Estudo aponta autores ocultos em R$ 1,3 bi de emendas

Transparência Brasil identificou 1.341 indicações registradas em nome de lideranças partidárias, sem revelar os deputados responsáveis.

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Estudo aponta autores ocultos em R$ 1,3 bi de emendas
Créditos da foto: Kayo Magalhães - Câmara dos Deputados

Novo estudo da Transparência Brasil identificou R$ 1,3 bilhão em emendas de comissão da Câmara dos Deputados cujos verdadeiros autores não aparecem nos registros públicos. O dinheiro foi indicado em 2025 por meio de lideranças de sete partidos, modelo que, segundo a organização, reproduz a lógica de opacidade do antigo orçamento secreto.

Ao todo, foram encontradas 1.341 indicações sem autoria parlamentar individualizada. Em vez do nome do deputado que escolheu o município, órgão ou entidade beneficiada, os documentos apresentam apenas a liderança partidária como responsável.

O valor representa 16% dos R$ 7,9 bilhões em emendas de comissão indicados pela Câmara em 2025. Em uma conta pública que deveria permitir o acompanhamento de cada centavo, R$ 1 de cada R$ 6 foi distribuído sem que a sociedade pudesse saber qual parlamentar tomou a decisão.

PP, União Brasil e PL concentram os maiores valores

O Progressistas (PP) lidera o levantamento, com R$ 427,7 milhões distribuídos em 464 indicações. Mais da metade desse valor, R$ 216,4 milhões, foi destinada ao Piauí.

Na sequência aparecem:

  • União Brasil: R$ 288,7 milhões;
  • Partido Liberal (PL): R$ 254,3 milhões;
  • Republicanos: R$ 218,5 milhões;
  • Avante: R$ 30 milhões;
  • Solidariedade: R$ 22 milhões;
  • Podemos: R$ 19 milhões.

A concentração regional também levantou dúvidas sobre a autoria formal dos recursos. No caso do PP, por exemplo, aproximadamente três quartos do dinheiro foram direcionados ao Piauí e ao Rio de Janeiro. Para a Transparência Brasil, o padrão indica que diferentes deputados podem ter dividido as verbas, embora as indicações tenham sido registradas apenas em nome da liderança partidária.

O nome aparece, mas o autor desaparece

As chamadas emendas de liderança não constituem uma categoria oficial do Orçamento. A expressão foi utilizada pela Transparência Brasil para descrever emendas de comissão registradas em nome dos líderes partidários, sem a indicação dos deputados que efetivamente escolheram os beneficiários.

A legislação aprovada pelo Congresso em 2024 estabeleceu que as indicações de emendas de comissão deveriam passar pelas lideranças das bancadas. O problema surge quando essa intermediação transforma o líder em uma espécie de assinatura coletiva: o nome visível permanece, mas a decisão política real desaparece atrás dele.

A diferença entre Câmara e Senado reforça o alerta. Das 16,6 mil indicações analisadas, que somaram R$ 11,7 bilhões em todo o Congresso, R$ 3,8 bilhões partiram de comissões do Senado e R$ 7,9 bilhões da Câmara. No Senado, todas as indicações estavam associadas nominalmente a algum parlamentar. A ocultação foi identificada apenas na Câmara.

R$ 821 milhões não chegaram a um beneficiário identificável

A ausência do nome do parlamentar é apenas uma das camadas do problema. O estudo também não conseguiu identificar o beneficiário final de R$ 821 milhões em emendas de comissão empenhadas em 2025.

O empenho é a reserva do dinheiro público para determinada despesa. Não significa que o recurso tenha sido pago, mas indica que o governo reconheceu aquela obrigação dentro do Orçamento.

A maior dificuldade de rastreamento ocorre nas despesas executadas diretamente por órgãos federais, como a Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf) e o Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (Dnocs).

Somente a Codevasf empenhou R$ 342,4 milhões em emendas de comissão no ano passado. Nesses casos, os sistemas podem mostrar a empresa contratada para entregar uma obra, veículo ou equipamento, mas não necessariamente o município ou a entidade que recebeu o benefício. O dinheiro deixa uma pegada burocrática, mas nem sempre um caminho completo.

Modelo continua sendo usado em 2026

A prática não terminou com o calendário de 2025. Dados parciais consultados pela Transparência Brasil apontam que R$ 373,8 milhões já haviam sido registrados em 2026 em nome de lideranças partidárias.

PP, União Brasil, Republicanos, PL, Avante e Podemos continuaram utilizando o formato. O Solidariedade, presente no levantamento de 2025, não apareceu nos dados parciais deste ano. O Partido dos Trabalhadores (PT), que não constava na relação anterior, passou a adotar o modelo em 2026.

Por que o estudo fala em “orçamento secreto”?

O orçamento secreto original estava relacionado às emendas de relator, classificadas como RP9, usadas para distribuir bilhões de reais sem critérios transparentes e sem identificação adequada dos parlamentares responsáveis pelas indicações.

Em dezembro de 2022, o Supremo Tribunal Federal considerou o mecanismo inconstitucional e determinou que as emendas de relator fossem limitadas à correção de erros e omissões do Orçamento.

As emendas analisadas agora são de comissão, conhecidas tecnicamente como RP8, e possuem outra classificação legal. A Transparência Brasil, entretanto, considera que as indicações feitas somente em nome das lideranças repetem uma característica central do modelo derrubado pelo STF: a dificuldade de identificar quem decidiu para onde o dinheiro deveria ir.

Desde a decisão do Supremo, o volume pago em emendas de comissão cresceu de R$ 136 milhões, em 2022, para R$ 9,3 bilhões, em 2025 — uma expansão de aproximadamente 68 vezes em três anos.

Câmara promete integração entre sistemas

Em resposta ao UOL, a Câmara dos Deputados afirmou que existem iniciativas em andamento para ampliar a transparência e a rastreabilidade das emendas.

Segundo a Casa, o sistema administrado pela área de tecnologia do Senado está sendo aperfeiçoado para receber diretamente as indicações de execução. Também está prevista maior integração entre os dados do Legislativo e do Executivo, permitindo acompanhar o recurso desde o cadastro do parlamentar até a execução da despesa.

O Republicanos declarou ter seguido as normas legais e as determinações do STF. O Podemos afirmou que a indicação feita pela liderança é um instrumento regular para encaminhar recursos às bases políticas. As demais legendas procuradas pelo UOL não haviam respondido até a publicação da reportagem.

O ideal, em um mundo onde a honestidade deveria ser a guia das ações dos que comandam a nossa nação, seria o fim das indicações registradas apenas em nome das lideranças e a suspensão da execução das emendas de comissão enquanto não existir um identificador único para acompanhar cada recurso. A proposta permitiria ligar, em uma mesma trilha, o parlamentar responsável, a indicação original, o órgão executor e o beneficiário final.

Emendas parlamentares podem financiar unidades de saúde, escolas, estradas, equipamentos e serviços fundamentais. O debate, portanto, não é sobre impedir a destinação de recursos. É sobre uma pergunta elementar em qualquer democracia: quem decidiu gastar o dinheiro, onde ele foi aplicado e quem, afinal, recebeu o benefício?

Por Thaís Raquel de Moraes para o Portal Belém.

 


FONTE: Transparência Brasil | com informações de Estadão.
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