11/11/2019 às 14h53min - Atualizada em 11/11/2019 às 14h53min

Mulheres: Vivência Feminina e Consciência Feminista

Texto de Luzia Miranda
Foto: Raoni Arraes
   
“-Qual a cor das roupinhas do bebê?” 
“-Ah, fiz rosa e azul, porque se for menina ou menino não vou ter problema”. 
- Porque ? 
- Ah, como vou vestir um menino de rosa? Imagina o que vão dizer? 
- O que vão dizer, então? 
- Todo mundo fica dizendo que o menino que veste róseo é gay ... 
- E a menina, veste rosa porquê? 
- Porque é mais delicada... não tem essa história de ser gay. 

No processo das relações humanas em que as fases da vida constroem perfis para meninos e meninas, as mulheres já nascemos com os estigmas da diferença, mesmo tão insignificantes, a exemplo, certos significados que as cores revelam. No site https://www.significados.com.br/cor-de-rosa/ veja o que as pessoas responsáveis por essas versões evidenciam como representação dessa cor: 

 

“Cor-de-rosa significa romantismo, ternura, ingenuidade e está culturalmente associada ao universo feminino. Aliás, outras características como beleza, suavidade, pureza, fragilidade e delicadeza manifestadas pela cor rosa, geralmente, são também atribuídas às mulheres” (Empresa 7Graus Ltda, CNPJ no 17.051.876/0001-60). 


E sobre a cor azul, o que diz esse dicionário de significados? 

“A cor azul significa tranquilidade, serenidade e harmonia, mas também está associada à frieza, monotonia e depressão. Simboliza a água, o céu e o infinito.

É a cor da realeza (sangue azul) e da aristocracia. É uma cor fria, considerada a mais fria entre os tons frios de azul, verde e violeta.” 


No texto de Ed Francisco “Significados e Psicologia das cores...” diz o autor: “A cor é uma linguagem individual. O homem reage a ela subordinado às suas condições físicas e as suas influências culturais.” (https://www.chiefofdesign.com.br/significado- das-cores/). Isso repercute na versão que é extraída desse elemento cor através de sistemas simbólicos onde a cultura se impregna. 

Inicio este texto evidenciando os modelos de representação social que as mulheres investem desde seu nascimento. São versões que apontam as marcas da diferenciação tendentes à discriminação, impregnando-se em suas mentes, em seus corpos, em suas vivências a ponto de internalizarem certas ideias justificadoras do que os outros pensam, em forma de desigualdades morais/comportamentais traduzindo-se na visão, impregne, muitas vezes, de negatividade sobre o modo de ser de si mesmas. Então, o processamento dessas ideias se torna a naturalização do que é ser feminino. Chama-se a isso de violência simbólica. 

É dessa vivência feminina estabelecida por um sistema social patriarcal de normas e leis determinantes dos modos de ser comportamental de mulheres e homens que o mundo se recobre de paradigmas discriminadores com ênfase na diferença biológica tendente à desigualdade entre os sexos, desde o aspecto profissional, à linguagem, aos saberes, aos meios de comunicação, às indumentárias que devem vestir etc., tornando-se algo que impacta a vida das mulheres levando-as ao paroxismo da violência de gênero. A caracterização e distinção de masculino e feminino, em muitas culturas, tomou como base essas diferenças biológicas/corporais e depois, a estas, associou diferenças psicológicas, criando-se uma cultura do feminino. Essa cultura funcionava e funciona de muitas formas entre as mulheres. Por isso, elas culpam-se por não seguirem os costumes da tradição feminina; internalizam esses modelos e silenciam para não serem malvistas socialmente; aceitam o convívio com a infidelidade do marido e por aí seguem considerando, ainda, que o lar /a tarefa doméstica é o cuidado da tradição familiar reproduzido para todas as mulheres.

O resultado das contradições da vivência do ser humano mostrando que as mulheres também são humanas e também têm seus direitos, levantou o grau de incertezas que elas apresentam sobre o “quem eu sou mesmo?” Em meio às correntes de pensamento e a realidade vivida observaram que as diferenças negativas eram construídas por uma hierarquia de poder masculino definida pela cultura das relações sociais entre os gêneros (cf. Joan Scott, 1989). 

Consequências: as mulheres aprendem a ser “femininas” e submissas, e são controladas nisso, e também os homens são vigiados na manutenção de sua masculinidade; eles devem aprender a ser dominadores e ativos e as mulheres a serem submissas; se as mulheres devem ser castas, os homens devem conhecer os limites para atentar contra esta castidade. A crença dessa condição deriva dos discursos de validação da hierarquia histórica e culturalmente estabelecida, tal como a versão, por exemplo, que define a mulher, dentre outros, como objeto do prazer masculino. Com esse raciocínio de validação da hierarquia, o dominador procura justificar as atrocidades cometidas contra as mulheres, a exemplo, a cultura do assédio (moral ou sexual). 

As mulheres iniciaram, então, uma luta cerrada para conquistar os seus espaços, para saber quem elas eram, para avaliar a realidade social que as ignorava em vários níveis de convivência. Nesses percursos criaram movimentos de reconhecimento e passaram a lutar pelos seus direitos. Esse é o momento de formação de um coletivo em que elas criaram estratégias e perceberam que a sua consciência crítica aos modelos do tratamento aplicado sobre elas define a sua consciência política. O feminismo é, justamente, o reconhecimento a esse momento de emancipação das amarras de uma cultura tradicional de papéis, mostrando que há espaços, caminhos, valores construídos para todas as mulheres como seres humanos. 

Na verdade, pode se afirmar que o feminismo sempre existiu, em diferentes sentidos. No sentido mais amplo do termo - sempre que as mulheres individual e coletivamente questionaram seu destino sobre o patriarcado e reivindicaram uma vida melhor, ele está presente. Oferece reconhecimento sobre: 

1. a dimensão da vida humana, socialmente construída: identidades pessoais e sociais e relações entre homens e mulheres fazendo parte da nossa vivência; 
2. sexo e sexualidade - não estão vinculados somente pelo lado “animal” da espécie humana, mas são expressão de sua humanidade; 
3. construção histórica (tempo, espaço), variável (épocas, sociedades/culturas e interior destas): não há uma identidade masculina e uma identidade feminina única, fixa e imutável, universal, válida para todos os tempos e espaços;
4. modos como sociedades/grupos sociais interpretam/dão significado às diferenças entre os sexos e as relações que se estabelecem entre si (impulsos sexuais, relacionamentos afetivos, reprodução da espécie), e compreendem representações, imagens, práticas sociais, valores. 

Nessa reação das mulheres há uma abrangência coletiva considerando-se um tempo e um momento: emerge com a modernidade e o Iluminismo com as promessas da emancipação dos seres humanos pela razão e progresso social, com o conhecimento científico. 

As mulheres, então, ganharam as ruas, em intensas mobilizações pelo mundo inteiro, reivindicando políticas públicas para as várias áreas de suas necessidades, e ocupam espaços no mercado de trabalho em funções públicas variadas. 

Esse é outro tempo, então, o da consciência feminista.
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