O acordo provisório entre Estados Unidos e Irã trouxe o primeiro sinal de alívio após quase três meses de conflito e restrições à passagem de navios pelo Estreito de Ormuz. O petróleo recuou, mas, no Pará, a guerra já havia atravessado o Atlântico pelo caminho mais conhecido das famílias: combustíveis caros, fretes pressionados e alimentos ocupando uma parcela maior da renda.
Chamar o momento de “fim da guerra”, porém, exige cautela. O entendimento anunciado na quinta-feira (18) estabelece uma cessação de hostilidades, a retomada gradual da navegação comercial e um período de cerca de 60 dias para a negociação de um acordo definitivo. Portanto, o alívio existe, mas continua condicionado ao cumprimento dos compromissos pelas duas partes.
A distância entre Ormuz e Belém é de milhares de quilômetros. Na economia, ela foi percorrida em poucas semanas.
O estreito concentra aproximadamente 20% do petróleo comercializado no mundo. Com o bloqueio, o barril do tipo Brent, que começou 2026 próximo de US$ 61, encerrou o primeiro trimestre em torno de US$ 118. A escalada alcançou os derivados, sobretudo o diesel, produto que o Brasil ainda precisa importar apesar de ser grande produtor de petróleo bruto.
Em Belém, dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis reunidos pelo Dieese mostraram que, entre 22 e 28 de março, o litro do diesel S10 custava, em média, R$ 7,34. A gasolina comum estava em R$ 6,79.
Na comparação com o mesmo período de 2025, o diesel acumulava alta de 18,4%, enquanto a gasolina subia 12,2%. A guerra não explica sozinha essas variações — câmbio, tributação, custos de produção e margens de distribuição também interferem nos preços —, mas ampliou uma pressão que já existia.
No Pará, o diesel não fica restrito às bombas dos postos. Ele está no caminhão que transporta mercadorias, nas embarcações que conectam ilhas e municípios, na pesca, nas máquinas usadas no campo e nos deslocamentos entre cidades separadas por grandes distâncias.
Representantes do setor comercial ouvidos durante o conflito apontaram que parte importante do abastecimento de Belém depende de produtos trazidos por rodovias, principalmente das regiões Sul e Sudeste. Quando o combustível sobe, o custo tende a ser distribuído por toda a cadeia — e termina na prateleira.
Para moradores de municípios ribeirinhos e comunidades onde o barco funciona como ônibus, caminhão e ambulância, o impacto pode ser ainda mais direto. A elevação do diesel encarece tanto a viagem das pessoas quanto o transporte da farinha, do pescado, dos medicamentos e de praticamente tudo o que não é produzido no próprio território.
A mesma alta não pesa de forma igual para todos. Em 2025, o rendimento domiciliar mensal por pessoa no Norte foi estimado em R$ 1.558, enquanto a média brasileira chegou a R$ 2.264. Isso significa menos espaço no orçamento para absorver aumentos repentinos de comida, gás, transporte ou energia.
A situação paraense é ainda mais delicada. Segundo o IBGE, 44,6% dos domicílios do Pará enfrentavam algum grau de insegurança alimentar em 2024, a maior proporção entre os estados brasileiros. Em 7% das casas, a insegurança era grave, situação na qual há redução na quantidade de alimentos e episódios de fome.
No conjunto da Região Norte, 37,7% dos domicílios conviviam com insegurança alimentar. A vulnerabilidade também carrega uma dimensão de gênero: no país, mulheres eram responsáveis pela maioria das casas atingidas pelo problema.
É nesse terreno desigual que uma crise internacional encontra as famílias paraenses. Para quem já precisa escolher entre comprar carne, pagar a passagem ou manter a conta de energia em dia, alguns reais acrescentados ao frete não representam uma oscilação abstrata do mercado. Representam comida retirada do carrinho.
Em maio, a cesta básica de Belém custou R$ 755,24, conforme levantamento da Companhia Nacional de Abastecimento e do Dieese. O valor subiu 3,78% em relação a abril e acumulou aumento de 13,3% desde dezembro.
Um trabalhador remunerado com o salário mínimo precisou cumprir 102 horas e 30 minutos de trabalho para comprar os alimentos da cesta. Considerado o salário líquido, após o desconto previdenciário, a despesa consumiu 50,37% da renda.
A inflação oficial de Belém foi de 0,63% em maio, ligeiramente acima da taxa nacional de 0,58%. Em 12 meses, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo acumulou 4,38% na capital paraense.
No país, alimentação e bebidas subiram 1,33% somente em maio e responderam por aproximadamente metade da inflação registrada no mês. O próprio IBGE relacionou parte da alta dos alimentos à menor oferta de determinados produtos e aos custos de frete influenciados pelo combustível.
Nem todo aumento da feira pode ser colocado na conta da guerra. Chuvas, safras, disponibilidade regional, problemas de infraestrutura e atravessadores também interferem nos valores. Ainda assim, o conflito funcionou como mais uma camada de pressão em uma região onde deslocar mercadorias costuma ser caro antes mesmo de qualquer míssil ser lançado.
A reabertura do Estreito de Ormuz e a retomada gradual do transporte de petróleo tendem a reduzir a pressão sobre os preços internacionais. Isso pode ajudar a conter novos reajustes do diesel, diminuir custos de importação e aliviar, ao longo do tempo, o transporte de cargas e passageiros no Pará.
A queda, entretanto, não chega automaticamente ao consumidor. Combustíveis adquiridos quando o barril estava mais caro ainda circulam nos estoques, enquanto câmbio, impostos, logística e políticas comerciais continuam compondo o preço final. Organismos econômicos internacionais avaliam que o petróleo pode recuar, mas não necessariamente retornar de imediato aos níveis anteriores ao conflito.
Durante a crise, o governo federal adotou medidas como desonerações, subsídios ao diesel e reforço da fiscalização contra aumentos abusivos. As ações reduziram parte do impacto, mas também mostraram que a dependência brasileira de derivados importados continua sendo uma vulnerabilidade, especialmente para regiões fortemente dependentes de transporte rodoviário e fluvial.
Para o Pará, a lição deixada pela guerra vai além da geopolítica. Ela passa pela necessidade de melhorar estradas, portos e hidrovias, fortalecer a produção regional de alimentos e reduzir a distância — física e econômica — entre quem produz e quem consome.
A trégua pode fazer o petróleo baixar. Mas recuperar o dinheiro perdido por motoristas, feirantes, pescadores, pequenos comerciantes e famílias pobres é outra negociação, bem mais lenta e sem mesa diplomática.
Por Thaís Raquel de Moraes para o belem.com.br