Em uma unidade de atendimento especializado em Belém, a bola não entra em campo para decidir um placar. Ela serve de ponto de partida para estimular coordenação motora, comunicação, atenção e interação social entre crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA).
Durante a semana de 15 a 21 de junho, a unidade TEA Chaco, mantida pela Hapvida, realiza uma programação inspirada na Copa do Mundo. O calendário reúne brincadeiras adaptadas e atividades coletivas que integram o acompanhamento já desenvolvido com as crianças atendidas no local.
O momento ajuda a explicar a escolha do tema. A Copa do Mundo de 2026 começou em 11 de junho e segue até 19 de julho, espalhando referências ao futebol por escolas, casas e diferentes espaços de convivência.
Entre as atividades estão Acerte o Gol, Boliche das Seleções, Taças dos Campeões, pescaria temática e painéis interativos. Cada brincadeira é adaptada para trabalhar objetivos específicos, como seguir instruções, compartilhar a atenção, respeitar turnos, comunicar escolhas e participar de ações em grupo.
O futebol, neste caso, funciona menos como competição e mais como linguagem. A familiaridade com a bola, os uniformes e o ambiente de torcida pode facilitar a aproximação das crianças com as propostas apresentadas pelos profissionais.
Segundo Érica Resplandes, coordenadora da unidade, partir de temas presentes no cotidiano pode tornar a experiência mais significativa.
“Quando utilizamos temas que despertam o interesse das crianças, conseguimos criar oportunidades de aprendizagem de forma mais natural. O futebol, por exemplo, permite trabalhar atenção compartilhada, interação social, coordenação motora, comunicação e até habilidades relacionadas à tolerância à espera e ao cumprimento de regras, sempre respeitando as particularidades de cada paciente”, explica.
Pesquisas recentes indicam que programas estruturados de atividade física podem contribuir para o desenvolvimento de habilidades motoras e sociais de crianças autistas. Os resultados, porém, variam de acordo com o perfil dos participantes, o tipo de exercício, a frequência e o acompanhamento profissional.
Uma meta-análise publicada em 2024 identificou efeitos positivos no desempenho motor, nos comportamentos repetitivos e na função social. O próprio estudo, entretanto, apontou que apenas três dos 28 ensaios avaliados cumpriam critérios de alta qualidade — um lembrete necessário contra promessas fáceis ou conclusões universais.
Outras revisões encontraram possíveis avanços em coordenação, controle cognitivo, comunicação e competências sociais, especialmente quando as atividades são planejadas e mantidas de forma regular.
O Ministério da Saúde reforça que as estratégias de acompanhamento devem ser definidas pela equipe multiprofissional, considerando as necessidades, características e formas de comunicação de cada criança.
Além das referências esportivas, a programação incorpora elementos das festas juninas, período que atravessa a rotina cultural de Belém e de outras cidades paraenses em junho. A combinação amplia as possibilidades de brincadeiras, estímulos sensoriais e participação das famílias.
“Nosso objetivo é oferecer experiências que façam sentido para as crianças. Quando elas se sentem motivadas e envolvidas, conseguimos ampliar as possibilidades de aprendizagem e desenvolvimento dentro de um ambiente seguro, acolhedor e divertido”, acrescenta Érica.
Não há taça em disputa nem promessa de resultado instantâneo. O que existe é a tentativa de transformar situações comuns — chutar uma bola, esperar a vez, derrubar pinos ou completar uma tarefa — em pequenas oportunidades de comunicação, autonomia e convivência.
Por Thaís Raquel de Moraes para o Portal Belém.