Açaí nas alturas: enquanto o Pará exporta recordes, Belém vive crise no prato mais tradicional da Amazônia

Por Belém.com.br-
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Açaí nas alturas: enquanto o Pará exporta recordes, Belém vive crise no prato mais tradicional da Amazônia
Foto: Rafael Guadeluppe/NurPhoto via Getty Images

Enquanto o governador do Pará, Helder Barbalho, brinca nas redes sociais com a ideia de servir uma tigela de açaí ao ex-presidente norte-americano Donald Trump durante a COP30, marcada para novembro em Belém, os moradores da capital paraense enfrentam uma realidade bem diferente. O açaí, símbolo da cultura alimentar amazônica, virou artigo de luxo para muitas famílias. "A pessoa não pode viver só de fast food, não é?", comentou Barbalho, em tom descontraído, ao fazer um convite público a Trump pelo Instagram.

Dentro dos portões do Parque da Cidade, onde ocorrerão os principais eventos da conferência climática da ONU, o roxo do açaí deve ocupar espaço nos cardápios oficiais. Fora dali, no entanto, os belenenses têm tido dificuldades até para manter a fruta no prato do dia a dia. Em uma cidade onde o açaí é parte da base alimentar — consumido com peixes, carnes e farinha como o “arroz com feijão” do Norte —, o preço disparou 56% nos primeiros quatro meses de 2025. O litro do tipo grosso, o mais valorizado, saltou de R$ 35,67 para R$ 52,10, segundo o Dieese-PA.

O aumento no início do ano não é incomum, já que a entressafra coincide com o período mais chuvoso da região. Mas a magnitude da alta preocupa: em relação a abril do ano passado, o preço subiu 7,1%, e no comparativo com 2023, a elevação acumulada chega a 27,6%. A combinação de fatores climáticos e dinâmicas do mercado global tem pressionado ainda mais uma cadeia produtiva que já enfrenta desafios históricos.

Paulo Tenório, 50 anos, vive esse impacto na pele. Há 12 anos trabalhando como batedor artesanal de açaí na Marambaia, bairro periférico vizinho às instalações da COP30, precisou suspender a atividade e virou motorista de aplicativo. “Estou em abstinência de açaí”, desabafa. Com renda 40% menor, ele teve que mandar o filho morar com a avó e diz nunca ter visto os preços tão altos. “O açaí é um defunto, quando sai do cacho, começa a morrer”, explica, sobre a perda de qualidade do fruto vindo de áreas distantes, como a Ilha do Marajó.

A crise não se explica apenas pela entressafra. A seca severa de 2023 e 2024, agravada pelo El Niño, impactou drasticamente a produção do açaizeiro, planta que depende de um equilíbrio hídrico delicado. “O açaizeiro precisa de um equilíbrio tão preciso da natureza que o ser humano é um mero coadjuvante”, afirma Nathiel Moraes, diretor de pesquisas do Instituto Açaí é Nosso e pesquisador da UFPA. Na comunidade quilombola Itacoã Miri, em Acará, a produtividade caiu 40% em 15 anos, segundo o agricultor Marcos da Silva. “Tem algum fator causando isso. Isso não é normal”, afirma.

A demanda internacional também pesa. O açaí virou produto estrela em cafeterias e academias mundo afora, de Dubai à Califórnia. O Pará exportou mais de 61 mil toneladas de derivados em 2023, contra apenas 1 tonelada em 1999. Com isso, parte da produção que antes abastecia Belém agora é vendida diretamente a fábricas voltadas ao mercado externo. “Quando você está consumindo açaí absurdamente durante o período da safra, você está tirando de quem consome aqui dentro”, diz Moraes.

Para os moradores da capital, a saída tem sido recorrer à chamada “churamba” ou “chula” — a água residual da lavagem dos caroços. “A pessoa pede, em vez de 1 litro, meio litro mais o resto de água”, relata Tenório. O resultado é um produto mais fino, menos nutritivo e menos saboroso.

O governo do Pará diz que está atento à situação e aposta no projeto PRÓ-AÇAÍ para incentivar o cultivo irrigado e capacitar produtores. Mas os efeitos dessas ações, admite a própria gestão, serão sentidos apenas no médio e longo prazo. Para os pequenos produtores e consumidores, a urgência é agora — e o açaí, cada vez mais distante da mesa.

Com informações da BBC News.


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