Indígenas fazem protesto no rio Tapajós contra Ferrogrão

Grito Ancestral reúne 300 pessoas em ato pacífico contra projetos de infraestrutura. Lideranças alertam para impactos ambientais.

Por Portal Belém - Antonia Ribeiro
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Indígenas fazem protesto no rio Tapajós contra Ferrogrão
Foto: Divulgação
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Mais de 300 indígenas e integrantes de movimentos sociais realizaram o 8º Grito Ancestral no rio Tapajós.O protesto pacífico contra a Ferrogrão e as hidrovias do Arco Norte ocorreu enquanto líderes globais debatem mudanças climáticas na COP30. Lideranças indígenas alertam que os projetos de infraestrutura ameaçam comunidades tradicionais e o equilíbrio ambiental da região. O ato marca o início da Caravana da Resposta, que levará as demandas dos povos até Belém durante a conferência climática.

 

Enquanto líderes globais se reúnem em Belém para debater as mudanças climáticas, mais de 300 indígenas e integrantes de movimentos sociais realizaram, na manhã desta sexta-feira (7), a oitava edição do Grito Ancestral. O protesto aconteceu no rio Tapajós, no Pará, dentro do Território Tupinambá.

Um protesto pacífico contra grandes projetos

A ação incluiu uma intervenção direta e pacífica em barcaças que transportam cargas.O ato foi um protesto contra o avanço das hidrovias do Arco Norte e do projeto da Ferrogrão (EF-170). Durante cerca de cinco horas, embarcações ocuparam a área de navegação e cercaram comboios de barcaças. Lideranças subiram nas estruturas com faixas com os dizeres "Ferrogrão Não", "Comida sem veneno" e "O agro passa, a destruição fica". O ato transcorreu sem confrontos.

Marília Sena, liderança Tupinambá, afirmou que o Grito Ancestral é um recado aos líderes do mundo. "Não queremos que nossos biomas sejam vistos só como mercado, como corredor de soja, porto ou ferrovia. Queremos que vejam os povos que estão aqui há séculos, cuidando da floresta e do rio. Preservar o Tapajós é condição para qualquer compromisso climático sério", disse.

O Tapajós no centro dos projetos de infraestrutura

O protesto acontece em um rio estratégico para a agenda de infraestrutura brasileira.O Tapajós nasce no Mato Grosso, corta o Pará e deságua no rio Amazonas. Sua bacia abriga povos indígenas, comunidades quilombolas, ribeirinhas e unidades de conservação. Apesar disso, o rio se tornou alvo de sucessivos projetos de portos, hidrovias e terminais privados.

O rio está incluído no plano federal de hidrovias do Arco Norte, voltado ao escoamento de commodities agrícolas. Paralelamente, o projeto da Ferrogrão, desenvolvido a partir de interesses de grandes empresas do agronegócio, prevê uma ferrovia de 933 km entre Sinop (MT) e Miritituba (PA). Estudos oficiais indicam que o projeto pode multiplicar por até seis o volume de grãos exportados pela rota do Tapajós até 2049.

Impactos diretos nas comunidades

Para o povo Tupinambá e demais comunidades do Baixo Tapajós, esses projetos significam intensificação do trânsito de barcaças, pressão por dragagens, risco de explosão de pedrais sagrados, aumento de poluição e conflitos, e avanço de empreendimentos licenciados sem consulta adequada. "O que está em jogo é a privatização dos nossos rios", resume Gilson Tupinambá, coordenador do Conselho Indígena Tupinambá.

Governo sinaliza avanço da Ferrogrão após COP30

A mobilização ocorre no mesmo momento em que o governo federal indica que pretende retomar a Ferrogrão após a COP30.A Agência Nacional de Transportes Terrestres planeja concluir os estudos e enviá-los ao Tribunal de Contas da União, enquanto o Ministério dos Transportes fala em leilão em 2026 e em uma agenda internacional para apresentar o projeto a investidores.

Para Alessandra Korap Munduruku, "é uma contradição o governo falar em compromisso climático em Belém e, ao mesmo tempo, querer acelerar uma ferrovia pensada para baratear a exportação de soja, aumentar portos no Tapajós e pressionar ainda mais nossas terras."

Demandas dos povos do Baixo Tapajós

Na semana que antecedeu o ato,durante visita do presidente Lula à aldeia Vista Alegre do Capixauã, o Conselho Indígena Tapajós e Arapiuns entregou um documento com as principais demandas dos 14 povos indígenas do Baixo Tapajós. A carta destaca a urgência na demarcação de terras indígenas, denuncia o aumento dos conflitos fundiários e solicita a criação de um Distrito Sanitário Especial Indígena próprio e uma Coordenadoria Regional da FUNAI em Santarém.

O documento alerta que a combinação entre hidrovias, ferrovia e portos privados "ameaça diretamente a vida dos povos indígenas e o equilíbrio do ecossistema regional" e pede a revisão do modelo de infraestrutura voltado exclusivamente à exportação de commodities.

Próxima etapa: a Caravana da Resposta

O Grito Ancestral marca também a preparação para a próxima etapa da mobilização.Na sexta-feira (8), a Caravana da Resposta inicia sua jornada fluvial de Santarém até Belém, reforçando o elo entre o protesto no Tapajós e a participação direta dos povos na COP30.

A jornada, que começou de ônibus em Sinop (MT) no dia 4 de novembro, reúne centenas de lideranças e comunicadores populares. Eles percorrem a mesma rota usada pelo agronegócio para exportar soja, mas com outro propósito: defender o direito aos rios, denunciar violações e apresentar alternativas baseadas em agroecologia, soberania alimentar e proteção territorial.

Ao longo do percurso, estão previstas assembleias, plenárias, rodas de conversa e atividades culturais, com debates sobre hidrovias, Ferrogrão, dragagens e demarcação de terras. Alimentos agroecológicos doados por redes camponesas e comunidades tradicionais abastecerão a cozinha solidária da Cúpula dos Povos em Belém.

Por Portal Belém com redação de Antonia Ribeiro.


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