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30/10/2019 às 21h37min - Atualizada em 30/10/2019 às 21h37min

Dia de Finados reforça o culto às almas milagreiras de Belém

O belem.com.br relembra as histórias de alguns "santos populares" sepultados em necrópoles da capital

belem.com.br
Selma Amaral
Para o diácono Raimundo Cordeiro de Brito, da paróquia da Santíssima Trindade, cultuar os mortos é uma questão de fé (Fotos: Eliseu Dias)

Belém tem ao menos duas dúzias de personalidades falecidas há muitos anos e que têm suas memórias reverenciadas pela população durante as segundas-feiras, que é o dia dedicado à devoção das santas almas. Essas personalidades são chamadas de santos (as) populares ou almas milagreiras, pois a elas são creditadas graças e pedidos atendidos por emprego, saúde e formação profissional, entre outros.
 
No Dia de Finados, que transcorre neste sábado, 2 de novembro, a movimentação em torno dessa cultura deve aumentar. No cemitério de Santa Isabel, o maior da capital paraense, com mais de 80 mil sepulturas, são esperadas milhares de pessoas que vão homenagear seus entes queridos e também visitar os túmulos do médico Camilo Salgado, da jovem Josephina Conte, a “moça do táxi”, e de Severa Romana, assassinada em 2 de julho de 1.900.
 
O crime contra Severa Romana abalou a pacata Belém do Pará e conduziu a jovem, que estava grávida de sete meses, ao patamar de mártir. Na lápide de sua sepultura há o registro “homenagem popular à virtude heroica”, uma vez que Severa Romana morreu em defesa de sua honra, recusando o assédio do cabo Antônio Ferreira dos Santos, que viera transferido do Ceará para Belém e se hospedara na casa da família da vítima. O marido de Severa Romana era o soldado Pedro Cavalcante de Oliveira.
 
Severa Romana – O culto à alma de Severa Romana resiste ao tempo. No cemitério de Santa Isabel, todos os zeladores e funcionários conhecem o local da sua sepultura, cuja construção é escurecida pela fuligem das velas acesas. “Aqui dá muita gente, principalmente às segundas-feiras, que é dia dedicado às almas”, conta a zeladora Edileide Silva, que trabalha no cemitério há sete anos e diz não acreditar em “milagres” de pessoas falecidas.
 
“Eu acho que depende de cada pessoa. Eu não acredito e também nunca vi fantasmas por aqui. Agora, eu conheço pessoas que frequentavam esse cemitério e ficaram doentes, deprimidas e nunca mais voltaram aqui porque se encontram em tratamento espiritual. Tudo vai de cada um”, contou ela, que é evangélica da Assembleia de Deus.
 
Camilo Salgado – Já o médico Camilo Salgado, morto aos 55 anos de infarto, tem um histórico diferente. Era profissional famoso, foi político, mas se notabilizou pela generosidade e assistência aos pobres. Seu túmulo, erguido em mármore preto e localizado no corredor central do cemitério de Santa Isabel, é bastante visitado e constantemente rodeado de velas acesas e placas de agradecimento.
 
Em torno do culto a Camilo Salgado reza a lenda de que ele ainda visita doentes no Hospital da Beneficente Portuguesa, onde atuou como exímio cirurgião, conversando com pacientes e depois desaparecendo misteriosamente. Também há relatos de que, em sessões espíritas, o médico costuma receitar remédios e ajudar pessoas, marca que deixou durante o tempo em que esteve vivo.
 
Crasso Barbosa e João Carlos Maciel – Outros dois médicos: Crasso Barbosa e João Carlos Maciel, falecidos em 1919 e 1979, respectivamente, também já aparecem como “almas milagreiras” no cemitério de Santa Isabel. A zeladora Francisca dos Santos Ramos, de 78 anos, trabalha no cemitério há 45 e diz que “se pega com o doutor Crasso para ganhar saúde”. “Eu vou à sepultura dele quase todo dia. Vou lá, arrumo, limpo e peço pra ele que me dê força para continuar trabalhando”, diz a mulher, que esbanja alegria e felicidade. “Eu acredito que os mortos ajudam a gente, agora eu nunca vi nada. Não tenho esse poder”, brinca. Dona Francisca toma conta de 40 sepulturas e diz ser amiga dos familiares dos falecidos. “Eles são meus amigos, então eu considero os mortos também meus amigos”, completa.
 
Moça do táxi – Ainda no cemitério de Santa Isabel, a “alma milagreira” mais famosa é da jovem Josephina Conte, a “moça do táxi”. Falecida aos 16 anos, sua sepultura chama atenção pela suntuosidade e seu retrato desperta atenção pela qualidade e resistência ao tempo. A beleza da moça também impressiona. Josephina era rica e viveu na Belém dos anos de 1920, quando os primeiros automóveis circulavam pela cidade. Sua biografia destaca que ela foi filha do empresário italiano Nicolau Conte, que costumava presenteá-la com passeios de carro na data de seu aniversário.  Sua vida foi curta. Durou de 19 de abril de 1915 a 16 de agosto de 1931.
 
Para o diácono Raimundo Cordeiro de Brito, da paróquia da Santíssima Trindade, cultuar os mortos é uma questão de fé. Ele lembra que esse comportamento atravessa o tempo, mas que tende a desaparecer, considerando que não há jovens entre o público que visita o cemitério da Soledade às segundas-feiras. “Eu vejo que o público é na sua maioria de pessoas idosas, então, não deverá ter prosseguimento esse ritual, cuja natureza está na profundidade da alma das pessoas. A fé move todas as forças, pois eu conheço pessoas diagnosticadas com câncer e que ficaram curadas pela força da fé”, explica.
 
Atuando no cemitério da Soledade há 36 anos, ainda pelo mandato de Dom Alberto Gualdêncio Ramos, o diácono condena a prática do acendimento das velas nos mausoléus e túmulos, pois o calor das chamas compromete a construção, além de escurecer o mármore. “A gente reclama, pede para as pessoas acenderem as velas no cruzeiro, mas não tem jeito. Esse cemitério é tombado e essas peças são extremamente raras, vieram da Europa e foram montadas pelos operários estrangeiros, é algo que não veremos jamais se forem destruídas na sua totalidade”, lamenta.
 
Meninos Zezinho e Cícero, Escrava Anastácia e Preta Domingas – No cemitério da Soledade, o culto às almas é dirigido aos meninos “Zezinho” e “Cícero”, além da Escrava Romana, também conhecida como “Escrava Anastácia” e da “Preta Domingas”, falecida em 1871, que o diácono Brito tem simpatia. “Eu não conheço a história dela, mas ela ganhou esse túmulo em reconhecimento a sua devoção pela família que ela servia”, conta o religioso.  A “Escrava Anastácia” tem um memorial e sua sepultura é considerada uma das mais antigas do local.
 
O cemitério da Soledade funcionou desde o início do século XIX, mas foi aberto oficialmente em 1850 e permaneceu recebendo sepultamentos por 30 anos. O local tem um marco importante porque tem pobres e ricos, brancos e negros no mesmo campo santo. Vale ainda lembrar que antigamente as famílias ricas enterravam seus mortos nos terrenos de igrejas, sobrando aos cemitérios os sepultamentos de pessoas de classes menos favorecidas, como as próprias escravas e pessoas pobres ali sepultadas, além das crianças que morreram na epidemia de cólera e o general Gurjão, herói de guerra. Ainda no cemitério da Soledade, as almas milagreiras de Raimundinha Picanço e Mariana Isabel também recebem atenção de devotos.
 
Diene Ellen – Outras almas milagreiras reverenciadas pelos moradores de Belém estão no cemitério de São Jorge, no bairro da Marambaia. São todas crianças e cronologicamente mais jovens do que aqueles cultuados nos cemitérios de Santa Isabel e Soledade. A primeira alma milagreira do São Jorge é a menina Diene Ellen, que foi morta quando tinha dois anos. O algoz foi o pai, que estuprou, assassinou e esquartejou o corpo da criança, colocando-o em uma mala. O crime foi em 1973 e teve grande repercussão e comoção social.
 
Marinaldo e Marivaldo – Os outros dois santos populares são os irmãos Marinaldo e Marivaldo, que foram envenenados pelo pai, que confundiu veneno com xarope, durante uma escuridão provocada pela falta de energia elétrica. Os túmulos das crianças estão sempre cheios de brinquedos, doces e roupas, homenagens que os adultos vivos praticam talvez como pedidos de desculpas pela brutalidade com que perderam suas vidas inocentes.
 
 

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