A COP30 se aproxima e Belém vive um misto de orgulho e preocupação! O entusiasmo da população em sediar um evento global é visível, mas será que as melhorias na cidade serão duradouras? Discutimos a complexa narrativa entre as promessas governamentais e os desafios reais enfrentados pela capital paraense.
Julho em Belém tem um peso, uma densidade no ar que a gente aprende a respirar desde o berço. É quente, e este ano, especialmente, o mormaço anuncia a chuva, que cai e levanta um cheiro muito próprio de Belém: para mim, é cheiro de terra molhada misturado ao asfalto quente. Em 2025, no entanto, esse ar conhecido está impregnado de uma nova partícula, uma eletricidade quase febril: a contagem regressiva para a COP30. A cidade, nossa senhora de tantos rios e esquecimentos, está sendo vestida para a festa do século, e a pergunta que não quer calar ecoa mais alto que as aparelhagens nos fins de semana: essa roupa de gala é nossa ou é emprestada?
Há um roteiro oficial, uma partitura ensaiada que nos chega em comunicados e discursos otimistas. O senador Fabiano Contarato, em passagem recente, se disse encantado com o brilho nos olhos do nosso povo, com a forma como abraçamos a missão de receber o mundo. E é verdade. Existe um orgulho teimoso, uma vontade genuína de mostrar a nossa cara, o nosso cheiro, o nosso gosto. O governo, por sua vez, promete um dote digno de uma princesa: empregos aos milhares, investimentos que soam como números de loteria e um legado de infraestrutura que transformaria nossa paisagem de abandono em cartão-postal. Pinta-se um quadro onde a COP é a fada madrinha que, com um toque de varinha, resolverá as chagas abertas de uma metrópole amazônica.
Mas nós, que conhecemos as marés desta cidade, sabemos que nem tudo que reluz é ouro – às vezes, é só o reflexo do sol na água suja do canal. Por baixo do véu cintilante da noiva, as cicatrizes continuam lá. A cada pincelada de tinta no meio-fio, a cada novo trecho de asfalto apressado, cresce o ceticismo. As vozes que se levantam das palafitas, dos ônibus lotados, das filas nos postos de saúde, questionam a solidez desse castelo de promessas. É uma reforma para a casa ou apenas uma maquiagem para as visitas? Uma solução ou só um disfarce?
O medo, esse fantasma que assombra nossas esquinas, é que a carruagem da COP vire abóbora à meia-noite de novembro. Que, uma vez apagados os holofotes e partidos os delegados internacionais, a maquiagem escorra com a primeira chuva forte, revelando o rosto de sempre, marcado pela falta de saneamento, pela mobilidade caótica, pela desigualdade que sangra em silêncio. A preocupação é que o banquete seja para poucos, e à maioria reste, como sempre, lavar os pratos.
Lá fora, os olhos do mundo nos encaram com uma mistura de curiosidade e desconfiança. Reconhecem a potência simbólica de discutir o clima no coração da floresta, mas se perguntam se teremos palco para além do discurso. As organizações que realmente sujam os pés de lama na defesa da Amazônia exigem mais que um cenário exótico para fotos oficiais; querem participação, transparência, decisões que brotem da terra e não de gabinetes climatizados. Querem saber se a voz dos povos da floresta ecoará mais alto que o barulho das obras.
E assim seguimos, entre a euforia e a apreensão. Belém se enfeita, se apruma, ensaia seu melhor sorriso. Nutrimos, como bons teimosos que somos, a esperança de que, desta vez, a festa seja para nós. Que o legado seja apenas de concreto, mas de dignidade. Que a noiva, ao final da cerimônia, seja deixada sozinha no altar das promessas quebradas.
Para além dos palcos, a vida real pede passagem. E ela não aceita maquiagem.