esporte, os protagonistas são pessoas reais, sujeitas a erros, falhas e derrotas.
“O esporte é imprevisível. Lidar com essa frustração dentro do futebol pode ajudar a criança a levar esse aprendizado para outras situações da vida”, afirma.
A Academia Americana de Pediatria também observa que a prática esportiva pode despertar emoções difíceis, como raiva, ansiedade, tristeza e frustração. Reconhecer esses sentimentos e aprender a administrá-los faz parte do desenvolvimento emocional de crianças e adolescentes.
Para Claudio Henrique Pereira Verão, mestre em Ciências do Movimento e professor do curso de Educação Física da Estácio, o futebol apresenta situações que também estarão presentes em outras fases da vida. Entre elas estão a necessidade de enfrentar resultados adversos, reconhecer o esforço alheio e respeitar a vitória do adversário.
“O futebol ensina que nem sempre vamos ganhar e que, quando tivermos resultados diferentes do esperado, precisamos respeitar quem venceu”, destaca.
Grandes competições ainda permitem conversar sobre diversidade e convivência coletiva. Pessoas de diferentes países, culturas e maneiras de torcer acompanham os mesmos jogos e precisam respeitar regras comuns.
Pais, responsáveis e professores podem aproveitar esse cenário para explicar que todos os espaços de convivência têm limites e que o descumprimento das regras provoca consequências. O aprendizado, porém, não acontece apenas pela explicação: o comportamento dos próprios adultos funciona como referência.
Quando familiares xingam jogadores, brigam ou tratam o adversário como inimigo, a criança pode assimilar essa conduta como uma forma aceitável de torcer. Em sentido oposto, atitudes de respeito ajudam a mostrar que a rivalidade esportiva não precisa se transformar em hostilidade.
A mediação dos adultos também é decisiva quando a criança chora, se irrita ou demonstra frustração porque o time perdeu. Dizer apenas que “é só um jogo” pode minimizar um sentimento que, naquele momento, é verdadeiro e intenso.
O caminho indicado é escutar, acolher e ajudar a criança a identificar o que está sentindo. Orientações do Unicef recomendam que pais e responsáveis reconheçam as emoções de crianças e adolescentes, mesmo quando elas causam desconforto, e mantenham espaço aberto para o diálogo.
“Às vezes, a gente acha que crianças e adultos nascem sabendo lidar com vitória e derrota, mas ninguém aprende isso sozinho. É uma construção feita com apoio, convivência e bons exemplos”, pontua.
A postura não significa permitir qualquer reação. Acolher a tristeza ou a raiva é diferente de aceitar agressões, ofensas ou comportamentos prejudiciais. O adulto pode reconhecer o sentimento e, ao mesmo tempo, estabelecer limites para a forma como ele será demonstrado.
O futebol pode contribuir para o desenvolvimento de habilidades como paciência, disciplina, cooperação e respeito, mas não realiza esse trabalho sozinho. O ambiente criado por familiares, educadores, treinadores e torcedores influencia a maneira como a criança interpreta vitórias e derrotas.
O Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos aponta que atividades físicas e momentos de recreação também podem favorecer o desenvolvimento social e emocional, incluindo a capacidade de compartilhar, negociar e conviver com outras pessoas.
Em época de Copa, a vitória de um ídolo pode inspirar, mas a derrota também pode educar. Ganhar, perder, respeitar o outro e tentar novamente são aprendizados que continuam depois do apito final — quando o placar já saiu da tela, mas a conversa ainda permanece dentro de casa.
Por Thaís Raquel de Moraes para o Portal Belém.