Brasil mostra lição de maturidade democrática, diz The Economist

Revista britânica destaca julgamento de Bolsonaro e aponta contraste com a democracia norte-americana.

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Brasil mostra lição de maturidade democrática, diz The Economist
ilustração de Gregori Saavedra para The Economist

De um inusitado e irônico norte, sopra um vento que talvez nos ensine a olhar para o nosso próprio quintal com outros olhos. É que, vinda do centro do capitalismo global, das páginas de uma das mais influentes e austeras publicações do mercado, a revista britânica The Economist, a manchete soa quase como uma miragem, um delírio tropical em meio à fleuma londrina: “Brasil oferece aos EUA uma lição de maturidade democrática”. Uma inversão de papéis tão drástica que nos obriga a parar e respirar fundo.

Afinal, nós, os filhos de uma terra tantas vezes carimbada pela instabilidade, pela república de um fruto só, estamos agora na capa do mundo como um exemplo. E o motivo é a nossa ferida mais recente, a cicatriz que ainda coça em dias de alucinação política: o enfrentamento institucional aos delírios golpistas de um ex-presidente. A reportagem mergulha na forma como o Brasil, através de suas instituições, conseguiu amarrar as mãos de Jair Bolsonaro, enquanto, do outro lado da linha do Equador, a dita "maior democracia do planeta" ainda patina para lidar com seu próprio fantasma de topete laranja, Donald Trump.

O que a revista britânica aponta, com uma clareza que por vezes nos falta, é a força de um sistema que, mesmo sob ataque, não verga. Enquanto Bolsonaro, em seu palanque eletrônico, tentava dinamitar a confiança nas urnas e flertava despudoradamente com a ruptura, o Supremo Tribunal Federal (STF) e o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) se tornaram a muralha. Agiram, segundo a publicação, de forma “decisiva”. Uma palavra que ressoa com o peso de um martelo batido na mesa, garantindo não apenas a realização das eleições de 2022, mas o respeito ao seu resultado. O ato final desse enredo foi a declaração de inelegibilidade do ex-presidente, e sua posterior prisão domiciliar, bem como sei julgamento marcado para o início de setembro: consequências diretas e didáticas de seus ataques sistemáticos ao próprio jogo que desejava jogar.

É nesse ponto que o "espelho" se quebra, pois as imagens de Brasil e Estados Unidos se distanciam. Lá, o processo contra Trump se arrasta como uma novela de roteiro duvidoso, alimentando o circo político e aprofundando as trincheiras de uma nação rachada. Aqui, a resposta foi ágil, quase cirúrgica. A decisão do TSE de retirar Bolsonaro do tabuleiro eleitoral não foi apenas uma punição, mas um recado ecoado em letras garrafais: a democracia tem mecanismos de defesa, e eles serão usados. Um aviso para navegantes de futuras tempestades autoritárias.

Claro, as semelhanças entre os dois líderes são a gênese dessa comparação. The Economist não ignora o parentesco óbvio de suas almas políticas: o populismo inflamado, a retórica que mira o sistema para implodi-lo por dentro, o cultivo de teorias conspiratórias como se fossem orquídeas raras em um jardim de mentiras. Ambos mobilizaram suas legiões de fiéis com o mesmo manual. A diferença crucial, contudo, está no epílogo. Enquanto Trump segue como protagonista elegível no palco americano, Bolsonaro foi empurrado para as coxias por uma decisão da Justiça.

Esse desfecho, para a revista, é o atestado da nossa maturidade. Uma prova de que o Judiciário brasileiro, mesmo acuado e alvo de uma pressão asfixiante, respirou fundo e fez valer a Constituição. E assim, o país que tantas vezes importou crises e manuais de instabilidade, agora exporta uma lição. Uma lição amarga, nascida da dor e da tensão, mas valiosa: a de que a democracia se fortalece não quando ignora suas ameaças, mas quando as encara de frente, com a lei na mão e a coragem de aplicá-la.

É um reconhecimento que soa estranho aos nossos ouvidos, acostumados ao som do vira-lata. Mas, por um instante, a estabilidade de nossas instituições, forjada no calor de uma crise sem precedentes, nos coloca como um farol inesperado, mostrando que é possível superar as trevas da ruptura sem apagar as luzes da República.

A democracia é essa estranha flor que, para provar que tem raízes, precisa sobreviver ao veneno que tentam lhe dar de beber.


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