COP30 na Amazônia: quem protege os defensores da floresta?
Foto: Tv Brasil
Pela primeira vez na história, a Conferência das Partes sobre Mudança do Clima da ONU (COP30) será realizada na Amazônia, o coração verde do planeta. Um marco simbólico e geopolítico de grande força: o bioma mais estratégico para o equilíbrio climático global assume o centro do palco das negociações internacionais. Mas diante dessa escolha histórica, uma pergunta precisa ecoar com urgência: como exigir compromissos ambientais concretos se falhamos em proteger quem mais arrisca a vida para defender a floresta?
A realização da COP30 na Amazônia é, por si só, um reconhecimento da importância vital da região. Mas enquanto o mundo discute transição energética, mercados de carbono e metas de desmatamento, uma realidade invisibilizada ameaça ser varrida para debaixo do tapete: a escalada da violência contra os verdadeiros guardiões da floresta.
Na linha de frente da defesa ambiental estão povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos, extrativistas, ativistas e pesquisadores. São essas pessoas, com saberes ancestrais e práticas sustentáveis, que sustentam a floresta em pé — e, por isso mesmo, vivem sob constante ameaça. A Amazônia é hoje palco de uma batalha desigual entre a conservação e os interesses predatórios. Perseguições, criminalização, ameaças e assassinatos fazem parte do cotidiano de quem ousa proteger a natureza.
Segundo a Global Witness, entre 2012 e 2022, mais de 1.900 defensores do meio ambiente foram mortos no mundo. Só em 2022, foram 177 mortes, sendo 36% de indígenas. O Brasil responde por 60 dessas mortes — um terço do total mundial. Em 2023, o país somou 25 assassinatos, atrás apenas da Colômbia. A repressão à proteção ambiental na Amazônia é profunda, estrutural e, muitas vezes, subnotificada.
A violência está enraizada em fatores históricos, econômicos e políticos: concentração fundiária, modelo primário-exportador, sucateamento das políticas públicas e impunidade. A Comissão Pastoral da Terra aponta mais de 300 mortes em conflitos fundiários na última década. A Human Rights Watch documentou 28 assassinatos ligados ao desmatamento ilegal; apenas dois chegaram aos tribunais.
Esse cenário exige mais que denúncia — exige ação concreta. E uma ferramenta emergente pode reforçar essa luta: a inteligência artificial (IA). Aplicada de forma ética, estratégica e participativa, a IA pode ajudar a preservar vidas, enfrentar a desinformação e fortalecer a justiça ambiental.
Ferramentas inteligentes já são capazes de mapear campanhas de difamação, detectar discursos de ódio, emitir alertas sobre ameaças em tempo real e apoiar políticas públicas com dados robustos. A ONU reconhece que a desinformação climática enfraquece a governança ambiental. A IA, nesse contexto, pode atuar na linha de frente da proteção informacional de defensoras e defensores.
Experiências já em curso mostram o potencial desse caminho. A Anistia Internacional desenvolveu o Troll Patrol para rastrear discursos de ódio online. O Guardian Project cria aplicativos de segurança digital para ativistas. A plataforma EyeWitness to Atrocities verifica a autenticidade de imagens e vídeos de violações. E o sistema HunchLab, criado para segurança urbana, pode ser adaptado para áreas de conflito socioambiental.
A base jurídica para essa proteção já existe: a Declaração da ONU sobre Defensores de Direitos Humanos, o Acordo de Escazú, a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) e o Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos (PPDDH). Mas a implementação ainda é frágil. A IA pode preencher essas lacunas, desde que guiada por princípios como legalidade, necessidade, transparência e autodeterminação informacional.
É fundamental, no entanto, superar a exclusão digital. Muitas comunidades amazônicas têm acesso precário à internet e à tecnologia. A introdução de soluções baseadas em IA deve respeitar as culturas locais, ser acessível e garantir a segurança dos dados. A participação das próprias comunidades no desenvolvimento dessas ferramentas é indispensável.
A IA também pode apoiar a responsabilização criminal. Plataformas como o VIDERE usam análises automatizadas para identificar padrões de violência, subsidiando investigações e dando visibilidade a violações que muitas vezes são ignoradas pelas instituições nacionais.
Essas tecnologias não são uma solução mágica, mas podem ser ferramentas valiosas se combinadas com ação política, engajamento social e mobilização internacional. Porque não há justiça climática sem justiça social — e não há futuro sustentável sem a proteção de quem sustenta a vida na floresta.
A COP30 não pode se limitar a promessas diplomáticas. Ela precisa representar um ponto de virada: o momento em que o mundo reconhece que proteger a Amazônia implica, antes de tudo, proteger seus defensores. Que cada acordo climático seja também um compromisso com a integridade física, digital e simbólica de quem arrisca tudo para manter viva a maior floresta tropical do mundo.
Se a Amazônia é o termômetro da crise climática, seus povos são a linha de frente da resistência. Garantir suas vidas, ouvir suas vozes e valorizar seus saberes é um imperativo ético, ambiental e civilizatório. A inteligência artificial, se usada com responsabilidade, pode ser mais do que uma ferramenta — pode ser um escudo.
Com informações do Jota Info.