A Climatempo confirma El Niño de intensidade forte com 97% de probabilidade de continuação até o verão de 2027, com ápice entre outubro e dezembro de 2026. O fenômeno impõe desafios ao setor elétrico brasileiro, exigindo planejamento estratégico para lidar com a redistribuição dos extremos climáticos: Sul terá chuvas volumosas; Norte, Nordeste e Amazônia enfrentarão seca, calor extremo e aumento de queimadas; Sudeste e Centro-Oeste terão impacto heterogêneo nos reservatórios. As temperaturas devem ficar acima da média histórica, elevando o consumo de energia e sobrecarregando o sistema. A meteorologista Lara Marques alerta que adaptação e resiliência devem ser incorporadas ao planejamento de 1, 5 e 10 anos. O monitoramento regionalizado é essencial para antecipar manutenções e proteger a infraestrutura.
A confirmação de um El Niño de intensidade forte, com persistência prevista para se estender até o fim do verão de 2027, impõe novos desafios operacionais e de planejamento para o setor elétrico brasileiro. A avaliação é da Climatempo, maior empresa de consultoria meteorológica do país, que aponta 97% de probabilidade de continuação do fenômeno, com 81% de chance de atingir seu ápice entre outubro e dezembro deste ano.
Segundo a meteorologista Lara Marques, da Climatempo, embora o El Niño seja um agente climático relevante, ele não atua sozinho. "Precisamos de uma série de outros fatores e sistemas atmosféricos associados para termos impactos tão significativos. Um exemplo claro foi a tragédia no Rio Grande do Sul entre 2023 e 2024, que resultou de uma combinação de diversos eventos meteorológicos severos, e não apenas da atuação do El Niño", explica.
Períodos neutros mais curtos e recuperação hídrica comprometida
Outro fator de alerta é a mudança na ciclicidade global. Historicamente, os fenômenos El Niño e La Niña eram intercalados por janelas mais longas de neutralidade climática. Agora, esses períodos estão cada vez menos frequentes e mais curtos. Para o setor elétrico, essa transição rápida dificulta a recuperação dos mananciais e reservatórios durante a estação úmida.
"Além da necessidade de que as chuvas ocorram onde os mananciais estão localizados, o tempo hábil para que as bacias hidrográficas retomem seus níveis operacionais ideais está menor, exigindo uma gestão hídrica muito mais dinâmica e cautelosa por parte do Operador Nacional do Sistema (ONS) e das geradoras", avalia Lara.
Redistribuição dos extremos climáticos no país
Para os próximos meses, as análises indicam uma clara redistribuição dos extremos climáticos, pressionando a infraestrutura de forma desigual:
· Região Sul: maior probabilidade de chuvas volumosas, rajadas de vento e descargas elétricas, com risco de impactos localizados na infraestrutura de transmissão e distribuição.
· Norte, Nordeste e Amazônia: condições mais secas, calor extremo e aumento expressivo de queimadas. Chuvas ficarão abaixo da média, pressionando a geração hidrelétrica local devido ao menor afluxo nos reservatórios.
· Sudeste e Centro-Oeste: impacto heterogêneo nos níveis dos reservatórios; algumas bacias podem ser privilegiadas, mas a irregularidade das precipitações exige um olhar amplo e nacionalizado.
Temperaturas elevadas e sobrecarga no sistema
Além das mudanças no regime de chuvas, o setor elétrico deve se preparar para um aumento no consumo de energia. As temperaturas devem ficar acima da média histórica, impulsionadas pelo El Niño forte e pelo aquecimento contínuo no Brasil, que já registra anomalia térmica superior a 1°C nas últimas seis décadas. Esse calor excessivo sobrecarrega o sistema elétrico, especialmente nos horários de pico, e eleva o risco de falhas na rede de distribuição.
"Não podemos mais tratar essas previsões climáticas apenas como eventos pontuais. É fundamental que as empresas do setor elétrico não atuem apenas na contingência imediata, mas incorporem a adaptação e a resiliência em seus planejamentos de um, cinco e dez anos", alerta Lara Marques. O monitoramento contínuo e regionalizado será a principal ferramenta para antecipar manutenções, mitigar riscos e proteger a infraestrutura crítica do país.