Nesta segunda-feira, 13 de julho, guitarras, distorções e baterias voltam a ocupar o centro do palco para celebrar uma data que carrega “mundial” no nome, mas tem sotaque majoritariamente brasileiro. O Dia Mundial do Rock recorda o Live Aid, realizado em 1985, e será comemorado em Belém com programação gratuita no Studio Pub, reunindo bandas autorais da cena paraense e tributos a nomes do rock nacional e internacional.
A agenda desta segunda integra o Studio Pub Rock Festival 2026, que começou no sábado (11), no NaBêra, com o retorno do Massacration à capital paraense. O encerramento ocorre nesta noite, a partir das 18h, com shows de ALL Still Burns, A Red Nightmare, um tributo conjunto a Charlie Brown Jr. e Raimundos e uma apresentação dedicada ao Linkin Park. A retirada do ingresso gratuito deve ser feita pela Bilheteria Digital, mediante o compromisso de doar 1 quilo de alimento não perecível.
A origem da celebração está ligada ao Live Aid, maratona musical realizada simultaneamente no Estádio de Wembley, em Londres, e no John F. Kennedy Stadium, na Filadélfia, em 13 de julho de 1985.
Organizado por Bob Geldof e Midge Ure, o evento buscava arrecadar recursos para enfrentar a fome na Etiópia. O encontro reuniu artistas como Queen, David Bowie, U2, The Who, Paul McCartney, Elton John, Madonna, Mick Jagger e Tina Turner, transformando a música em espetáculo global, instrumento de mobilização humanitária e também objeto de críticas sobre a condução e a destinação dos recursos arrecadados.
Durante o festival, o músico Phil Collins, que se apresentou nos dois continentes no mesmo dia, teria sugerido que o 13 de julho fosse lembrado como o Dia Mundial do Rock. A proposta nunca se tornou uma data oficial internacional. Décadas depois, a celebração permanece praticamente restrita ao Brasil, onde foi popularizada durante os anos 1990 por emissoras de rádio especializadas no gênero. Ou seja: o nome ganhou o planeta; a tradição, nem tanto.
O referencial histórico do rock, evidentemente, começa antes do Live Aid. Formado pela mistura de blues, rhythm and blues, country, gospel e outras tradições musicais, o gênero consolidou-se nos Estados Unidos durante a década de 1950. Artistas como Chuck Berry, Little Richard, Sister Rosetta Tharpe, Elvis Presley e Jerry Lee Lewis ajudaram a construir sua linguagem inicial.
Nas décadas seguintes, Beatles e Rolling Stones ampliaram o alcance internacional do gênero; Jimi Hendrix modificou a percepção sobre a guitarra elétrica; Black Sabbath ajudou a pavimentar o heavy metal; o punk desafiou virtuosismos e convenções; enquanto nomes como David Bowie, Queen, Pink Floyd e Led Zeppelin expandiram as fronteiras sonoras e estéticas do rock.
Mais do que uma sequência de acordes ou uma roupa preta cuidadosamente escolhida para parecer casual, o rock tornou-se linguagem de juventude, contracultura, comportamento, mercado e disputa política.
No Brasil, o rock começou a ganhar contornos próprios entre o fim dos anos 1950 e o início da década de 1960. Celly Campello, com versões em português de sucessos estrangeiros, tornou-se um dos primeiros fenômenos nacionais ligados ao gênero.
Pouco depois, a Jovem Guarda transformou o rock, o pop e o chamado iê-iê-iê em produtos de massa. Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Wanderléa ocuparam rádios e televisores, traduzindo influências internacionais para o cotidiano e o vocabulário da juventude brasileira. Erasmo é reconhecido como um dos pioneiros do pop rock nacional e uma figura central do movimento.
Na segunda metade dos anos 1960, Os Mutantes levaram guitarras, experimentação e psicodelia ao tropicalismo. Ao lado de artistas como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa e Tom Zé, o grupo tensionou as fronteiras entre música popular brasileira, vanguarda e cultura internacional. O guitarrista Sérgio Dias é apontado como uma figura fundamental na formação dessa vertente do rock brasileiro.
Nos anos 1970, Raul Seixas, Rita Lee, Secos & Molhados, Made in Brazil, O Terço, Casa das Máquinas e outros artistas consolidaram caminhos que iam do rock progressivo ao hard rock, passando pela psicodelia e pela canção popular.
A década de 1980 marcou a explosão do chamado BRock. Legião Urbana, Titãs, Paralamas do Sucesso, Barão Vermelho, Capital Inicial, Engenheiros do Hawaii, Ira!, Ultraje a Rigor e RPM encontraram espaço em rádios, programas de televisão e grandes festivais.
As letras traduziam inquietações de uma geração que acompanhava o fim da ditadura militar, a redemocratização e as frustrações urbanas de um país que prometia mudar mais rápido do que realmente mudava. A trajetória dos Titãs, por exemplo, atravessa diferentes fases e transformações do rock brasileiro entre o fim do século XX e o começo do XXI.
Nos anos 1990 e 2000, o gênero ganhou novas formas com Cássia Eller, Raimundos, Charlie Brown Jr., Planet Hemp, Nação Zumbi, O Rappa, Los Hermanos, Pitty, CPM 22 e Detonautas, entre muitos outros. Cássia Eller tornou-se uma das vozes centrais do rock nacional dos anos 1990, enquanto o manguebeat de Chico Science e Nação Zumbi demonstrou que guitarras também podiam dialogar com maracatu, embolada, hip-hop e tecnologia.
A programação desta segunda-feira em Belém recupera justamente parte desse repertório ao incluir tributos a Charlie Brown Jr. e Raimundos, duas bandas fundamentais para compreender a popularização do rock brasileiro entre as décadas de 1990 e 2000.
No Pará, o rock nunca foi apenas uma imitação tardia do que vinha do Sudeste ou do exterior. A cena paraense cresceu em diálogo com as contradições de Belém, com a distância dos grandes centros da indústria cultural e com uma cidade onde convivem guitarras, carimbó, brega, punk, metal, aparelhagens e experimentações amazônicas.
A capital desenvolveu circuitos próprios de shows, festivais, lojas, praças, casas noturnas, estúdios e redes de produção independente. Pesquisas da Universidade Federal do Pará analisam a cena local como um espaço de formação artística, cultural e política, marcado tanto pela criação musical quanto pelo ativismo de seus participantes.
O punk e o hardcore tiveram papel especialmente importante nesse processo. Estudos sobre a cena belenense apontam esses movimentos como formas de resistência à produção hegemônica da cidade e à exclusão de determinados grupos e expressões culturais dos espaços tradicionais de circulação artística.
Entre os nomes históricos está a banda Delinquentes, surgida em 1985 e reconhecida como uma das principais referências do underground paraense. Sua permanência por décadas ajuda a contar uma história construída longe das grandes gravadoras, sustentada por público fiel, organização independente e insistência — matéria-prima que nunca faltou ao rock amazônico.
Outro marco é o Mosaico de Ravena, responsável por “Belém-Pará-Brasil”, composição que se tornou uma das referências mais conhecidas da música urbana paraense ao abordar identidade, memória social, abandono e contradições regionais. A canção demonstra como o rock local aprendeu a olhar para a própria cidade, em vez de apenas repetir paisagens fabricadas em outros lugares.
A cena também revelou bandas como Stress, frequentemente lembrada entre as pioneiras do heavy metal brasileiro; Álibi de Orfeu, Morfeus, Madame Saatan, A Euterpia, Aeroplano, Molho Negro, The Baudelaires, Miriti, GeekRock, A Red Nightmare e diversos projetos que transitam entre metal, indie, punk, hardcore, grunge e rock alternativo.
Nesse território, o rock paraense não vive isolado. Ele atravessa o Círio, conversa com referências amazônicas e encontra modos próprios de falar sobre Belém. Estudos acadêmicos, por exemplo, analisam como a banda Madame Saatan incorporou imagens e experiências da maior celebração religiosa do Pará em sua produção musical.
A programação de hoje mantém essa circulação viva. ALL Still Burns e A Red Nightmare representam a produção autoral local, dividindo o palco com repertórios de bandas que marcaram diferentes gerações.
O rock talvez não ocupe mais sozinho o centro da indústria fonográfica, como aconteceu em outros períodos. Isso não significa que tenha morrido. Significa apenas que deixou de depender exclusivamente das grandes rádios e gravadoras para existir. Sobrevive nos festivais independentes, nos bares, nos ensaios, nas camisetas guardadas por décadas e na disposição de uma nova geração para descobrir que uma guitarra distorcida ainda pode dizer muita coisa.
Studio Pub Rock Festival — Free Day
Data: segunda-feira, 13 de julho de 2026
Horário anunciado pela organização: a partir das 18h
Horário indicado na página da bilheteria: 20h
Local: Studio Pub, em Belém
Atrações: ALL Still Burns, tributo a Charlie Brown Jr. e Raimundos, A Red Nightmare e Linkin Park Cover
Entrada: gratuita, mediante retirada de ingresso e doação de 1 quilo de alimento não perecível
Ingressos: Bilheteria Digital
Mais informações: Instagram do Studio Pub Rock Festival e Instagram do Studio Pub Belém
A divulgação editorial do festival informa início às 18h, enquanto a plataforma de ingressos registra 20h. Diante da divergência, o público deve conferir os perfis oficiais antes de sair de casa.
Por Thaís Raquel de Moraes para o Portal Belém.