Santarém aos 365 anos: rios, lutas e futuro vivo

No aniversário da Pérola do Tapajós, uma crônica-reportagem sobre beleza, povo, desenvolvimento e feridas abertas na saúde e no garimpo.

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Santarém aos 365 anos: rios, lutas e futuro vivo
Foto: vista aérea do encontro das águas. Santarém - Pará. Créditos: reprodução Agência Pará

Santarém completa 365 anos nesta segunda-feira, 22 de junho, com a solenidade de quem carrega história demais para caber em discurso oficial — e beleza demais para caber em cartão-postal. Fundada oficialmente em 22 de junho de 1661, a partir da antiga Aldeia dos Tapajós, a cidade chega ao aniversário como uma das grandes referências urbanas, culturais, econômicas e afetivas da Amazônia brasileira. Hoje, são mais de 360 mil habitantes, segundo estimativa do IBGE para 2025, vivendo entre o peso das urgências e a delicadeza de uma paisagem que parece insistir em lembrar: o mundo ainda pode ser bonito, apesar de tudo.

Há cidades que a gente conhece pelo mapa. Santarém se conhece pelo rio. Pelo modo como o Tapajós encontra o Amazonas sem se dissolver de imediato, mantendo cor, temperatura, personalidade. Talvez venha daí certa alma santarena: a capacidade de conviver com contradições sem desaparecer dentro delas. A cidade é festa, procissão, mercado, escola, porto, hospital, praia, aldeia, universidade, comércio, memória. É Alter do Chão em fotografia de turista e periferia sem saneamento na vida real. É Encontro das Águas e desencontro de políticas públicas. É orgulho e cobrança, ao mesmo tempo.

Uma cidade antes da data

A data oficial conta 365 anos, mas Santarém é mais antiga que o calendário colonial. Antes do nome português, antes da missão jesuítica, antes da cidade aprender a se explicar para o Estado, já havia presença, território, espiritualidade, agricultura, cerâmica, caminhos, aldeias e memória indígena. O Baixo Tapajós não é apenas cenário: é chão ancestral.

Nos últimos anos, os povos originários da região têm reafirmado isso com força. O Ministério dos Povos Indígenas criou, em maio de 2026, o Fórum Regional Territórios Ancestrais do Baixo Tapajós, a partir das demandas de lideranças de 14 povos, entre eles Arapyun, Arara-Vermelha, Borari, Jaraki, Tapajó, Tapayú, Apiaká, Kumaruara, Maytapu, Munduruku, Munduruku Cara Preta, Sateré-Mawé, Tapuia e Tupinambá. A pauta envolve regularização territorial, proteção, saúde indígena, políticas sociais e enfrentamento a pressões de madeireiras, garimpo e agronegócio. 

É por isso que falar de Santarém exige cuidado. A cidade não nasceu vazia. Não foi “descoberta” como quem encontra uma pedra bonita no meio da estrada. Santarém foi construída sobre presenças que resistiram à tentativa de apagamento. E há algo profundamente justo em dizer isso no aniversário da cidade: amar Santarém também é devolver nome, rosto e lugar a quem sempre esteve ali.

A beleza que sustenta a saudade

Quem é de Santarém sabe que há uma espécie de nostalgia instalada até nos dias comuns. Ela aparece na orla ao fim da tarde, quando o sol parece descer com uma paciência impossível. Aparece no cheiro de peixe, no movimento dos barcos, no calor que gruda na pele, nas conversas de esquina, nos retornos de quem foi embora e nunca deixou de pertencer.

A cidade tem riquezas que não cabem na palavra “turismo”, embora o turismo seja uma de suas vocações mais visíveis. O Portal do Turismo do município lista Alter do Chão, Ponta de Pedras, Catedral de Nossa Senhora da Conceição, Casa da Cultura, Lago do Maicá, Rio Arapiuns, Ponta do Cururu, Floresta Nacional do Tapajós e o próprio Encontro das Águas entre os atrativos que fazem Santarém ser chamada de Pérola do Tapajós.

Mas o que segura a cidade de pé não é só a paisagem. É gente. É o povo acolhedor que abre casa, mesa, rede, palavra. É a cultura que passa pela Festa do Sairé, pelo carimbó, pelo artesanato, pela culinária, pelas manifestações religiosas, pelas bandas, pelos coletivos, pelos artistas, pelas comunidades ribeirinhas, quilombolas e indígenas. É uma riqueza que não pede licença para existir, embora precise lutar todos os dias para ser respeitada.

Desenvolvimento também é disputa

Santarém cresceu. E cresceu muito. Consolidou-se como polo do Oeste do Pará, cidade de serviços, comércio, educação superior, saúde regional, logística e turismo. O Hospital Regional do Baixo Amazonas, por exemplo, é referência em média e alta complexidade para cerca de 1,4 milhão de pessoas em 29 municípios do interior do estado. Desde 2013, a unidade também já recebeu mais de 20 mil estudantes universitários em atividades de formação.

O município também está no centro de grandes investimentos e disputas logísticas. O terminal da Cargill em Santarém, em operação desde 2003, movimenta soja e milho e tem capacidade anual de embarque de 4,9 milhões de toneladas de grãos, conectando rodovias, hidrovias e interesses econômicos que atravessam a Amazônia.

Esse desenvolvimento, porém, não pode ser tratado como palavra mágica. Toda cidade amazônica sabe que progresso sem escuta vira atropelo. Emprego importa. Infraestrutura importa. Investimento importa. Mas rio também importa. Território também importa. Gente também importa. Santarém não pode ser vista apenas como corredor de passagem para mercadoria. A cidade é morada, memória e futuro de quem vive ali.

A saúde como ferida aberta

Em aniversário de cidade, há sempre a tentação de fazer apenas o brinde. Santarém merece o brinde. Mas também merece a verdade.

A saúde pública é uma das dores mais persistentes da população. Há avanços, obras, reformas e promessas importantes. O Governo do Pará acompanha a construção do Hospital Materno Infantil de Santarém, projetado para ter cerca de 120 leitos, incluindo UTI adulto, infantil e neonatal, além de espaços de cuidado para pré-parto, parto e pós-parto. Também há previsão de ampliação e modernização do Hospital Regional do Baixo Amazonas.

Mas saúde não começa nem termina no hospital. Saúde é água limpa. É esgoto tratado. É criança sem verminose. É mulher sem precisar peregrinar por atendimento. É idoso que não espera meses por exame. É comunidade de rio com acesso regular a equipe, remédio, transporte e informação.

E é nesse ponto que Santarém sangra de forma escandalosa. No Ranking do Saneamento 2026, do Instituto Trata Brasil, o município aparece na última colocação entre as 100 maiores cidades brasileiras avaliadas. A tabela-resumo do estudo aponta Santarém na posição 100, com 44,93% de atendimento de água, 3,28% de coleta de esgoto, 9,26% de tratamento de esgoto e 57% de perdas na distribuição de água.

Não há poesia capaz de suavizar isso. Uma cidade cercada por águas não pode naturalizar que tanta gente viva sem o básico. A contradição é quase uma agressão: o rio diante dos olhos, a falta de saneamento dentro de casa. A beleza de Santarém não elimina essa dívida. Talvez a torne ainda mais urgente.

O Tapajós ferido pelo ouro

A exploração mineral é outra ferida que escorre para dentro da vida santarena, mesmo quando a lavra e o garimpo se concentram em áreas rio acima. Santarém sente o impacto porque é cidade-rio, cidade-foz, cidade de passagem, cidade de referência. O que machuca o Tapajós nunca fica longe de Santarém.

A Fiocruz apresentou, em 2025, dados preliminares de estudo com gestantes e recém-nascidos indígenas expostos ao mercúrio na Terra Indígena Munduruku, no Oeste do Pará. Segundo a instituição, os níveis médios de mercúrio detectados nas gestantes eram cinco vezes superiores ao tolerável, e os recém-nascidos apresentavam concentrações até três vezes acima do limite. A região é afetada pelo garimpo ilegal de ouro.

Em 2026, a InfoAmazonia mostrou que o Ministério Público Federal pediu a suspensão de permissões de lavra garimpeira na APA do Tapajós e apontou riscos à saúde humana e aos rios. A reportagem cita dados compilados pelo Greenpeace a partir do MapBiomas, segundo os quais a APA do Tapajós já teria 83 mil hectares impactados pela atividade garimpeira, tornando-se a unidade de conservação federal mais degradada pelo garimpo no país.

O garimpo não é uma abstração ambiental. Ele chega no peixe, no corpo, no ventre, na infância, na cultura alimentar, na confiança que uma comunidade deposita no rio. Quando o mercúrio entra na cadeia da vida, não contamina apenas a água: contamina o direito de existir sem medo.

A cidade que luta por si mesma

Ainda assim, Santarém não é uma cidade derrotada. Quem conhece sabe. Santarém trabalha, cria, acolhe, protesta, empreende, canta, ensina, reza, dança, recomeça. Há uma força muito própria no povo santareno, essa mistura de firmeza e doçura que não se vende como espetáculo, mas aparece no cotidiano.

Nas comemorações dos 365 anos, a Prefeitura anunciou mais de 30 dias de atividades, com entregas nas áreas de saúde, educação, infraestrutura e habitação, além de eventos culturais e esportivos em diferentes regiões do município, incluindo comunidades de rios e planalto. A programação incluiu show de aniversário, Missa Mocoronga, travessia esportiva, entrega da Medalha João Felipe Bettendorf e apresentações culturais.

O Governo do Pará também prevê a entrega da primeira Usina da Paz da Região de Integração Baixo Amazonas, em Santarém, com mais de 70 atendimentos e atividades nas áreas de saúde, assistência social, educação, esporte, cultura, lazer e qualificação profissional. O espaço fica na Avenida Pirelli, próximo à Rodovia Fernando Guilhon, e deve beneficiar diretamente mais de 300 mil moradores. 

São entregas relevantes. Mas Santarém não precisa apenas de inaugurações. Precisa de continuidade, fiscalização, escuta e coragem política. Precisa que o desenvolvimento não venha com a velha conta enviada aos mesmos corpos: os pobres, os indígenas, os ribeirinhos, as mulheres, as crianças, as periferias.

Serviço

Aniversário oficial: 22 de junho de 2026
Cidade: Santarém, Oeste do Pará
Programação municipal: atividades culturais, esportivas, religiosas, entregas públicas e ações em comunidades de rios, planalto e área urbana, com agenda estendida até o início de julho.
Usina da Paz de Santarém: entrega prevista para terça-feira, 23 de junho, às 9h, na Avenida Pirelli, próximo à Rodovia Fernando Guilhon.

Santarém chega aos 365 anos como chegam as grandes cidades amazônicas: bonita, contraditória, generosa, ferida, viva. Não se ama uma cidade fechando os olhos para seus problemas. Ama-se olhando de frente. Ama-se exigindo que o rio não seja envenenado, que o hospital não seja o único destino da dor, que o saneamento deixe de ser promessa, que os povos originários sejam respeitados, que a cultura não seja enfeite de folder, que o desenvolvimento tenha rosto humano. Santarém merece festa, sim. Mas merece também futuro. E futuro, para uma cidade nascida entre rios, só existe quando a água, a memória e o povo continuam vivos.

Por Thaís Raquel de Moraes para o Portal Belém.


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