"Envelhecer é a coisa mais moderna que existe". A frase, imortalizada na voz de Arnaldo Antunes, carrega uma poesia que nem sempre encontra eco na realidade crua dos consultórios e lares brasileiros. Hoje, 6 de fevereiro de 2026, enquanto o país começa a esquentar os tamborins para o Carnaval e as cores do Fevereiro Roxo começam a ganhar as ruas — alertando para o Alzheimer e outras doenças —, o debate precisa se voltar para uma epidemia silenciosa que não escolhe mês para atacar: a solidão na terceira idade.
O envelhecimento, para além das marcas na pele e das mudanças físicas naturais, impõe desafios psicológicos severos. Fatores como a aposentadoria, o "ninho vazio", a perda de entes queridos e a solidão estrutural têm gerado um aumento preocupante nos índices de sofrimento emocional entre pessoas com mais de 60 anos. O alerta vem de quem lida diariamente com essas questões, como o docente de Psicologia da Faculdade Serra Dourada Altamira, Alexsandro Prates.
Para o especialista, o processo de envelhecer exige uma adaptação emocional profunda, muitas vezes negligenciada. "O envelhecimento é marcado por mudanças significativas que podem gerar insegurança, medo da dependência e ansiedade em relação à finitude da vida", explica Prates. Ele ressalta que essas vivências demandam que o idoso ressignifique sua própria identidade, um processo tão complexo quanto necessário.
Aposentadoria e a perda do "ser útil"
Um dos pontos críticos apontados é a aposentadoria. Em uma sociedade que valoriza excessivamente a produção, parar de trabalhar pode ser sentido como uma "sentença de inutilidade". "A aposentadoria pode provocar a perda do papel produtivo, da rotina e do reconhecimento social, afetando a autoestima", pontua o psicólogo.
Esse cenário ganha contornos dramáticos quando olhamos para os dados. Levantamentos recentes da Organização Mundial da Saúde (OMS), divulgados no final de 2025, indicam que uma em cada seis pessoas no mundo é afetada pela solidão, sendo os idosos o grupo mais vulnerável. No Brasil, dados da PNAD Contínua mostram que o número de domicílios com apenas um morador saltou para 18,6%, e uma parcela significativa desses lares é habitada por idosos. O sentimento de não pertencimento e a falta de uma rotina estruturada são gatilhos poderosos para a depressão geriátrica.
A epidemia silenciosa
A diminuição da rede de apoio e o preconceito (etarismo) empurram o idoso para a margem. "Esses fatores, quando associados, aumentam a vulnerabilidade a transtornos como depressão e ansiedade na terceira idade", destaca Prates. O problema é que, culturalmente, muitas famílias ainda enxergam a tristeza profunda ou o isolamento apenas como "coisas da idade" ou "teimosia", o que é um erro grave.
"O tabu contribui para que o sofrimento emocional seja normalizado, dificultando o diagnóstico e atrasando o tratamento adequado", afirma o especialista. Não é raro vermos idosos sendo tratados apenas com remédios para dores físicas, quando a dor real é na alma.
Sinais de alerta: quando procurar ajuda
Familiares e cuidadores precisam estar atentos aos detalhes, que muitas vezes são sutis. Mudanças bruscas podem ser pedidos de socorro. Os principais sinais incluem:
• Tristeza persistente que não passa com o tempo;
• Isolamento progressivo, recusando convites e visitas;
• Alterações no sono e no apetite (dormir demais ou de menos, perder a fome);
• Perda de interesse por atividades que antes davam prazer (anedonia);
• Queixas físicas constantes sem causa médica aparente.
"Esses sinais não devem ser ignorados e indicam a necessidade de avaliação por profissionais de saúde mental", alerta Prates.
Reconstruindo laços e sentidos
A prevenção passa, invariavelmente, pela manutenção da autonomia e do convívio. Não se trata apenas de "cuidar", mas de permitir que o idoso continue sendo protagonista de sua história. "Estimular o protagonismo do idoso, respeitar sua capacidade de decisão e evitar a superproteção são atitudes fundamentais", orienta o psicólogo.
Participar de grupos comunitários, atividades religiosas, culturais ou esportivas não é apenas passatempo; é estratégia de saúde pública para ampliar o sentimento de pertencimento. Afinal, como sugere a sabedoria popular e a boa música brasileira, a vida é trem-bala, parceiro. Cuidar da mente na velhice é garantir que a viagem valha a pena até o último destino. "Envelhecer emocionalmente bem não significa ausência de sofrimento, mas a capacidade de enfrentar desafios, adaptar-se às mudanças e construir novos sentidos para a vida", conclui Prates.
Por Thaís Raquel de Moraes para o Portal Belém.