30/11/2020 às 09h57min - Atualizada em 30/11/2020 às 09h57min

Consciência negra: os estereótipos limitam nossa capacidade

Termina hoje o mês da consciência negra

Fernando Matos
(Foto: Joel Rufino - divulgação)
      
Raros serão os aspectos de nossa cultura que não tenham sido moldados com a ajuda da mão e da inteligência africanas e afro-brasileiras. No teatro, religião, música, dança, alimentação e língua, temos a influência negra, apesar da repressão que sofreram as suas manifestações culturais mais cotidianas.

O dia 20 de novembro, além de ser uma data de exaltação das culturas negras nacionais, é um marco para relembrar também sobre uma problemática muito drástica no contexto social brasileiro: o racismo. Esse preconceito ignora completamente as heranças da cultura africana na formação do que é a nação brasileira hoje. Por isso, decidimos ressaltar em nossa coluna, uma importante contribuição cultural, de raiz africana, de um dos mais renomados artistas brasileiros. 

Trata-se de Joel Rufino dos Santos,  nascido no Rio de Janeiro, em 19 de junho de 1941. Professor, historiador, romancista e intelectual engajado na causa negra e que teve seus trabalhos censurados pela ditadura civil-militar de 1964, posteriormente tendo sido um dos nomes de referência sobre o estudo da cultura africana no país. Figura indubitavelmente entre os mais destacados intelectuais negros brasileiros de todos os tempos, com dezenas de livros publicados desde meados do século passado. 

Sua produção transita da historiografia para a ficção e daí para a crítica, sendo possível muitas vezes verificar o quanto, num mesmo texto, esse trânsito se metamorfoseia em mescla discursiva decorrente do entrelaçamento do fato com a imaginação. E o mesmo se dá com suas estórias ditas infantis ou juvenis, a agradar leitores de todas as idades; ou com construções próximas da metaficção, em que literatura e crítica dialogam todo o tempo. 

Como historiador, suas preocupações abrangem a Colônia e o Império; a República e suas vicissitudes. Já no campo das relações raciais, é autor de livros como O que é racismo (1982) e Abolição(1988), além das instigantes biografias de Zumbi dos Palmares (1985) e Carolina Maria de Jesus (2009).

Seu mais recente trabalho – A história do negro no teatro brasileiro – constitui-se em valiosa contribuição para o estudo do tema. Sem deixar de lado as primeiras encenações promovidas no período colonial, Joel Rufino dos Santos nos apresenta um denso painel, que percorre a cena teatral do país desde seus começos mais efetivos, após a Independência, até o século XXI, quando assistimos em diversos pontos do país a proliferação de grupos empenhados em produzir um teatro negro na forma e no pensamento.

O autor explicita como o negro aparece inicialmente reduzido a objeto da escrita e da cena concebida pelo branco. E como, após o fim da escravatura, é impedido de atuar e tem que assistir atores brancos “brochados” de preto falarem por ele nos palcos. O que parece inacreditável para muitos ganha estatuto de verdade histórica: salvo as pouquíssimas exceções que só fazem confirmar a regra, somente a partir de meados do século XX, com as atividades pioneiras do TEN – Teatro Experimental do Negro – este começa a se erguer a sujeito de seu discurso e a colocar em cena corpo, voz, fala e dramas por tanto tempo impedidos de chegar às plateias. 

A história do negro no teatro brasileiro perpassa criticamente todos esses momentos até à diversidade contemporânea, tanto em termos regionais, com produções de valor fora do eixo Rio-São Paulo, quanto no tocante a procedimentos, temas e concepções.

Nos palcos, a virada de página definitiva começa a ocorrer a partir do surgimento do Teatro Experimental do Negro, dirigido por Abdias do Nascimento, com o objetivo declarado de “reabilitar a identidade, a herança cultural e a dignidade humana dos afrodescendentes". A partir do TEN e outros grupos que vão surgindo, saem de cena os brancos enegrecidos a carvão ou tinta, para que atrizes e atores afro-brasileiros tomem as rédeas da encenação.

Joel Rufino dos Santos foi agraciado com o Prêmio Jabuti de Literatura, com o livro Uma estranha aventura em Talalai. No ano de 2000, venceu o Prêmio Orígenes Lessa na categoria “O Melhor para o Jovem” e assim, deixou um importante legado para a posteridade, seja por meio dos inúmeros livros voltados a leitores das mais diferentes idades e aptidões, seja pelo exemplo de vida intelectual pautada pelo compromisso com os subalternos de todas as épocas e lugares.

Comemorar o Dia Nacional da Consciência Negra é uma forma de homenagear e manter viva em nossa memória essa figura histórica tão importante para a cultura de todas as raças.
  
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Fernando Matos

Fernando Matos

Fernando Matos é ator, autor, diretor teatral e professor. Sua paixão por teatro surgiu desde a infância.

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