-
20/01/2021 às 12h00min - Atualizada em 20/01/2021 às 12h00min

Entrevista: Enfermeira vacinada contra a covid-19 fala sobre os desafios da pandemia

Vanessa Cabral, de 33 anos, está na linha de frente desde março

Carolina Neves - equipe Belém.com.br
"Acreditem na ciência, acreditem no SUS, acreditem no serviço público. Vamos provar que a vacinação vai ser capaz de salvar muitas vidas." (Foto: Marcelo Seabra/Agência Pará)
    
Com o início da campanha de vacinação na Região Metropolitana de Belém, os profissionais da área da saúde ganham mais um reforço com combate ao novo coronavírus. O grupo que está atuando na linha de frente da pandemia está sendo o primeiro a receber a vacina. A enfermeira Vanessa Cabral, de 33 anos, foi vacinada ontem em uma Unidade Básica de Saúde de Ananindeua. Vanessa atua desde o começo da pandemia e conversou com o Belém.com.br sobre como está sendo viver esse momento. 

Enfermeira, Vanessa trabalha em hospitais municipais há 8 anos. Ela é especialista em Unidades de Terapia Intensiva e em Segurança do Paciente para Profissionais de Urgência e Emergência. A profissional tem atuado como membro da linha de frente no tratamento à covid-19 em Belém e Ananindeua, desde o começo da pandemia, em março de 2020. Confira a entrevista completa abaixo, feita nesta terça-feira. 

Com o início do Plano de Vacinação em Belém nesta última terça (18), qual sua expectativa quanto ao processo de vacinação?

Tomei a vacina com toda a felicidade do mundo. Ontem foi o dia mais esperado desde que fomos assolados pela pandemia da covid-19. Foi um dia muito feliz. No domingo eu chorei muito com a vacinação da enfermeira Mônica Calazans, primeira pessoa vacinada no Brasil. Chorei também quando os colegas do Hangar estavam sendo vacinados. É um momento muito esperado.

 
Vanessa foi vacinada ontem em Ananindeua, na tarde do primeiro dia de imunização.

Vanessa foi vacinada ontem em Ananindeua, na tarde do primeiro dia de imunização.


Temos que acreditar na ciência. As vacinas salvam vidas. O nosso programa nacional de vacinação é o maior programa de imunização do mundo. Todos os nossos postos de saúde tem uma sala de vacina e nosso país tem estrutura para fazer uma vacinação em massa. Só dependemos da vontade política.
 

Essa vacina é tanto para nos proteger como para homenagear as pessoas que nós perdemos. Eu recomendo a todos que estiverem no grupo prioritário, quando chegar a sua vez, tomem a vacina. Acreditem na ciência, acreditem no SUS, acreditem no serviço público. Vamos provar que a vacinação vai ser capaz de salvar muitas vidas. 


Como você descreve o que mudou na sua rotina de trabalho com a pandemia? Estás atuando na linha de frente da covid-19?

Para mim foi um trabalho muito intenso nesse período. A maior mudança estava relacionada aos medos e a rotina de chegar em casa. No auge da pandemia, optei por ficar só. Morava com a minha mãe e ela foi para outro local, porque fiquei com medo de colocá-la em risco. Fiquei sozinha por três meses. Como tinha uma rotina bem intensa, de ficar indo de um lugar para o outro, sempre ao chegar em casa tinha que limpar tudo e lavar o banheiro imediatamente, porque chegava com a roupa contaminada.

No próprio trabalho, no convívio pessoal com os colegas, sempre tínhamos que usar máscara, por não saber quem poderia estar contaminado ou não. Muita coisa mudou, inclusive a colaboração entre nós, a união. Desde maio atuo no Hospital de Retaguarda Dom Vicente Zico. O local  funciona como UTI covid-19 e é retaguarda do município para as UPAs e pronto-socorros.

Nosso olhar em relação ao outro mudou muito. Já tive muitos plantões tumultuados e unidades de reanimação lotadas, mas nunca nada assim. Ver tantos pacientes chegando com dificuldades respiratórias para mim foi uma das coisas mais difíceis.

Você chegou a pegar covid? Se sim, como foi? Ficou com sequelas?

Sim, peguei covid-19. Entre abril e maio de 2020 tive discretos sintomas e ao fazer o exame deu positivo. No final de novembro, sete meses depois, tive uma virose bem mais forte, fiquei três dias com febre, diarréia, dor no corpo, mal estar, mas em nenhum momento tive falta de ar. Ao fazer o exame novamente, o RT-PCR deu positivo para covid. 

Não sei se foi uma outra cepa ou se o vírus do primeiro momento reativou, mas não fiquei com graves sequelas. Fiz uma tomografia no final de dezembro e apareceu alguma coisinha lá. Então, provavelmente terei que fazer fisioterapia respiratória quando conseguir voltar ao médico.

Nos 15 primeiros dias depois do fim do meu quadro viral em dezembro tive muitas dores musculares, mas com o passar do tempo já estou na minha normalidade. Não sei se isso pode ser considerado sequela, mas apresentei dois testes positivos em um intervalo de sete meses. Então, acho que sou uma vitoriosa!

Qual foi o momento que mais te emocionou durante esse período?

Vivo todos os dias momentos muito difíceis, mas nunca vou esquecer do mês de abril, quando eu ainda estava na UPA. Estávamos com um número muito reduzido de servidores e a unidade vivia lotada. Nunca tinha visto na minha vida tanta gente com o mesmo problema, acho que não tínhamos ali um paciente que não apresentasse síndrome respiratória aguda. Todos com oxigênio. Todos pedindo ajuda.

A situação do atendimento no Hospital é diferente das Unidades de Pronto Atendimento. Apesar dos pacientes estarem com covid, no hospital eles já chegam estabilizados. Em UPAs, que funcionam de porta aberta, a situação é diferente. Então, os pacientes chegavam pedindo ajuda para respirar. Nunca vou esquecer isso.

Em um determinado dia estava em casa e minha tia me ligou dizendo que meu tio estava muito mal. Eles estavam rodando a cidade em busca de atendimento e não havia nenhum local disponível. Liguei para uma amiga e ela achou uma maca. Depois, ele precisou de uma intubação. Esse é um momento que nunca vou esquecer. Infelizmente, ele não resistiu. Foi no auge da pandemia.

Também nunca vou esquecer do meu amigo Bruno. Ele era maqueiro da UPA da Sacramenta. Tinha 34 anos, era uma pessoa excelente, muito querida e amada. Ele chegou na UPA no dia 18 de abril com muita falta de ar, pedindo para nós cuidarmos dele, para não o deixarmos morrer, porque ele tinha duas filhas para criar. Ele chegou a ser transferido para o Dom Zico, mas faleceu na madrugada do dia 19. Estava de plantão quando recebemos a notícia do falecimento. Todos nós choramos e os familiares de outros pacientes foram quem nos consolaram. Foi uma mistura de medo, de incerteza. Nós não sabíamos se mais membros da equipe estavam contaminados ou o que o futuro guardava.

Acredito que os momentos mais tensos eu vivi em abril. As pessoas chegavam desesperadas. Chegou um momento que tivemos que fechar a porta da urgência, porque não tínhamos mais como atender ninguém. Quando chegava em casa, eu desabafava com amigos, começava a chorar. Fiquei muito abalada. Eu dizia "meu Deus eu nunca vi tanta gente doente ao mesmo tempo". Eu já tinha visto paciente com falta de ar, mas ter 100% daqueles pacientes pedindo oxigênio e para não morrer... Nunca tinha vivido isso. Foram momentos muito difíceis.
    
Link
Tags »
Notícias Relacionadas »
Comentários »
-

Qual ‘brega marcante’ mais representa esse ritmo musical em Belém?

9.9%
1.9%
2.5%
3.1%
5.6%
13.7%
1.2%
5.6%
1.9%
54.7%