Torcedor misto e a paixão no futebol paraense

Debate sobre quem torce por Remo, Paysandu e um time do eixo Sul-Sudeste, como Flamengo ou Corinthians, divide opiniões no Pará; entenda o fenômeno

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Torcedor misto e a paixão no futebol paraense
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A paixão clubística no Pará é um caso de estudo. Não à toa, a rivalidade e o amor pela dupla Re-Pa, que atravessam gerações, se tornaram uma das maiores do país. Mas, em meio a essa devoção, uma figura tem se tornado cada vez mais central nas discussões sobre o esporte local: o chamado "torcedor misto". Aquele que, além de ter o coração dividido entre o Leão ou o Papão, também nutre uma paixão por times de fora, como Flamengo, Corinthians ou São Paulo.

O tema não é novo, mas ganhou força com a falta de representatividade dos clubes paraenses na elite do futebol nacional, algo que historicamente abriu espaço para que times do eixo Rio-São Paulo dominassem o cenário da mídia e, consequentemente, a afeição de muitos torcedores. No entanto, o debate é complexo e polariza opiniões, como explica o antropólogo Robson Cardoso de Oliveira em análise recente ao portal O Liberal.

Para o especialista, o fenômeno do "torcedor misto" é resultado de uma desigualdade histórica que forçou a audiência a se conectar com os clubes que a televisão insiste em mostrar. Em contrapartida, o recente crescimento e a valorização de times do Norte e Nordeste, como o Fortaleza, trouxeram à tona um sentimento de identidade regional mais forte, fazendo com que a presença de camisas de times de fora nos estádios paraenses seja vista com desdém por alguns.

A reportagem conversou com torcedores para entender os dois lados dessa história. Gabriel Moraes, torcedor do Paysandu, defende que a prática enfraquece o futebol local. "Cresceu o movimento para que esses torcedores não fossem bem-vindos nos estádios. Quando eu era criança era normal ver camisas de times de fora no Mangueirão ou na Curuzu. Hoje já não acontece com tanta frequência", afirmou, indicando que a conscientização sobre a importância de apoiar os times da terra tem surtido efeito.

Já Felipe Luz, que se declara torcedor do Paysandu e do Vasco, enxerga a questão por uma outra lente. Para ele, o amor por um clube do eixo não anula a paixão pelo futebol paraense. "Eu vou a todos os jogos do Paysandu na Curuzu e acompanho o time de perto. Já o Vasco, acompanho pela TV. Torcer para um time grande de fora não anula o apoio ao futebol local. As duas coisas podem conviver", explicou. O torcedor reitera que o rótulo de "vira-lata traidor", usado para diminuir aqueles que nutrem duas paixões, é injusto, e que o que importa é a intensidade do amor, e não o número de camisas que se tem no guarda-roupa.

É inegável que o cenário esportivo é um reflexo do nosso tecido social, com suas complexidades e contradições. O que para uns é uma traição, para outros é apenas mais uma forma de viver o esporte. O fato é que a discussão está longe de terminar, e o amor pelo futebol, no Pará e em todo o Brasil, continua a ditar as regras da partida, independentemente do que se pense sobre a fidelidade clubística.

Para entender o fenômeno:

  • O que é? O torcedor misto é aquele que torce para um clube local (Remo ou Paysandu) e também para um time do eixo Sul-Sudeste, comumente do Rio de Janeiro ou de São Paulo.

  • Por que existe? A falta de visibilidade e de participação histórica dos times paraenses nas principais divisões do Campeonato Brasileiro e da Copa do Brasil fez com que torcedores buscassem outras equipes para acompanhar em alto nível.

  • Onde é mais comum? Dados do IBOPE Repucom indicam que as regiões Norte e Nordeste concentram a maior proporção de torcedores mistos do país, o que explica a intensidade do debate em praças como Belém.


FONTE: O Liberal
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