Comunidades da Resex Marinha do Pará exigem inclusão de pescado local na merenda escolar durante Marcha dos Manguezais em Belém

3ª Marcha dos Manguezais Amazônicos reuniu comunidades tradicionais no último domingo (26). Lideranças pedem substituição de alimentos ultraprocessados por pescado produzido localmente nas escolas públicas. Movimento também destacou protagonismo feminino e fortalecimento da sociobioeconomia na costa paraense.

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Foto: Divulgação
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Comunidades tradicionais das Reservas Extrativistas (Resex) Marinhas do Pará realizaram a 3ª Marcha dos Manguezais Amazônicos em Belém, no último domingo (26). A principal reivindicação do movimento é a inclusão regular do pescado local na merenda escolar da rede pública, em substituição aos ultraprocessados. A presidente da Associação da Resex Mocapajuba, Renilde Piedade da Silva, destacou os avanços do PAA, mas cobrou que o alimento chegue de forma contínua às escolas. A marcha também debateu o fortalecimento da sociobioeconomia, a preservação dos manguezais e o protagonismo feminino nas reservas, com a criação da Rede Mães do Mangue, clubes de poupança e projetos de geração de renda. O movimento integra a Campanha Julho Verde e segue mobilizando comunidades no Pará, Amapá e Maranhão.

 

As comunidades tradicionais das Reservas Extrativistas (Resex) Marinhas do Pará se reuniram em Belém no último domingo (26) para a 3ª Marcha dos Manguezais Amazônicos. Entre as principais reivindicações do movimento, está a inclusão regular do pescado local na merenda escolar da rede pública, em substituição aos alimentos ultraprocessados.

A presidente da Associação de Usuários da Resex Marinha Mocapajuba, Renilde Piedade da Silva, sintetizou a demanda: "Não queremos mortadela nem alimentos industrializados nas escolas. Nossos filhos precisam comer o nosso pescado. Queremos o peixe produzido pelos nossos pescadores na merenda escolar, porque são os nossos filhos que estão ali".

A liderança celebrou o avanço do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), que já viabiliza a compra direta do pescado das Resex pelo poder público, mas ressaltou que o próximo passo é garantir que esse alimento chegue de forma contínua às escolas. "Pela primeira vez o governo compra diretamente do pescador da nossa Resex para alimentar as próprias famílias, e queremos que isso também chegue às outras escolas", completou.

Sociobioeconomia e preservação ambiental

A demanda por merenda escolar de qualidade está inserida em um contexto mais amplo: o fortalecimento das associações comunitárias na costa paraense, fundamentais para a consolidação da sociobioeconomia na Amazônia. Essas organizações estruturam cadeias produtivas locais — como as do caranguejo, mariscos, pescado e oleaginosas — gerando renda para centenas de famílias e atuando diretamente na preservação ambiental.

Maura Sousa, gerente sênior da Associação Rare do Brasil, que atua há mais de 15 anos com projetos comunitários na região, alerta para a importância de apoiar quem de fato protege esses ecossistemas. "Muita gente frequenta a zona costeira apenas como espaço de lazer, mas não imagina o trabalho realizado diariamente pelas comunidades para manter esse ecossistema vivo. Se não fortalecermos quem protege esses territórios, corremos o risco de perder esse patrimônio", afirmou.

Apesar dos desafios financeiros, Renilde destaca que a união entre os moradores e os parceiros institucionais tem sido a chave para a resistência. "Às vezes esbarramos na falta de recursos, mas não desistimos. Preservar os manguezais é cuidar do nosso sustento e também contribuir para o equilíbrio ambiental do planeta. Sozinhos não conseguimos. Unidos somos mais fortes", refletiu.

Protagonismo feminino e a "escola da vida"

A marcha integrou a programação da Campanha Julho Verde, que mobiliza comunidades tradicionais ao longo de todo o mês nos estados do Pará, Amapá e Maranhão. Um dos destaques dos debates foi o avanço do protagonismo feminino nas tomadas de decisão dentro das reservas extrativistas, espaços historicamente liderados por homens.

Segundo Renilde, a mudança começou com a criação de redes de apoio e incentivo à participação das mulheres. Dessas iniciativas nasceram a Rede Mães do Mangue, os clubes de poupança comunitários e projetos de geração de renda, como a Cozinha da Maré.

"O clube de poupança não era só sobre dinheiro. A gente percebeu que era uma forma de falar sobre o papel das mulheres, para ocuparem os espaços de decisão, já que os presidentes eram sempre os homens", relembrou.

Atualmente, as mulheres presidem associações, integram conselhos deliberativos das Resex e representam suas comunidades em debates estaduais, nacionais e internacionais. Renilde compartilhou a própria trajetória como exemplo dessa transformação social. "Eu não fiz faculdade, mas o movimento das Reservas Extrativistas foi a minha escola da vida. Foi aqui que aprendi sobre gestão do território, participação social e políticas públicas", relatou a líder comunitária, que começou como sócia fundadora e hoje preside a associação de sua Resex.

Ao fim do ato em Belém, as lideranças reforçaram a necessidade urgente de ampliação dos investimentos públicos para os territórios tradicionais da Amazônia. Para os manifestantes, conservar os manguezais significa proteger a biodiversidade, impulsionar a bioeconomia e assegurar alimento, renda e dignidade para as futuras gerações.


FONTE: G1
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