Dívidas no Pará expõem desigualdade estrutural no Norte

Com renda menor, informalidade alta e cesta básica em alta, famílias paraenses sentem no orçamento um problema que vai além da educação financeira.

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Dívidas no Pará expõem desigualdade estrutural no Norte
Foto: Tomaz Silva | Agência Brasil

O endividamento das famílias brasileiras deixou de ser apenas uma conversa constrangida na mesa da cozinha para se tornar um retrato duro da vida no país. No Norte, e especialmente no Pará, esse retrato ganha contornos ainda mais complexos: renda menor, informalidade alta, alimentos mais caros, serviços públicos desiguais e crédito caro formam uma combinação que empurra parte da população para o parcelamento permanente.

A discussão foi retomada pela Agência Pública, em entrevista com o geógrafo e pesquisador Kauê Lopes dos Santos, autor do livro Parcelado: dinâmicas de consumo na periferia. A tese central é incômoda justamente porque desmonta a explicação fácil: o endividamento não nasce apenas de “descontrole financeiro”, mas de questões estruturais, como desigualdade social, precarização do trabalho, custo de vida e transformação do crédito em solução rápida para problemas que deveriam ser tratados como direitos.

No Pará, essa leitura encontra chão. E não é pouco.

Pará tem renda menor e informalidade entre as maiores do país

De acordo com o IBGE, o rendimento domiciliar per capita no Pará foi de R$ 1.420 em 2025, abaixo da média nacional, de R$ 2.316. A Região Norte também apareceu entre as áreas de menor rendimento médio domiciliar per capita do país, com R$ 1.558, acima apenas do Nordeste.

A diferença de renda ajuda a explicar por que a dívida pesa mais para famílias paraenses. Quando o orçamento já nasce curto, qualquer aumento no supermercado, na conta de luz, no transporte ou no gás deixa de ser variação estatística e vira escolha difícil: pagar a fatura, comprar comida, quitar o aluguel ou empurrar a dívida para o mês seguinte.

O mercado de trabalho aprofunda o problema. No primeiro trimestre de 2026, o Pará registrou 56,5% de informalidade, a segunda maior taxa do Brasil, atrás apenas do Maranhão. Isso significa mais gente trabalhando sem proteção plena, sem previsibilidade de renda e, muitas vezes, sem margem para reorganizar a vida financeira quando a conta atrasa.

Quase metade dos adultos paraenses está negativada

O Mapa da Inadimplência da Serasa mostra que, em abril de 2026, o Brasil chegou a 83,3 milhões de pessoas inadimplentes, o maior número da série histórica. No Pará, 49,22% da população adulta estava negativada. O percentual fica ligeiramente abaixo da média nacional, de 50,81%, mas segue revelando uma realidade pesada: praticamente um em cada dois adultos paraenses convive com restrição no CPF.

No Norte, o alerta é ainda mais forte. Amapá, Amazonas, Tocantins, Rondônia e Roraima aparecem acima da média nacional de inadimplência. O Amapá lidera o país, com 65,62% da população adulta negativada, seguido pelo Distrito Federal e pelo Amazonas, que chegou a 60,5%.

Esses números dizem mais do que uma dificuldade individual de pagar boletos. Eles mostram que o crédito virou uma espécie de ponte improvisada sobre um rio que não para de subir. A ponte ajuda a atravessar o mês, mas cobra pedágio alto.

Cartão de crédito vira armadilha no orçamento

A Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor da CNC apontou que, em maio de 2026, 81,6% das famílias brasileiras tinham algum tipo de dívida. A inadimplência chegou a 29,9%, enquanto 12,3% disseram não ter condições de pagar as dívidas em atraso.

O cartão de crédito segue como a principal modalidade de dívida, citado por 84,6% das famílias endividadas. O problema é que essa é também uma das linhas mais caras do mercado: a CNC apontou taxa de 428,3% ao ano no crédito rotativo.

Na prática, a família compra hoje porque precisa comer, circular, trabalhar, estudar ou substituir um eletrodoméstico quebrado. Depois, paga juros como se tivesse cometido um luxo imperdoável. É uma engrenagem cruel: primeiro o salário vai para o comércio, depois para o banco, e o que sobra precisa sustentar uma casa inteira.

Cesta básica em Belém pressiona ainda mais

Em maio de 2026, a cesta básica em Belém chegou a R$ 755,24, com alta de 3,78% em relação a abril, segundo levantamento do DIEESE em parceria com a Conab. O dado ajuda a entender por que o endividamento não pode ser tratado como simples falta de planejamento.

Na capital paraense, comida é cultura, afeto e identidade. Mas, antes de tudo, é sobrevivência. Quando o preço dos alimentos sobe, o impacto não fica restrito à prateleira do supermercado. Ele chega à feira, ao almoço de domingo, à merenda das crianças, ao pequeno comércio do bairro e ao trabalhador informal que depende do movimento diário para fechar o mês.

Problemas públicos, soluções privadas

A análise de Kauê Lopes dos Santos também dialoga com outro ponto sensível para Belém e para o Pará: quando serviços públicos falham ou chegam de forma desigual, as famílias são empurradas a comprar soluções individuais.

Se o transporte público não atende bem, a moto financiada aparece como saída. Se a escola pública não acolhe como deveria, uma mensalidade barata parece solução. Se o saneamento é insuficiente, aumentam gastos com água, saúde, deslocamento e adaptação da casa. Segundo o Instituto Água e Saneamento, Belém tem 25,3% da população atendida com esgotamento sanitário, enquanto a média do Pará é de 19,1%.

É nesse ponto que a dívida deixa de ser apenas financeira e passa a ser política. O consumidor se endivida para tentar resolver, sozinho, aquilo que deveria ser enfrentado coletivamente como cidadania.

Apostas online agravam vulnerabilidade

A entrevista da Pública também chama atenção para o avanço das apostas online, vendidas como chance rápida de renda em um país desigual. Para quem vive com o orçamento comprometido, a promessa de dinheiro fácil pode funcionar como isca.

No Pará, onde parte significativa da população vive entre renda instável, crédito caro e custo de vida pressionado, esse risco ganha peso. A aposta não substitui salário, política pública nem proteção social. Mas pode capturar justamente quem está tentando, desesperadamente, respirar fora d’água.

Educação financeira ajuda, mas não basta

Cursos de educação financeira podem ser úteis. Ensinar juros, renegociação e organização do orçamento é importante. O problema começa quando essa solução vira a única explicação possível, como se o país inteiro coubesse numa planilha doméstica.

No Norte, o endividamento precisa ser lido junto com renda, trabalho, saneamento, transporte, preço dos alimentos, acesso a crédito justo e presença do Estado. Caso contrário, a conta volta para quem já está pagando demais.

Para o Pará, a pergunta central não é apenas por que as famílias se endividam. É por que tantas precisam se endividar para viver o básico.

Por Thaís Raquel de Moraes para o Portal Belém.


FONTE: Agência Pública
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