COP30 em Belém: Crise de hospedagem ou preconceito?

Queixas sobre preços de hotéis em Belém para a COP30 acende debate sobre xenofobia e revela um problema crônico e global ignorado em edições anteriores do evento

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COP30 em Belém: Crise de hospedagem ou preconceito?
Foto: Raphael Luz/Agência Pará

Este ano, a Amazônia resolveu chover em agosto como se fosse abril. Coincidentemente, uma tempestade conveniente se arma sobre a Belém do Pará da COP da Floresta. A meses da COP30, a capital paraense, primeira cidade amazônica a sediar a mais importante cúpula climática do mundo, encontrou-se no centro de uma polêmica internacional. A queixa formal de delegações à ONU sobre os preços exorbitantes de hospedagem alimenta uma narrativa de caos e despreparo. Contudo, ao trincar a superfície dessa "crise anunciada", o que emerge abaixo do gelo que lentamente se derrete nos polos não é uma falha amazônica, mas um espelho que reflete um problema crônico das COPs e, sobretudo, o preconceito persistente do mundo para com a Amazônia.

A reclamação, que sugere até mesmo a transferência de parte do evento, aponta para a especulação imobiliária que fez imóveis serem anunciados por valores astronômicos e diárias de hotel superarem, e muito, o teto de US$150 estipulado pela ONU. A situação é grave, a pressão, real, e o Governo Brasileiro tem se esforçado para solucionar tudo de forma diplomática. Mas seria esta uma crise sem precedentes mesmo? Uma rápida olhada no retrovisor das últimas conferências mostra que não.

A crise de hospedagem parece ser, na verdade, um "item de série" nas COPs, convenientemente esquecido quando a sede é na Amazônia. Na COP26 em Glasgow (2021), uma nação do G7, a situação foi classificada oficialmente como uma "crise de acomodação". Quartos de hotel chegaram a custar o equivalente a R$109.000 pelas duas semanas do evento, forçando o governo a fretar navios de cruzeiro como "hotéis flutuantes". A combinação de custos proibitivos, falta de vagas e problemas sanitários, como infestações de percevejos, tornou aquela a "COP mais excludente de todos os tempos", barrando milhares de representantes do Sul Global.

O padrão se repetiu nos anos seguintes. Na COP27 em Sharm el-Sheikh, uma manipulação de preços controlada pelo governo egípcio excluiu sistematicamente ativistas e nações em desenvolvimento. Em Dubai (COP28), o luxo da cidade levou as diárias médias ao maior patamar já registrado. E na mais recente, a COP29 em Baku, a combinação de um mercado hoteleiro limitado e uma demanda massiva gerou uma "tempestade perfeita", com tarifas aumentando em até 379%. Se o problema é crônico e global, por que o alarme soa tão mais alto para Belém?

A resposta pode estar na lente do preconceito e da xenofobia com que o resto do Brasil e o mundo enxergam a Amazônia. Comentários depreciativos, como o do jornalista William Waack, que se referiu a um repórter na cidade como estando "lá no meio do mato", não são isolados, mas sintomas de uma visão que associa a região a um espaço selvagem e incapaz. Como aponta a secretária nacional de Mudança do Clima e CEO da COP30, Ana Toni, “essa narrativa é lamentável e revela as complexas relações de poder que cercam essa COP”.

O que essa visão distorcida ignora é a vasta experiência de Belém em gerenciar multidões. Anualmente, o Círio de Nazaré mobiliza mais de dois milhões de pessoas, um feito logístico extraordinário que se apoia não só na rede hoteleira, mas em um imenso capital social de acolhimento, com a maioria dos visitantes se hospedando em casas de conhecidos, parentes ou amigos. Além disso, em 2009, a cidade sediou o Fórum Social Mundial, recebendo cerca de 133.000 participantes de 142 países e cinco presidentes latino-americanos. Já provamos, portanto, nossa capacidade tanto em lidar com milhões de visitantes, quanto em ser o centro de um debate global.

Longe da inércia, os governos federal e estadual já mobilizaram investimentos bilionários para a COP30. O Ministro do Turismo, Celso Sabino, confirmou que o aporte à Belém para o evento é de mais de R$4 bilhões em infraestrutura, saneamento e mobilidade. O plano de acomodação inclui a contratação de navios de cruzeiro, a construção de novos hotéis e a reserva de 2.500 quartos com tarifas subsidiadas para delegações de países em desenvolvimento.

 

A postura oficial é firme, como reforçou André do Lago:
"
A COP30 vai ser em Belém. Não tem plano B".

 

No fundo, a polêmica da hospedagem expõe o verdadeiro desafio da COP30: não a capacidade de Belém, mas a disposição do mundo em enxergar a Amazônia para além dos estereótipos. Realizar a cúpula no coração da floresta é uma oportunidade de imersão na realidade de quem vive os impactos da crise climática no dia a dia. O sucesso do evento não será medido pela conformidade com padrões europeus, mas pela coragem de ser a conferência mais representativa e transformadora da história, precisamente por acontecer aqui, onde a crise e necessidade da solução pulsam a cada dia mais forte.


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