COP30: Alckmin abre plenária e cobra fim das promessas vazias

Vice-presidente reforça meta de desmatamento zero e urgência climática diante de 160 ministros na capital paraense; semana decisiva busca consenso financeiro.

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COP30: Alckmin abre plenária e cobra fim das promessas vazias
Foto: COP30

A semana começou decisiva aqui na nossa Belém. Antes mesmo da chuva da tarde desabar sobre a cidade, o clima dentro da Plenária Amazonas já era de tensão e expectativa. Nesta segunda-feira (17), às 10h30 da manhã, a capital paraense virou, de vez, o centro da diplomacia climática global com a abertura do Segmento de Alto Nível da COP30. Cerca de 160 ministros e chefes de delegação estão reunidos no na Plenária Amazonas (Blue Zone) para tentar destravar o que os técnicos não conseguiram na primeira semana: quem paga a conta e como financiar, de fato, a transição climática.

Quem deu o tom da urgência foi o vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Geraldo Alckmin. Em seu discurso de abertura, ele abandonou qualquer verniz excessivo de diplomacia e foi direto ao ponto: “O tempo das promessas acabou. Cada grau a mais representa mais perdas e mais risco à vida, especialmente dos mais vulneráveis.”

A frase ecoou no plenário e marcou a expectativa em torno da COP realizada em Belém: que esta seja a conferência da verdade, da implementação e da responsabilidade, não apenas mais um capítulo de discursos bem escritos e ações tímidas.

Alckmin reafirmou o compromisso do Brasil com o desmatamento zero até 2030 e ressaltou a aposta em biocombustíveis, citando o aumento para 30% de etanol na gasolina como exemplo de política concreta em curso. Mas o recado principal foi dirigido aos países ricos. As contas apresentadas deixam claro o tamanho do buraco: as promessas de financiamento climático, hoje na casa de US$ 300 bilhões, representam algo em torno de 23% do necessário para a próxima década. É pouco para a dimensão da crise – como tentar apagar um incêndio na floresta com um copo d’água.

Do outro lado do palco, o secretário-executivo da ONU para Mudança do Clima, Simon Stiell, reforçou o alerta. Ele elogiou o “espírito de cooperação” em Belém, mas lembrou que isso não basta. Falou em necessidade de uma “cooperação climática firme em um mundo fraturado” e deixou implícito o recado que circula nos bastidores: sem dinheiro novo e previsível, as metas de mitigação e adaptação continuam mais próximas do papel do que da realidade.

A pauta política entra em cena

Com a abertura da plenária de Alto Nível, a COP30 faz oficialmente a transição da fase técnica para a fase política das negociações. A partir de agora, são ministros e altas autoridades que assumem as conversas para tentar destravar nós que se repetem em cúpula após cúpula:

Financiamento climático: quem paga a conta da transição e em que condições. Países em desenvolvimento defendem mais doações e menos empréstimos, especialmente para nações endividadas que já lidam com enchentes, secas e eventos extremos recorrentes.

Adaptação: como proteger cidades e populações que já estão sentindo o peso da crise climática no dia a dia, do aumento do nível do mar às ondas de calor, passando por cheias mais intensas em rios amazônicos.

Mercado de carbono: definir regras claras para garantir que a floresta em pé e outros biomas protegidos valham mais do que a destruição, evitando brechas para “contabilidade criativa” de emissões.

Fósseis e meta de 1,5°C: ampliar a ambição na redução de emissões, em linha com a chamada “Missão 1,5”, e responder à pressão de países vulneráveis por um caminho claro para a superação da dependência de combustíveis fósseis.

Ao longo da semana, delegações de países como Alemanha, Indonésia, pequenos Estados insulares e nações africanas mais vulneráveis devem disputar, palavra por palavra, o texto final que sairá de Belém. Para muitos, essa pode ser a última chance de manter viva a janela de oportunidade para limitar o aquecimento global a 1,5°C.

Belém no mapa do mundo – e o mundo nas ruas de Belém

Enquanto as gravatas e os ternos circulam pelos corredores climatizados da COP30, lá fora a vida segue pulsando. No sábado (15), a Marcha Mundial pelo Clima tomou as ruas da cidade, reunindo movimentos sociais, organizações ambientais, povos indígenas, quilombolas e moradores que convivem no cotidiano com as mudanças no regime de chuvas, na vazante e na cheia dos rios.

A mensagem que vem das ruas é direta: a COP30 não pode ser um evento restrito a gabinetes fechados. Ela acontece no meio da nossa gente, que sente na pele a combinação de crise climática, desigualdade e falta de infraestrutura básica.

Belém vive um momento único: Hangar, PCT Guamá, Ver-o-Peso, Estação das Docas e bairros inteiros entraram na rota de visitantes, delegações, ativistas e jornalistas do mundo todo. No TechZone do PCT Guamá, soluções tecnológicas para uma economia de baixo carbono dividem espaço com debates sobre justiça climática, ciência e conhecimento tradicional. A cidade respira COP em cada esquina – entre o cheiro de chuva, tacacá, peixe frito e a correria diária.

A “Missão 1,5º” e o desafio que sai de Belém

A expectativa é que, ao final desta segunda semana, Belém entregue ao mundo um “Roteiro da Missão 1,5º”: um caminho político e econômico que torne crível a promessa de não ultrapassar esse limite crítico de aquecimento. Isso passa por dinheiro novo, metas mais ambiciosas e, sobretudo, por uma mudança de prioridades: colocar gente e floresta no centro das decisões.

Para os paraenses, há também um componente simbólico poderoso. Ao sediar a COP30, a Amazônia deixa de ser apenas cenário e vira palco – e protagonista – das discussões globais sobre clima. O recado de quem vive aqui é simples e direto: não existe solução climática duradoura que ignore a Amazônia e o seu povo.

Belém, que já aprendeu a conviver com a chuva forte e o calor pesado, agora se acostuma com outra pressão: a de ser a cidade onde o mundo veio cobrar respostas. Se essas respostas virão à altura da crise, é o que os próximos dias vão mostrar.

Serviço – como acompanhar a plenária

1. O que está acontecendo: abertura e sessões da Plenária de Alto Nível da COP30, com participação de cerca de 160 ministros e chefes de delegação.

2. Onde: Plenária Amazonas e demais espaços oficiais da COP30, em Belém do Pará (blue zone).

3. Transmissão: a programação oficial, incluindo os principais discursos, pode ser acompanhada ao vivo pelo canal oficial da COP30 no YouTube: https://www.youtube.com/live/vxz6YpBjRoc .

4. Quando: segunda semana da conferência, começou hoje, dia 17, e é considerada a fase decisiva para o fechamento dos textos de decisão,; a COP30 se encerrará dia 21 de novembro.


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