30/03/2021 às 10h24min - Atualizada em 30/03/2021 às 10h24min

Evoé!

A fotografia do teatro no mundo

Fernando Matoa
A juventude de Baco, em pintura de William Adolphe Bouguereau. (Representação: William-Adolphe Bouguereau/Erik Cornelius / Nationalmuseum)
      
Qualquer um que estude, faça ou frequente o teatro já escutou alguém soltando a interjeição “Evoé!” como forma de expressar alegria e entusiasmo, especialmente em assuntos relacionados ao teatro. Mas, além de ser um grito de felicidade e empolgação, o que mais representa essa saudação?

“Evoé!” era o que gritavam os participantes dos bacanais como forma de invocar Baco (ou Dioniso, para os gregos), Deus do vinho e das festas. As bacantes – ou mênades, mulheres devotas do Deus – entoavam “Evoi! Evoi!”. Assim, brindes e gritos permeavam essas orgias ritualísticas.

O termo também tem grande valor simbólico para o carnaval – festividade que também tem suas raízes associadas ao culto de Dioniso. Para situar melhor o leitor, aí vai um trecho da tragédia “As Bacantes”, de Eurípedes, que também foi encenada no Brasil, por Zé Celso e seu Teatro Oficina:

“Entre gritos de Evoé, ele clama:
Ide, Bacantes!
No esplendor do Tmolo que rola torrentes de ouro,
celebrai a Dioniso
pelo rufar dos tamboris,
glorificando o deus Evoé com Evoés, em gritos estridentes ao modo frígio, quando o sacro loto de melodioso tom fizer ecoar os sacros acordes dos folguedos, em uníssono c’os espíritos alucinados, para a montanha, para a montanha!
Então, plena de deleite, como a poldra que com a mãe vai pascer, a Bacante seus pés velozes em saltos agita…”

 
Tido como uma das mais antigas manifestações culturais da humanidade, o teatro abre espaço para que artistas se expressem por meio de interpretações de roteiros que trazem sempre questões atuais da sociedade. Isso ocorre em forma de protesto ou apenas como uma maneira diferente de tratar desses assuntos.

Tal abordagem existe desde os primórdios da arte e já foi muito perseguida em períodos de pouca liberdade de expressão cultural, em diversas nações ao redor do mundo. Esse viés caracterizou o teatro como uma atividade intelectual, além de artística.

Isso porque seus palcos sempre foram locais de debates dos problemas e das dores sofridas pelo povo, ainda que, algumas vezes, implicitamente. Devido à romantização dos talentosos artistas presentes nas apresentações, é comum haver a necessidade de uma interpretação.

Por conta de sua atuação, o teatro foi, ao longo do tempo, se tornando grande fonte de cultura para o povo. As representações desenvolvidas com alto cunho filosófico e contestador estimulavam o pensamento e o senso crítico dos atores e, também, de quem estava assistindo às peças. Percebendo essa grande ferramenta de comunicação com a sociedade, cada vez mais os grupos de teatro entenderam que ali eles poderiam abordar diversos temas importantes.

O teatro é também uma forma de expressão social e política do homem, para além da arte ou do entretenimento. Os textos e as encenações são reflexos de formas de pensamento, épocas e vivências sociais. Funcionam também como o retrato de um período ou uma sociedade.

Por ser uma das principais artes do mundo, o dia 21 de março foi dado o título de Dia Universal do Teatro. Por isso, senhoras e senhores, atenção ao terceiro sinal. Vamos abrir as cortinas para os atores que nos palcos representam dramas e comédias, suspenses e romances. Tantas emoções e personagens que fazem do teatro uma arte que nunca deixa de encantar.

Por isso, seria difícil imaginar a nossa vida sem a presença da arte e todos os seus componentes. Tudo ficaria cinza e sem graça; os dias seriam longos e as noites seriam entediantes.

Isso porque a maioria de nossos hobbies desapareceria. Ir ao cinema, por exemplo, não seria uma opção, afinal de contas, filmes não seriam produzidos. O mesmo aconteceria com o bom e velho teatro.

Mesmo que a gente não perceba, a arte está constantemente ao nosso redor: ela pode ser percebida em panfletos, em outdoors e até mesmo nos memes bobos que nós adoramos compartilhar nas redes sociais.

É por isso mesmo que é de extrema importância dar valor ao teatro em todas as formas que ela nos é oferecida. Por esse motivo o teatro é altamente apreciado até os dias de hoje. Apesar de ter passado por certas modificações, sua alma e suas tradições continuam as mesmas. Sendo assim, Viva Dionísio (Evoé), Viva as festas (Evoé), Viva a fertilidade (Evoé), Viva o vinho (Evoé), Viva o Teatro (Evoé).
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Fernando Matos

Fernando Matos

Fernando Matos é ator, autor, diretor teatral e professor. Sua paixão por teatro surgiu desde a infância.

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