A Copa do Mundo de 2026 chega ao fim no próximo domingo, 19 de julho, mas o entusiasmo despertado pelo torneio deve continuar circulando pelas quadras, campos de várzea e arenas de futebol society. Depois de semanas acompanhando os melhores jogadores do planeta, muita gente decide retirar as chuteiras do fundo do armário e voltar à tradicional pelada com os amigos.
A paixão pode até estar pronta para os 90 minutos. O corpo, nem sempre.
O retorno repentino ao futebol depois de um longo período de sedentarismo pode aumentar o risco de distensões musculares, cãibras, entorses e lesões nos joelhos e tornozelos. A fisioterapeuta e instrutora de pilates Dayara Costa alerta que a intensidade característica do esporte exige condicionamento, força e capacidade cardiovascular.
“Quem passa muito tempo sem praticar exercícios e decide jogar futebol de forma intensa está mais suscetível a sofrer lesões e complicações relacionadas ao esforço repentino. Como o corpo não está condicionado, é comum ocorrerem distensões musculares, cãibras, torções de tornozelo e joelho e inflamações nos tendões devido às mudanças rápidas de direção, corridas e impactos característicos do esporte”, explica.
A Copa pode funcionar como um empurrão para abandonar o sedentarismo — e este é um efeito positivo. A Organização Mundial da Saúde recomenda que adultos pratiquem semanalmente entre 150 e 300 minutos de atividade física moderada, ou entre 75 e 150 minutos de atividade intensa, além de exercícios de fortalecimento muscular em pelo menos dois dias da semana.
O problema aparece quando todo esse movimento é comprimido em uma única partida, como se o organismo pudesse recuperar em uma tarde o preparo físico perdido durante meses.
O coração também sente o esforço repentino
Os riscos não estão restritos aos músculos e às articulações. Segundo Dayara, um organismo sem condicionamento pode apresentar dificuldades para responder ao aumento brusco da intensidade.
“Além disso, o sistema cardiovascular também pode ser sobrecarregado, aumentando o risco de falta de ar excessiva, tonturas, mal-estar e, em pessoas com fatores de risco como hipertensão, diabetes ou doenças cardíacas, até eventos mais graves”, destaca.
Pessoas com doenças cardiovasculares, condições crônicas, histórico de desmaios ou longos períodos de inatividade devem buscar avaliação médica antes de iniciar atividades físicas intensas.
A recomendação não significa transformar a pelada em uma bateria de exames nem tratar o movimento como inimigo. A atividade física regular protege a saúde cardiovascular, reduz o risco de doenças crônicas e melhora o bem-estar. A diferença está na progressão: começar devagar é menos cinematográfico, mas muito mais seguro.
Os riscos silenciosos para o atleta de fim de semana
O chamado atleta de fim de semana costuma passar vários dias sem se exercitar e concentrar todo o esforço físico em uma partida intensa. Nesse cenário, músculos pouco preparados precisam responder a arrancadas, freadas, saltos, choques e mudanças rápidas de direção.
“As lesões mais comuns são as distensões musculares, principalmente na panturrilha e na parte posterior da coxa, além das entorses de tornozelo e das lesões no joelho, como inflamações, lesões de menisco e até rupturas ligamentares. Também são frequentes as dores lombares devido à falta de condicionamento físico e preparo muscular”, afirma Dayara.
Calçado inadequado, gramado irregular, desidratação, excesso de competitividade e tentativa de continuar jogando mesmo com dor podem completar uma combinação pouco amistosa. O futebol começa como lazer, mas pode terminar com gelo, imobilização e algumas semanas longe das atividades cotidianas.
Aquecimento nunca é tempo perdido!
Entrar em campo e começar a correr em intensidade máxima, sem preparar o organismo, aumenta a exposição a lesões. O aquecimento eleva gradualmente a temperatura corporal, ativa a circulação e prepara músculos e articulações para os movimentos realizados durante a partida.
“O aquecimento antes de uma partida de futebol é fundamental porque prepara gradualmente o organismo para o esforço físico, aumentando a temperatura corporal, melhorando a circulação sanguínea e ativando músculos e articulações que serão exigidos durante o jogo”, orienta a fisioterapeuta.
A Academia Americana de Cirurgiões Ortopédicos recomenda iniciar com alguns minutos de caminhada, corrida leve ou movimentos semelhantes, seguidos de exercícios específicos para o esporte. Movimentos de mobilidade, deslocamentos laterais e acelerações progressivas podem compor essa preparação.
O aquecimento também auxilia a coordenação, a agilidade e o tempo de resposta. Não impede todas as lesões, mas reduz a distância entre o repouso e o esforço intenso.
Fortalecimento ajuda a proteger músculos e articulações
A prevenção não começa apenas alguns minutos antes do jogo. Manter uma rotina de fortalecimento durante a semana ajuda o corpo a absorver impactos, controlar os movimentos e estabilizar joelhos, tornozelos, quadris e coluna.
“O fortalecimento muscular desempenha um papel fundamental na prevenção de lesões, pois músculos fortes e bem condicionados ajudam a absorver impactos, estabilizar as articulações e distribuir melhor as cargas durante os movimentos”, explica Dayara.
Sem preparo, o organismo procura compensações. Uma musculatura enfraquecida pode transferir parte da sobrecarga para tendões, ligamentos e articulações, sobretudo durante movimentos rápidos ou realizados sob fadiga.
Para quem está há muito tempo sem se exercitar, a retomada pode começar com caminhadas, exercícios de força e atividades de mobilidade, aumentando gradualmente duração e intensidade. A frequência ao longo da semana é mais importante do que tentar resolver meses de inatividade em um domingo.
Pilates também pode fazer parte da preparação
Conhecido pelo trabalho de controle corporal, o pilates também pode auxiliar jogadores amadores. A modalidade desenvolve força, estabilidade, mobilidade, equilíbrio e coordenação — capacidades utilizadas constantemente no futebol.
“Assim como os atletas de elite, os jogadores amadores também podem se beneficiar muito do pilates, principalmente porque a modalidade trabalha capacidades essenciais para a prática do futebol, como força, estabilidade, mobilidade, equilíbrio e coordenação”, afirma Dayara.
O fortalecimento do core, conjunto de músculos que ajuda a estabilizar o tronco e a região pélvica, pode melhorar o controle dos movimentos e reduzir compensações durante corridas, chutes e mudanças de direção.
“Para os chamados atletas de fim de semana, que muitas vezes passam vários dias sem se exercitar e realizam esforços intensos em um único momento, o pilates funciona como uma excelente ferramenta de preparação física, proporcionando mais segurança, melhor desempenho e maior longevidade na prática esportiva”, acrescenta.
O pilates, entretanto, não substitui toda a preparação necessária para o futebol. O ideal é que faça parte de uma rotina compatível com as condições e os objetivos de cada pessoa, preferencialmente acompanhada por profissionais qualificados.
Quando é preciso parar de treinar e procurar atendimento médico?
Dor intensa e repentina, sensação de estalo, inchaço importante e incapacidade de apoiar o pé no chão são sinais de que a partida deve ser interrompida. Continuar jogando pode agravar uma lesão inicialmente menor.
Também exigem atenção imediata sintomas como dor no peito, tontura, desmaio, palpitações e falta de ar desproporcional ao esforço. Nesses casos, a pessoa deve parar a atividade e procurar atendimento de saúde.
“Dores que persistem por vários dias, limitação dos movimentos ou dificuldade para retornar às atividades habituais também merecem avaliação profissional, pois podem indicar lesões que necessitam de tratamento adequado”, finaliza Dayara.
A final da Copa será disputada no domingo e encerrará mais de um mês de jogos, expectativas, frustrações e emoções compartilhadas. O desejo de voltar a jogar pode ser um dos legados mais saudáveis do torneio, desde que a empolgação não tente driblar os limites do próprio corpo. Afinal, a melhor partida é aquela que termina com histórias entre amigos — não com uma visita à emergência.
Por Thaís Raquel de Moraes para o Portal Belém.