19/12/2019 às 16h33min - Atualizada em 19/12/2019 às 16h33min

Como o cinema trata as mulheres e o feminismo desmonsta

Texto de Luzia Miranda
Foto: Haley Phelps
       
Em uma apresentação sobre mulher e cinema tratei do tema intitulando “De Branca de Neve às Vadias: Imagens da Mulher no Cinema”. O foco deste texto espera dar algumas “pinceladas” em algumas referências dessa apresentação considerando, num filme, o que nós observamos sobre esse gênero e o tratamento dado às figuras femininas. 

Quando criança, na minha cidade, Abaetetuba, os filmes chegavam sob a orientação do SESP e um dos primeiros a chegar por lá foi “A Branca de Neve na luta contra os micróbios”, exibido na rua (não havia salas de cinema) haja vista que o governo brasileiro fizera parceria numa aliança com os EUA para o programa que pode ser dito “mais médicos”, e esses filmes de animação ajudavam na educação da população sobre a erradicação das doenças que grassavam no Brasil, como malária, tuberculose, febre amarela etc.

A protagonista logicamente era a Branca de Neve que pela história chega à casa dos anõezinhos com a incumbência de ensiná-los às boas regras da limpeza da casa. Veja-se, então, com as imagens dessa mágica jovem que fugia de sua madrasta, a recorrência aos hábitos femininos favoreciam o que nas regras sociais era estabelecido para as mulheres, ou seja, a representação feminina se utilizando de imagens/ideias/conceitos para a atribuição de significados ao mundo vivido socialmente, soando na condição do essencialismo da condição feminina (“primazia da essência sobre a existência”).  Evidencia-se, dessa forma, que o processo essencialista é captado pelo cinema e aporta em representações do feminino traduzidas nas velhas ideias que circulam no meio social. De que a condição feminina é aquela que se define pela vivência e experiência no espaço doméstico com esse padrão tendendo a moldar o estabelecido sobre os indivíduos e favorecendo as denúncias estereotipadas que confinam aquelas que estão fora das normas aspiradas. O cinema envolve personagens, histórias, linguagens e culturas variadas e esse olhar vindo dessa arte produzida e circulante mundialmente tende a ser um recurso de reforço e submissão bastante forte às normas sociais.

Assim, uma questão para pensar até aqui: que filmes temos assistimos com esse toque da narrativa da interrelação com o status quo feminino nas imagens de mulheres, moldado pela sociedade patriarcal? Será uma experiência importante, a reflexão sobre isso, enquanto espectadoras.

Hoje podemos ter uma outra interpretação para o que vemos nos filmes, através de uma crítica ao processo de construção da narrativa clássica do cinema, reprodutor de imagens femininas extraídas dos modelos forjados pelo patriarcado. Há autores que se incorporam nessa linha e hoje apresentam novos olhares para um recurso que tem sido estimulado pelo feminismo. 

Há mais de trinta anos a crítica feminista no cinema, iniciada a partir do movimento feminista dos anos 1970, surge através de instrumentais de uma metodologia sociológica, política e antropológica e, mais tarde, do estruturalismo, da psicanálise e da semiologia, constituindo um corpo considerável: o cinema feminista na Inglaterra, EUA, França e Alemanha. Discute-se a visão tradicional que define e domina as relações de gêneros no cinema e a mulher como objeto erótico e sem protagonismo.

Duas grandes teóricas feministas contribuíram na formação de uma ruptura das representações femininas no cinema clássico americano. Ann Kaplan, com o livro “A Mulher e o Cinema. Os dois lados da câmera” ( 1995); e Laura Mulvey. “Prazer Visual e Cinema Narrativo na Experiência do Cinema” (1989).

Anne Kaplan concentra sua teoria na “polêmica questão do olhar masculino, visto, no patriarcado, como capaz de dominar e reprimir a mulher, por seu poder controlador sobre o discurso e o desejo femininos” (p. 16). Desenvolve sua argumentação mapeando o conceito do olhar e de como ele surgiu a partir de recentes teorias psicanalíticas, estruturalistas e semióticas (...), o olhar masculino definido no domínio à mulher como objeto erótico (...). Em relação aos contextos históricos sua “ênfase está numa estruturação mais ampla da narrativa e no posicionamento da mulher dentro dessa narrativa – transcendente das especificidades histórias e individuais” (p. 16). 

Para a autora, há dois pontos a evidenciar sobre a história das mulheres: há os modelos históricos que se relacionam ao casamento, à sexualidade a à família que tendem a transcender as categorias conceituais históricas. Isto porque as mulheres são quase invisíveis das narrativas históricas sendo relegadas ao silêncio a à marginalidade. Essa motivação é responsável pela narrativa dominante no cinema em que as mulheres são apresentadas em seu status secular e essencialista. Se algum filme muda o foco da câmera dessa representação, subjacente se acha o modelo tradicional já reconhecido. Em síntese: a narrativa clássica do cinema aproveita tradicionalmente a imagem da mulher como objeto erótico no filme e objeto de contemplação para o/a espectador/a.

Quanto a Laura Mulvey, em seu texto “Prazer Visual e Cinema Narrativo”, delimita como uma constante do cinema clássico a colocação do ponto de vista masculino como principal dentro das tramas.

Os filmes, a reprodução de modelos femininos e masculinos instituídos pelas ideias das relações de gênero hierarquizadas – chegam à espectadora com aquele ar de normalidade das histórias reproduzidas. Então ela cria a empatia com a personagem que mais se ajusta ao ideal de mulher que ela mentalizou. Quando há uma mudança de situação em que a personagem infringe os padrões femininos que já foram absorvidos por ela, a espectadora vai se indignar com o que assiste. Se há violência contra a personagem por essa atitude fora dos padrões é possível que a espectadora julgue de forma negativa esse comportamento; ou não julgue.

Na contemporaneidade, há rupturas com um único olhar nas imagens refletidas no cinema sobre as mulheres. Tanto as que estão nas telas quanto as que estão “por trás das câmeras” – houve uma ruptura e avanço do protagonismo feminino & sua diversidade. 

Dos desenhos animados Disney que antes contemplavam a Branca de Neve se submetendo aos acordes domésticos da casa dos Sete Anões, às animações contemporâneas como Mulan (1988), Enrolados (2012) Valente (2012), Frozen (2013) que desmontam os modelos que o cinema tende a captar das ideias construídas e dominantes na sociedade patriarcal. O que aponta, nos atuais estudos feministas do cinema, que as teóricas feministas avançaram em suas reflexões sobre a forma narrativa de “fazer cinema.”


Bibliografia
SMELIK, Anneke. Feminist Film Theory. Universidade Radboud de Nijmegen/ Holanda. In: https://revistausina.com/16-edicao/teoria-do-cinema-feminista-parte-i/
KAPLAN, Ann. A Mulher e o Cinema. Os dois lados da câmera (1995)
MULVEY, Laura. Prazer Visual e Cinema Narrativo na Experiência do Cinema (1989)
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