A mineração paraense ganhou espaço, em Paris, em uma das principais agendas internacionais sobre governança, sustentabilidade e conduta empresarial responsável. O Sindicato das Indústrias Minerais do Estado do Pará (Simineral) participou, entre os dias 29 de junho e 2 de julho de 2026, da programação da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) dedicada aos 50 anos das Diretrizes da OCDE para Empresas Multinacionais sobre Conduta Empresarial Responsável.
A presença da entidade na agenda internacional ocorre em um momento em que a mineração deixou de ser apenas uma pauta econômica para ocupar o centro de debates sobre transição energética, cadeias produtivas responsáveis, rastreabilidade, direitos humanos, impactos socioambientais e desenvolvimento regional. No caso do Pará, essa discussão tem peso concreto: o estado é uma das principais bases minerais do Brasil e tem no setor uma das forças de sua inserção no comércio exterior.
Representando o Simineral, o presidente executivo Emerson Rocha e o diretor Eduardo Leão cumpriram uma agenda estratégica de reuniões com representantes da OCDE e autoridades brasileiras. O objetivo foi ampliar o diálogo institucional e abrir novas possibilidades de cooperação voltadas ao fortalecimento do setor mineral na Amazônia.
A agenda incluiu reunião com o embaixador Sarquis José Buainain Sarquis, representante do Brasil junto à OCDE, em Paris. No encontro, foram discutidos o papel estratégico do Brasil no cenário global, a importância da Amazônia para a agenda de desenvolvimento sustentável e a contribuição da mineração brasileira para a transição energética e o crescimento econômico.
O que estava em discussão
A programação da OCDE colocou no centro do debate a conduta empresarial responsável, conceito que reúne práticas de governança, transparência, gestão de riscos, respeito aos direitos humanos, responsabilidade ambiental e integridade nas cadeias de valor. Para o setor mineral, esses temas não são acessórios: são a fronteira entre uma atividade economicamente relevante e uma atividade capaz de responder, com seriedade, às cobranças do século.
A própria OCDE trata as cadeias minerais como área sensível. A extração, o transporte e o comércio de recursos minerais podem gerar renda, emprego e desenvolvimento local, mas também estão associados, em diferentes contextos globais, a riscos de violações de direitos humanos, corrupção, danos ambientais e fragilidades de governança.
Para a mineração do Pará, estar nesse ambiente significa disputar uma narrativa que vai além da produção. É também apresentar o setor paraense em uma mesa onde reputação, governança e capacidade de adaptação regulatória passam a contar tanto quanto volume extraído, faturamento ou exportação.
Pará no centro da mineração brasileira
O Pará é um dos principais estados minerais do país. Levantamento da Fundação Amazônia de Amparo a Estudos e Pesquisas (Fapespa), divulgado pela Agência Pará, aponta que o estado produziu 302,9 milhões de toneladas de minérios em 2023, o equivalente a 17,7% da produção nacional naquele ano.
Esse peso também aparece no comércio exterior. Em 2025, o Pará registrou superávit de US$ 21,5 bilhões e manteve a terceira maior balança comercial do país. A pauta exportadora seguiu fortemente concentrada no setor mineral, com destaque para minério de ferro, cobre e alumina calcinada.
É justamente por isso que a aproximação com a OCDE não deve ser lida apenas como uma agenda diplomática. Ela pode significar acesso a referências técnicas, capacitação, intercâmbio de boas práticas e maior alinhamento com exigências internacionais que já influenciam mercados, financiamentos e relações comerciais.
Cooperação permanente
A programação também incluiu encontro com Miguel Castro e Germán Zarama, representantes da OCDE. A reunião marcou o início das tratativas para o estabelecimento de uma agenda permanente de cooperação internacional entre a organização e o Simineral.
Entre os encaminhamentos discutidos estão a realização de programas de capacitação e treinamentos voltados às empresas associadas, o intercâmbio de conhecimento sobre boas práticas internacionais e o início das discussões para a participação do Simineral na comissão internacional de mineração da OCDE. A eventual inserção nesse espaço ampliaria a presença institucional da entidade nos debates globais sobre o setor mineral.
Para o presidente executivo do Simineral, Emerson Rocha, a agenda representa um importante avanço para aproximar a mineração paraense das principais referências internacionais em governança e sustentabilidade.
"Participar dessa agenda da OCDE demonstra que a mineração do Pará está cada vez mais integrada às discussões globais sobre desenvolvimento responsável e conduta empresarial responsável. Estamos construindo pontes que permitirão o intercâmbio de conhecimento, a formação de parcerias e o fortalecimento institucional do setor mineral amazônico", destacou.
Segundo o presidente executivo, o diálogo internacional também contribui para ampliar a visibilidade da mineração desenvolvida na Amazônia e fortalecer sua participação em espaços estratégicos de formulação de políticas e boas práticas.
"O Pará possui uma mineração cada vez mais comprometida com padrões internacionais de governança, inovação e sustentabilidade. Estar presente nesses fóruns é uma oportunidade de apresentar essa realidade ao mundo e construir soluções em conjunto para os desafios do setor", afirmou.
Mineração responsável não é slogan
Ao aprofundar a cooperação com a OCDE, o Simineral busca posicionar a mineração paraense em uma conversa global que exige mais do que boa intenção. O desafio está em transformar compromissos em práticas verificáveis: capacitação de empresas, transparência em cadeias produtivas, monitoramento de riscos, respeito às comunidades e resposta consistente às pressões ambientais e sociais.
O contexto internacional também pesa. A transição energética deve ampliar a demanda por minerais utilizados em tecnologias limpas, baterias, infraestrutura elétrica e processos industriais menos intensivos em carbono. Esse movimento abre oportunidades para países e regiões com forte base mineral, mas também aumenta a cobrança por padrões mais rigorosos de produção.
Na Amazônia, essa equação é ainda mais delicada. O território concentra riqueza mineral, biodiversidade, comunidades tradicionais, municípios altamente dependentes da atividade e passivos históricos que não podem ser tratados como rodapé do desenvolvimento. A mineração responsável, se quiser ser levada a sério, precisa caber nessa complexidade.
A participação na agenda da OCDE integra a estratégia institucional do Simineral de ampliar a cooperação internacional e conectar a mineração do Pará às melhores práticas globais, fortalecendo a presença da Amazônia nos debates sobre mineração responsável, competitividade e desenvolvimento sustentável.
Por Thaís Raquel de Moraes para o Portal Belém.