A artista paraense Moara Tupinambá chegou ao segundo turno do Prêmio PIPA Online 2026 e agora precisa novamente do voto do público. A votação segue até este domingo, 26 de julho, e, desta vez, o processo está mais simples: basta escolher Moara, informar um e-mail e confirmar o código enviado pela plataforma.
O voto é rápido. O que ele carrega, nem tanto.
Moara é a única artista indígena, paraense e amazônida nesta etapa da disputa. Se ficar em primeiro lugar, os R$ 10 mil do prêmio serão destinados à Aldeia Tucumã Tupinambá, localizada na região da Vila de Boim, às margens do rio Tapajós, em Santarém.
A escolha de entregar o valor à comunidade ajuda a compreender a própria obra da artista. Para Moara, arte, memória e território não são caminhos separados. Um atravessa o outro.
Nascida em Belém, Moara trabalha com desenho, pintura, colagem, fotografia, instalação, literatura e audiovisual. Sua produção mergulha na memória familiar, na ancestralidade Tupinambá e nas cicatrizes deixadas por um país que passou séculos tentando convencer os povos indígenas de que eles pertenciam ao passado.
Não pertencem.
Estão vivos, criando, organizando comunidades, disputando narrativas e produzindo arte contemporânea — ainda que parte do Brasil insista na preguiça colonial de enxergá-los apenas quando há cocar, floresta ao fundo e alguma cerimônia pronta para fotografia.
Moara vira essa lente.
Em trabalhos como “Museu da Silva”, a artista questiona os apagamentos escondidos nos sobrenomes brasileiros. Em “Mirasawá”, reconstrói caminhos de identidade, memória e reconhecimento. Já a série “Kunhãs que me inspiram” volta o olhar para mulheres indígenas que sustentam histórias, lutas e conhecimentos frequentemente empurrados para as margens.
Sua obra não trata a ancestralidade como peça de museu. Ela a apresenta como algo que respira, responde e continua em movimento.
“Hoje faço parte da Aldeia Tucumã Tupinambá, onde colaboro em iniciativas voltadas ao fortalecimento cultural, à arte indígena contemporânea Tupinambá e à autonomia comunitária”, afirma a artista em sua apresentação publicada pelo Prêmio PIPA.
A relação de Moara com o Baixo Tapajós vem de sua família, ligada às regiões de Boim e Cucurunã. Nos últimos anos, essa conexão ganhou novas formas: além do trabalho artístico, ela passou a colaborar diretamente com atividades culturais e educativas na Aldeia Tucumã.
Desde 2024, a artista desenvolve ações de arte e educação no território e participa da elaboração de projetos para fortalecer a cultura local. Também organiza o GEMTUPY — Grupo de Estudos Maenry Tupinambá.
Esse trabalho comunitário acontece ao mesmo tempo em que sua produção circula por museus, bienais e exposições dentro e fora do Brasil.
Moara já participou da Bienal das Amazônias, em Belém, e da Bienal de Montevidéu. Seus trabalhos também chegaram a exposições na Áustria, Austrália, Colômbia, Guiana Francesa e Países Baixos.
Em 2022, recebeu o Prêmio de Artes do Instituto Tomie Ohtake. Em 2025, venceu a categoria de melhor animação da Mostra Audiovisual Vidas Indígenas, do Museu da Pessoa, com uma obra sobre identidade, reencontro e pertencimento.
A trajetória tem dimensão internacional, mas continua presa à terra no melhor sentido da expressão. Não como amarra, e sim como raiz.
A Aldeia Tucumã Tupinambá fica próxima à Vila de Boim, na região do Baixo Tapajós. A comunidade integra um território indígena formado por dezenas de aldeias que enfrentam dificuldades comuns a muitos povos da Amazônia: acesso precário à água, saúde, transporte, educação e proteção territorial.
Durante a seca extrema de 2024, o calor dentro das casas de alvenaria obrigou famílias da aldeia a procurar abrigo sob árvores ou em estruturas de palha. A redução dos rios dificultou a pesca, o transporte de estudantes e o deslocamento de moradores em busca de atendimento médico.
Na Amazônia, crise climática raramente chega como conceito abstrato. Ela entra pela porta, seca o caminho, muda a comida disponível e torna ainda mais difícil aquilo que já era trabalhoso.
É para esse território que Moara pretende levar o valor do prêmio.
A decisão desloca o sentido da votação. O reconhecimento continua sendo artístico, mas seus efeitos podem alcançar uma comunidade inteira. A obra entra no museu; o recurso retorna para a aldeia. O circuito, desta vez, não termina na parede branca de uma galeria.
Criado em 2010, o Prêmio PIPA é dedicado à arte contemporânea brasileira. Na edição de 2026, a categoria online reúne artistas com até 15 anos de trajetória profissional desde a primeira exposição.
No primeiro turno, 56 artistas participaram da votação. Dezessete alcançaram ao menos 500 votos e avançaram para a fase seguinte.
Os votos da primeira etapa foram zerados. Isso significa que a mobilização precisou começar novamente no segundo turno.
Os dois artistas mais votados receberão premiações em dinheiro. O primeiro lugar ganhará R$ 10 mil e o segundo, R$ 5 mil. O resultado deverá ser divulgado na segunda-feira, 27 de julho.
Para votar, não é necessário escolher vários artistas, fazer cadastro longo ou pagar qualquer valor.
O processo leva poucos minutos:
1 . Acesse www.premiopipa.com/moara-tupinamba;
2 . Clique em “Vote aqui”;
3 . Informe um endereço de e-mail válido;
4 . Verifique a caixa de entrada e copie o código recebido;
5 . Insira o código no site, confirme que você não é um robô e confirme o voto.
Caso a página apresente problemas no navegador Safari, a organização recomenda o uso do Chrome, Firefox ou Edge.
A votação termina no domingo. Até lá, cada compartilhamento pode levar Moara a mais uma pessoa, mais uma tela, mais um voto. Parece pouco — quase tudo parece pouco quando observado de perto — mas mobilizações coletivas são construídas assim: uma ação pequena encontrando outra, até deixar de ser pequena.
Votar em Moara é apoiar uma artista paraense que transformou o reencontro com a própria ancestralidade em obra, pesquisa e ação comunitária. É reconhecer que a arte indígena contemporânea não ocupa um espaço concedido por bondade. Ocupa um espaço que sempre lhe pertenceu.
O quê: segundo turno do Prêmio PIPA Online 2026
Artista: Moara Tupinambá
Votação: até domingo, 26 de julho de 2026
Resultado previsto: segunda-feira, 27 de julho de 2026
Link para votar: www.premiopipa.com/moara-tupinamba
Vídeo sobre a artista: PIPA 2026 | Moara Tupinambá
Instagram de Moara: @moaratupinamba e @ateliemoaratupinamba
Instagram da Aldeia Tucumã: @aldeiatucumatupinamba
Instagram do Prêmio PIPA: @premiopipa
Por Thaís Raquel de Moraes para o Portal Belém.